A curiosa vontade de ler livros

August 14, 2019

 

Afrescos da Alma

 

 

Foto: Quadro de Gabriella Campos

 

 

 

 

Dado momento, em um diálogo com a amiga Dionísia, Marcélia fora bronqueada pela amiga:

 

- Você vive no mundo da lua, pensando demais e falando pouco, que segredos são estes que tem guardado?

 

- Não seja boba, não tem segredo nenhum. Eu só ando pensando. Me responda uma coisa, você também sente que já não cabe mais nada na sua cabeça, mesmo tendo 12 anos? como pode caber tanto na cabeça dos adultos?

 

- Está dizendo isso por causa da atividade de multiplicação que o professor Emanoel passou? Já disse que posso ajudar, Marcélia!

 

- Não. Não é isso. Deixa pra lá, é bobagem!

 

 

Hoje lhe sobrara tempo para ler as últimas páginas de “Jacaraguar” o livro que ganhou do avô. Após concluir o profundo mergulho e analisar com destreza os conflitos que vivenciaram os personagens, Marcélia não havia ficado contente com o desfecho.

 

Não entendia porque deveria um abrir mão do que era seu por direito para dar vez a um valentão de boca grande. Inconformada, terminou de assistir a aula, encaminhou-se para a saída, olhou para o céu chapiscado por chuviscos e abriu seu guarda-chuva, era de cor tão amarela feito a luz do sol.

 

Enquanto aguardava a condução para a casa, observava a água que caia e escorria pelos terrenos desnivelados, dando seguimento a um caminho embaraçoso, incerto, com altos e baixos, lama e pedras. Mas que por fim, desaguava na grande poça, onde posteriormente os bichos pousariam para beber água.

 

Já em casa, passada algumas horas, a jovem menina se sentou em frente ao criado mudo, arrastou um tamborete, pegou um lápis, arrancou uma folha do caderno e lá deu início ao seu próprio desfecho, que para ela parecia ser justo. 

 

31 de outubro, quinta feira, Halloween. Era dia de ir fantasiado para a escola.

 

- Mãe! Mãe!!!

 

- O que há, Marcélia? Perguntou a mãe encabulada

 

- Me empresta seu pó branco de rosto, é para a minha fantasia.

 

 

A menina se decorou toda, um chapéu alto, um casaco preto, estando as mangas encobrindo suas mãos pequenas, pois este era do pai. Além disso, o rosto pintado mais branco que a luz da lanterna dos caçadores da região.

 

Na escola, quase todos fantasiados de jeito simples e criativo. Dionísia não fez diferente e se aprontou tão cuidadosamente assim com Marcélia. Capangas na mão e uma sincronia ensaiada no vagão do ônibus, “doces ou travessuras?”.

 

No halloween é dia de contar histórias. A professora Clotilde reuniu a todos e vararam a manhã narrando contos e aproveitando do momento para explicar o movimento de perseguição “Caça às Bruxas”, que aconteceu principalmente na Europa, entre os séculos XV e XVIII.

 

De modo geral, a menina gostada de ouvir histórias, pois para ela, garota muito perspicaz e de alma aguçada, era como se pudesse vivenciar aquela antiga história, ainda que não tenha ela vivido realmente. Para Marcélia, ler e ouvir dava carta branca para uma pessoa ser de várias maneiras, era burlar a vida, podendo ser quem e quando quisesse.

 

Além disso, produzir histórias daria à ela liberdade ainda maior, podia criar, dar vida à diversas personalidades, num dia ser uma borboleta que voa livre e depois pousa sobre uma linda flor, noutro dia, ser como o salsicha, seu cachorro, este que tem todo o tempo do mundo só para dormir, mas que prefere acordar cedo. Marcélia descobriu a liberdade que trazem os livros.

 

No outro dia, a rotina continuou. Atividade em sala de aula, intervalo, refeição, mas gradativamente algo vinha mudando na vida da pequena garota. Suas idas na biblioteca da dona Eleonora se tornaram frequentes e assíduas, a ponto de tomar atenção da senhora dos livros, que sempre foi muito atenta.

 

 

Fim do ano letivo

 

Chegara as vésperas do natal, trazendo consigo o sabor das férias que fazia a alegria de todos. A euforia encorpada pelo agito das crianças era de dar gosto e também, muita dor de cabeça à dona Clotilde:

 

- Crianças, por favor, colaborem com o silêncio! Antônio, volte para seu lugar. Isto, melhor assim. Como de costume, gostaria que todos elaborassem um pequeno relato, abordando neste texto o significado que este ano trouxe para cada um de vocês. Como tudo na vida, a cada passar de tempo encontramos mudanças e gostaria que compartilhassem com os colegas suas experiências. Muito bem, vamos lá, podem começar!

 

 

Após vinte e cinco minutos findou-se o prazo. Todos em círculo, um no centro deu início ao falatório. Passado um tempo, lá se foi a menina para o meio da sala ler o que havia escrito em seu relato:

 

“Esse ano foi bem esquisito. Separei a briga de um jacaré valentão e um filhote de jaguar, daí botei tudo na ponta do lápis. Esse ano andei por um monte de lugar, um mais diferente que o outro. As coisas do meu pensamento fizeram ascender um negócio que não para quieto dentro do meu coração, daí me faz pensar, pensar e pensar muito mais. O que fazia sentido, agora não faz mais, ou ao contrário. Uma coisa sempre se junta na outra, a gente só tem que saber juntar as pontas de um jeito certo. Não adianta querer saber o futuro sem ter lido sobre o passado, e nem tentar brigar por justiça se não entender dos nossos direitos. Nesse ano, eu também conheci muita gente nova, mesmo essa gente não existindo mais. Se me perguntarem, eu posso dizer direitinho como as folhas das árvores secam quando caem no chão, ou posso dizer também porque que tem tanta fome no nosso mundo, mas esse é um pouco triste e dá raiva na gente. Enfim, esse ano muitaaaa coisa aconteceu, até esses dias pra trás eu achava que queria ser professora, mas hoje eu quero ser igual a dona Eleonora, não quero usar óculos, nem andar tão devagar, mas quero fazer as coisas que ela faz, sabe? Ahhh! Ela me deixou falar seu nome de verdade, aquele que a mãe dá pro moço colocar no documento, mas em troca tive que prometer de dedinho e tudo mais que nunca, nunca mesmo eu vou parar de ler. Quero cuidar de livros, igual ela faz com os da biblioteca. Aí talvez eu até vire escritora, ou então detetive, porque quero desvendar os mistérios do planeta mágico que moram lá dentro daquelas páginas. Quero descobrir também todos os segredos que guardam nos grandes acervos, é desse jeito que fala a dona Eleonora, GRANDES ACERVOS! E além do mais, quero ter quinhentos ou até mais de anos pra poder ler tudo que eu quiser, sem ser atrapalhada pelo tal do tempo. Falando assim, faz pensar que eu sou bem atrapalhada é da cabeça, mas é que os livros deixam que a gente invente histórias malucas sem parecer de verdade.”

 

Fim.

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