Águas da liberdade

September 11, 2019

Afrescos Da Alma

Foto: Gabriella Campos 

 

 

 

No dia 22 de maio, ao sair pela porta, senti que não voltaria para a casa. Ao levantar da cama, me questionei porque estaria estabelecendo aquilo. Durante o banho, interpelei o porquê da submissão a determinadas circunstâncias e de que isso valia. Enquanto penteava os cabelos, busquei em memorias algo que fosse capaz de me elucidar dos desejos da alma. Conforme abotoava os sapatos, intercedi para que existisse algo que me fizesse voltar atrás.

No dia 22 de maio, saí por aquela porta e me encaminhei para o trabalho. A 2 quadras da minha casa, está situado o escritório mais enfadonho de Nova York, que por ventura é onde trabalho. Durante o trajeto, passei em frente à casa dos Harles:

 

- Bom dia! Disse ele enquanto acomodava a pequena katy no carro.

- Tenha um bom dia, Sr. Harles.

 

 

Mais nenhuma palavra. Como desejei que naquele dia Sr. Harles me fizesse voltar atrás.

 

Faltando uma quadra para chegar ao destino, observei de longe Marry Brits e Robins Brits. O casal mais antigo e amável do bairro. Ela estava tão sorridente e Robins não parava de cantarolar para o cachorro. Por um instante, desejei ser sociável o bastante para trocar duas ou três palavras com eles e quem sabe, voltar atrás.

 

Bem, cheguei! Nota-se que minha mesa é tão bagunçada quanto meu quarto. Preciso dar um jeito nisso.

 

- Bom dia, Sr. Wortins!

- Os relatórios foram entregues ontem?

- Os enviei junto com o levantamento mensal.

- Quero cópias de cada ofício em minha mesa.

- Claro.

- Traga-me também um café!

 

 

Enquanto a água fervia, separei alguns papéis. Pela janela podia observar a veracidade com que os carros passavam nas ruas, não diferente das pessoas. Semblantes cansados e fixados em seus afazeres, não pareciam observar nada além do que lhe foi designado.

 

- Aqui está Sr. Wortins, deseja algo mais?

- Está bem, pode ir.

 

 

Mais tarde, a caminho de casa, avistei a livraria da esquina, está na qual a muito tempo não vou. Hoje, abdicarei de relatórios.

 

Silêncio mútuo. Cheiro de livros. Á esquerda, uma jovem de cabelos compridos e olhos amendoados, tragava absolutas informações contidas em seu livro. Era de dar gosto. Caminhei até a estante próxima.  Um espirro vindo do fundo toma minha atenção. Havia alí um garoto, sua mochila posta sobre a mesa, este tomava seu café enquanto fazia o que parecia ser dever da escola. Me voltei aos livros, deslizei meus dedos sobre cada um. Na cabeça a cruel dúvida do que escolher. Naquele momento, só precisava encontrar o livro certo.

 

De modo impassível, apanhei um livro de capa azul “Águas da liberdade”. Por hora, o ócio me veio como uma nuvem trazendo a tempestade, porém me refiz. Me sentei em uma mesa com 3 cadeiras. Apoiei a mochila sobre a mesa. Afrouxei os sapatos e abri o primeiro capítulo. Naquele momento, iniciara o mergulho da vida.

 

“Certa vez, um homem residente do Interior da Bélgica e muito influente no mundo dos esportes, precisou ser submetido à amputação das duas pernas após se acidentar durante uma competição de surf. O tricampeão do Mundial de 1922, 1924 e 1928, participava de uma competição em Boston, quando precisou ser resgatado da água às pressas pela equipe de resgate após ataque de tubarão...”

 

Passada algumas horas, me vi submergir em cada trecho do livro. Não se tratava somente de superação ou algo do gênero. Alí proferia sobre sonhos, escolha de vida e talvez, na minha cabeça, o livro falasse sobre o que sou.

 

“Jackson Midley, após seu traumático acidente, disse durante uma entrevista à TVNews que pretendia passar pelo processo de adaptação e preparo para se tornar paraolímpico.”

 

Enquanto dou um gole no café frio da biblioteca, atento que o surfista, ainda sem os dois membros, me parecia mais auspicioso e encorajado que qualquer pessoa daquela livraria.

