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Fuzilados no Rio

Artigo

A violência está enraizada no cotidiano do brasileiro desde a colonização. O escravizado era propriedade, privado de qualquer direito. De acordo com dados atuais do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. O mapeamento dos homicídios é primordial. Onde acontecem, quando ocorrem e quem são as personagens vítimas. São quesitos fundamentais para que a iniciativa pública possa formular e executar um plano eficaz no combate às atrocidades crescentes nos grandes centros urbanos.


"Confundidos com bandidos", na primeira semana do mês de abril, em 2019, um condutor afrodescendente e sua família foram encurralados por soldados do Exército, no Rio de Janeiro. Tiveram o automóvel alvejado por mais de oitenta tiros de fuzil. Nenhum indício que os tripulantes evadiam ou eram suspeitos. Uma dúzia de militares envolvidos no atentado. A apuração dos fatos está a cargo da Justiça Militar.


Evaldo Rosa (Manduca) foi atingido com um dos vários disparos deferidos contra o veículo. O motorista perdeu a vida ao lado de seus entes queridos. Despreparo, pré-conceito e covardia conduziram a ação de patrulhamento. Após o descalabro, o Presidente Jair Bolsonaro, disse que “o Exército não matou ninguém”.


Ainda somos vitimados pelo preconceito institucional. Irradiando consequências da escravidão no País, promovendo a segregação e incitando hostilidades. Quando ocorreu a abolição da escravatura aquele pessoal não tinha para onde ir, eram analfabetos em sua imensa maioria. Foi-lhes negado, pelo Estado, o acesso a terras e aos meios de produção. Restou a estes, a opção de subir o morro, onde até hoje grande percentual de seus descendentes residem. Habitando em bairros como Deodoro, na Zona Oeste fluminense, e nas comunidades desprovidas de infraestrutura básica.


O crescimento da taxa de homicídio é indicador de fragilização das instituições democráticas. Decisivamente, um projeto arrojado de combate à hostilidade contempla o incentivo à moradia, renda, educação, pesquisa e vislumbra acesso às manifestações artísticas. Atitudes esporádicas e isoladas não irão debelar o problema da discriminação e violência. Há o preconceito internalizado, operante no íntimo de alguns indivíduos. Este nos dá provas de que é tão devastador quanto a intolerância declarada.

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