Delírio paulistano de um jornalista bêbado

August 30, 2019

Botequim Literário

 

 Foto: Medo e Delírio (1998) Drama/Filme cult - Reprodução

 

 

 

Tenho uma relação íntima com o jornalismo gonzo. Daí a ideia do editor deste glorioso jornal ao me designar para cobrir um evento de estética capilar em São Paulo. Como sou um cara vintage, é claro que eu botei a clássica canção “Somebody to Love”, da banda norte-americana Jefferson Airplane, para tocar no último volume. Meus colegas ficam putos. Totalmente compreensível.

 

É uma loucura, senhoras e senhores: você está ali na redação num dia qualquer de trampo e eis que alguém te liga e pergunta se há interesse em cobrir um evento de saúde. Com tudo pago pela indústria farmacêutica, desde passagem aérea até hospedagem em hotel da Vila Mariana. O único custo era a taxa de deslocamento via Uber (algo em torno de 12 pila) até o aeroporto Santa Genoveva. Nada que me deixasse mais fodido financeiramente do que o habitual. 

 

Veja bem: com tudo pago! Comida, bebida, transporte, tudo na faixa, free, grátis! Nós jornalistas teríamos apenas de desembarcar em Congonhas por volta das 17h de uma quarta-feira e esperar o cara do táxi aparecer para nos levar ao hotel. Uso a primeira pessoa do plural porque junto comigo estava uma repórter de saúde do Diário de Pernambuco. Ao contrário de mim, ela não parecia estar muito entusiasmada.

 

Chegamos à recepção do hotel e a jornalista me perguntou se eu já tinha vindo ao evento alguma vez na vida. “É a primeira vez. Sou jornalista de cultura, edito um jornal diário em Goiânia e estou aqui porque eu tenho a pretensão de visitar uma amiga. Nem sei qual é a pauta e o que é necessário para realizar a cobertura do evento”, respondi, surpreendendo a minha colega séria de Pernambuco.

 

De repente, a sensação ficou estranha. Como era de se imaginar, ela cessou a conversa e foi para o quarto, meio pasma com minha sinceridade. Ué, não dizem a nós desde criança que é preciso falar o que você pensa, acima de qualquer coisa? Fui em direção ao elevador, mas tive problemas ao subir para o quarto: “como usar este dispositivo?”, perguntei para o recepcionista. “Assim”, mostrou-me.

 

Continuei confuso com aquele aparato tecnológico e entendi menos ainda a mágica que o sujeito tinha feito. Tudo aquilo era meio ameaçador, desafiava o ser humano e sua capacidade cognitiva, mas ninguém pareceu morrer de medo ou ficou aflito. Talvez porque já estivessem acostumados. Ou talvez eu fosse um cara com problemas no uso de tecnologias.

 

Dia seguinte

 

Acordamos, eu com um pijama de bolinha branca e a cabeça rachando, o que me deixou um pouco desanimado, e Maia com a cara de sono agravada por uma colossal ressaca. Bebemos na noite anterior conhaque e alguns litrões de cerveja e, ao cair na cama, esqueci o celular, despertador e o caralho e pouco me importei se eu tinha compromisso.

 

Para atenuar os efeitos do porre, ingeri uma xícara de café e minha amiga saiu para trabalhar. Olhei o visor do celular e vi 20 ligações não atendidas, mas optei por manter a serenidade numa situação que estava descambando para o incontrolável. Ver o número da assessora do evento de saúde capilar ali me deixou em pânico, como se estivesse em uma badtrip fortíssima de ácido.

 

Semanas depois, de volta a Goiânia, a empresa que custeou toda a minha passagem ligou para a redação do jornal. Falaram com o editor-chefe e contaram a ele toda minha epopeia etílica e, é claro, a abstenção ao trabalho, ou seja, ao evento capilar. Nem preciso dizer que foi uma situação tensa, agravante, complicada do início ao fim. Ameaçaram até me processarem por estelionato e falsidade ideológica.

 

Vê se pode!

Mas fazer o quê? Aleguei que estava com indisposição estomacal.

Não é bom faltar ao trabalho.

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