• Marcus Vinícius Beck

“A vida é agitada e muitas vezes difícil”, diz Leonardo Padura

Entrevista

Escritor revela como estão seus novos projetos e conta como é a vida em Cuba

Padura é um dos principais nomes da literatura cubana - Foto: Reprodução

São boas as razões para acreditar que o melhor livro do escritor cubano Leonardo Padura, 64, é O Homem que Amava os Cachorros (ed. Boitempo): estourou no mundo todo, foi alvo de críticas positivas em jornais de renome planetário, tem uma escrita elegante, fluída e leve. Foi um enorme desafio que Padura tirou de letra. Mas para o escritor, seu principal livro não é a biografia do revolucionário Leon Trotsky, e sim O Romance da Minha Vida, obra lançada originalmente em 2002 e agora editada em português pela Boitempo.


O enredo gira em torno de um poeta nascido em Cuba, que é considerado um dos primeiros românticos da América Latina, mas que precisou seguir um caminho bastante comum na história do país caribenho: o exílio por razões políticas. José María Heredia, como se chama o protagonista do romance, fazia parte da maçonaria, tinha ideários pró-independência e levantava em sua produção a bandeira da liberdade. “É uma novela sobre a formação de Cuba, sobre o drama do exílio”, diz o escritor, com exclusividade, ao Jornal Metamorfose.


Confira a entrevista na íntegra


Jornal Metamorfose - Como estão as coisas em Cuba?


Leonardo Padura - Complicadas. Sempre complicadas. Entre nossos problemas internos e as pressões externas, a vida é agitada e muitas vezes difícil. O novo governo trabalha muito, mas não se vê melhorias em relação ao futuro. Talvez em algum momento a economia comece a dar frutos. No âmbito cultural seguimos com problemas práticos, como a falta de papel para imprimir livros e a falta de uma mentalidade aberta dos dirigentes e instituições culturais, que não entendem que estamos em outro tempo, em outro século, em outras conjunturas e que nem todos os problemas se resolvem com censura.


Metamorfose - Quando nasceu a ideia de fazer O Romance da Minha Vida?


Padura - Foi no final da década de 1990. Eu havia terminado as quatro novelas que formam a tetralogia de Mario Conde, As Quatro Estações, e precisava de uma mudança total em minha escrita. De estilo, ambiente, personagens, estrutura, depois de escrever quatro obras em que todos esses elementos funcionavam de um modo parecido para manter a unidade do conjunto. E um dia li uma frase do poeta José María Heredia e ali estava tudo o que andava procurando: um personagem que permitisse me mover por outros ambientes e linguagens, e comecei a novela, que foi para mim muito difícil de escrever, pois não era apenas uma mudança de estilo, e sim uma mudança sobre o todo, uma responsabilidade: ia falar sobre a origem de Cuba, o destino de Cuba, do poeta e da pátria… mas visto pela perspectiva do presente e como um problema eterno da nação.


Metamorfose - Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o senhor disse que O Romance da Minha Vida é o seu trabalho mais importante, inclusive mais do que O Homem que Amava os Cachorros. O que há de especial na obra?


Padura - Já te disse antes. É uma novela sobre a formação de Cuba, sobre o drama do exílio, sobre a decisão de seguir sendo cubano mesmo com a distância que sempre foi algo tão marcante em nossas vidas. É uma novela de muitos personagens, mas com um contexto histórico que se estende do início do século XIX até o final do XX, e de criadores, como o poeta, que sempre teve de lidar com as incompreensões da política e lutar contra elas. Daí a abordagem literária, embora o romance acabou tendo com um grande apelo político.


Metamorfose - O senhor trabalhou muitos anos como jornalista. Chegou a exercer o ofício quando Fidel Castro estava no poder? Como foi?


Padura - Trabalhei como jornalista entre 1980 e 1995. Desde então o faço de maneira independente, como colaborador de agências, jornais, revistas. Por exemplo, durante três anos fui colunista fixo da Folha de São Paulo e por 20 anos colaborador fixo da agência IPS. O jornalismo sempre foi uma maneira de expressão que complementa a literatura, que me libertava de assuntos cotidianos que não podia levar às novelas. Na década de 1980 foi um importante meio para experimentar o que na sequência seria meu estilo literário.


"O jornalismo sempre foi uma maneira de expressão que complementa a literatura, que me libertava de assuntos cotidianos que não podia levar às novelas" - Leonardo Padura, escritor


Metamorfose - O senhor é considerado um dos nomes mais importantes da literatura latino-americana. Segue escrevendo? Como está a sua carreira?


Padura - Claro que estou escrevendo… Enquanto eu aguardava chegar suas perguntas pelo e-mail estava preparando uma versão de uma novela que quero publicar neste ano. E eu tenho em mente uma ideia que… talvez… minha carreira está em uma subida que não tem fim. Escrevo uma novela, publico-a e penso em uma nova e… digo que tem que ser melhor que a recém escrita. Eu sempre me desafio. O dia em que deixar de fazer isso será também o dia em que deixarei de escrever. E embora receba prêmios e reconhecimentos, nenhuma dessas satisfações me resolve. É o grande problema da criação, que é poder dizer da melhor maneira o que você quer dizer: se você o faz, você está escrevendo bem, se não consegue… pois tem que insistir até conseguir ou… saia do ringue e pendure as luvas.


Metamorfose - Suas obras possuem uma pegada noir. Por que essa escolha estética?


Padura - Porque o gênero noir é muito gostoso. Você pode fazer dentro dele o que quiser: novela histórica, filosófica, erótica, o que te dá desejo e… sem deixar de fazer o que chamam de ‘clima noir’. A novela noir, também, te conecta sempre com os lados escuros da sociedade e dos indivíduos. E a obscuridade é muito mais dramática que a claridade e a felicidade.


Metamorfose - Quais escritores te influenciaram como artista?


Padura - Milhares… ainda hoje recebo influências… Mas duas escolas literárias foram fundamentais: a novela norte-americana do século XX, que influenciaram os autores de novelas noir (e entre eles estão Hemingway, John Dos Passos, William Faulkner, Updike, Hammet. Chandler, etc) e a novela em língua espanhola (e mencionaria a Carpentier, Vargas Llosa, Garcia Márquez, Rulfo, Vásquez Montalban, Cabrera Infante, e um gigantesco etcetera…)



Metamorfose - Como é escrever para o streaming e para o cinema? É diferente da literatura? Conte um pouco sobre sua experiência como roteirista.


Padura - Escrever para o cinema requer que você decole. Pega o uniforme de novelista e veste o de roteirista. São ofícios parecidos, mas são diferentes. Na novela, você é o proprietário de todas as decisões. No cinema, o personagem é muito mais importante, é o que cria a história, mas não é apenas ele que decide: para isso estão ali também o diretor e o produtor. Tem que assumir que está fazendo um trabalho de serviço, escrevendo um texto que não será lido, e sim visto na tela. Isso muda tudo.


Metamorfose - Há algum projeto em vista? Qual?


Padura - O que comentei antes. É uma novela que se chama Os Fragmentos do Ímã, e que fala sobre os dramas do exílio da minha geração e dos filhos da minha geração. É uma novela em que sou muito duro com determinadas políticas cubanas e, sobretudo, com a atitude de alguns cubanos, de dentro e de fora da ilha… É uma novela que, espero, toque muita gente e… provoque reações. Mas desde já eu digo: não escrevi para fazer favor a ninguém e sim para dizer o que penso e o que quero.