 

 “Quando era pequeno, por volta dos 7 anos ou 7 e meio, fui brincar na piscina da casa de um amigo. Pegamos a tampa da caixa de maquinas do pai de Roger e fizemos uma espécie de prancha. Roger brincou uns 5 minutos e logo se reteve á outro brinquedo. Bom¸ eu fiquei alí, procurando por qual razão eu me submeteria a soltar aquela tampa. Eu pude ver o mar, pude sentir o calor do sol, o levantar das ondas e olha que eu nunca tinha ido à praia. Eu não podia me desvincular daquilo, era o que me mantinha feliz naquele momento”.

 

Olhei no relógio, era 20h36. Droga! Os relatórios do Sr. Wortins

 

Peguei o casaco, fui até a atendente:

 

- Quanto custa este?

- 8 dólares, Sra!

- Aqui está!

- Até logo!

 

 

Voltando para a casa, não conseguia me desligar do surfista sem as duas pernas. Mais alguns passos e cheguei à praça, onde decidi sentar-me e folhear mais algumas páginas.

 

“Eu tive medo. Medo de não poder ser quem sou, medo da angústia que assola no dias ruins, medo de não conseguir sentir o sol queimando e refletindo na areia branca da praia, tive medo de não sentir o cheiro da água do mar, de não poder avistar as gaivotas sobrevoando o céu e assoviando como num grito de liberdade. Tive medo de perder a conexão com esse universo.  medo de me perder do que sou e me desvencilhar de tudo aquilo que senti quando criança, estando sobre uma tampa na piscina da casa do Rogers. Foi por isso que larguei a Bélgica e me mudei pra cá, o céu aqui é lindo, até me deixa mais bonito. Me faz sentir um daqueles surfistas gatão que você encontra em filmes”.

 

- Mas que diabos esse homem está falando.

 

 

“Agora, quanto ao acidente, não senti medo. Sabia que nada podia me parar, somente a morte. Não senti medo, pois eu ainda estava lá, consciente, estava no mar e convenhamos, aquele espaço pertence àquele grandalhão. Foi briga de peixe grande! Não se podia esperar menos. De fato, isso me trouxe alguns problemas e consequências, mas nunca tive medo. Me lembro bem, o único momento que me fez pequeno e me fez sentir morto ou incapaz foi antes de me tornar surfista. Sonhava em ser alguém, uma pessoa influente e por ingenuidade ou simplesmente façanha da sociedade, eu acreditava que para isso precisava ser uma espécie de Doutor. Eu sou Doutor, sou esculápio do mar. Somos facilmente violados e predestinados a uma vida mesquinha por medo e tolice. Sou um homem feliz, se me perguntarem financeiramente, posso lhe dizer que esses troféus rendem uma boa grana. Mas sabe de uma coisa, minha idealização hoje é ver pessoas agindo, se resgatando e sobrevivendo às tempestades dentro de si. Sabe, nos afogamentos aqui dentro, dentro do peito, da mente. É disso aí que tenho medo”.

 

Dado momento, o farol do carro dos Brits paira sobre meus olhos.

 

- Boa noite, minha querida!

- Boa noite, Sr. e Sra. Brits!

- Venha, entre! Jante conosco!

- Obrigada, aqui fora está fresco e calmo, preciso terminar (aponto o livro).

- Está bem, fica para outro dia!

- Claro!

 

 

Abri a mochila e busquei a carta. Horário de embarque 21h50. Está bem, preciso correr. Imediatamente solicitei um taxi. Cheguei a tempo ao aeroporto. Antes de embarcar abro a caixa de e-mail - “Boa noite! Estou entrando no avião, em sete horas devo chegar em Paris. Estou ansiosa para o evento, será inesquecível.”, envio à Galeria Mónaco, na França.

 

Abro minha caderneta e lá começo a descrever todo o deslumbre espiritual. Sinto o cheiro de tinta, as cores vivas e ardentes, posso pressupor o olhar individual de cada visitante. Permito-me sentir o envolver da aceitação e o regalo ao que se é artístico. Devo ressaltar que tive medo. É como se perder na mata escura e ter medo, a menos que descubra o caminho. Tive medo de não poder sentir aquilo que vivenciei quando criança, ao pintar o retrato do meu personagem favorito aos 12 anos. Hoje, 22 de maio, não voltei para a casa. Fui levada pelas profundezas do mar da liberdade.

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