Herzog humanista

September 11, 2019

Exposição

‘Ocupação Vladimir Herzog’ mostra lado de fotógrafo oficial da família, editor obstinado e sua paixão do jornalista pelo cinema

 

 

Foto: Vladimir Herzog, ao centro, com o microfone, conversa com moradores de Canudos para documentário sobre Antonio Conselheiro - Instituto Vladimir Herzog 



 

Vá ao google e digite o nome do jornalista Vladimir Herzog. A foto que irá aparecer é a de um homem enforcado por uma tira de pano pendurada à uma janela. Se você for uma pessoa humanista e, portanto, repudia a Ditadura Militar (1964-1985), esta imagem certamente lhe causará espasmos. Impropérios nesta hora serão comuns. Agora, se você gosta de arte e trabalha com comunicação, provavelmente deve ter ouvido muito sobre a cena. E tem noção do que ela representa.

 

Sabemos que Herzog tinha acabado de assumir a direção da TV Cultura quando fora intimado a comparecer ao Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa (DOI-Codi), em São Paulo. Era monitorado pelos órgãos de repressão da ditadura desde 1967. Foi morto durante interrogatório que contou com sessões de tortura e, temendo que houvesse reação da sociedade civil, os militares responsáveis por matá-lo forjaram seu suicídio.

 

A fotografia, contudo, provocou protestos do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e os colegas de Vlado – verdadeiro nome de Herzog – clicaram a redação da TV Cultura vazia. Ainda hoje a imagem é um símbolo da luta contra as práticas da ditadura militar e a favor dos direitos e dignidade humana. Mas isso aparece sem destaque na exposição organizada pelo Itaú Cultural, que o Jornal Metamorfose visitou na manhã desta terça-feira (3), em São Paulo. Nela, o foco é o fotógrafo, o cineasta e o editor obstinado.

 

Com embate historiográfico entre a direita e a esquerda, a mostra cumpre o papel didático ao jogar luz sobre o debate em meio à proliferação de fake news. Segmentos que simpatizam com o presidente Jair Bolsonaro se dividem entre os que defendem o regime de exceção e vêem-no como algo que consertou os problemas do País, que estaria, na visão deles, ameaçado pela ‘bandeira vermelha comunista’. Tentativas de reescrever a história não chegam a ser uma novidade no Brasil.

 

Por causa disso tudo, a mostra do centro cultural que fica localizado na Avenida Paulista, coração financeiro da América Latina, acerta em cheio ao optar por abordar outros aspectos importantes da vida do jornalista, e não dar destaque àquilo que todos conhecemos. Fã de cinema, Herzog deu os primeiros passos na imprensa no jornal ‘O Estado de São Paulo’, na década de 1960, onde assinara textos sobre a sétima arte, com destaque para análises fílmicas sobre as obras do diretor François Truffaut.

 

Nascido em 27 de junho de 1937, na Iugoslávia, na cidade de Osijek, hoje território que pertence a Croácia, Vladimir veio ao Brasil em 1947. Sua vida fora permeada pela luta contra os regimes totalitários – Herzog conversou com guardas nazistas para resguardar os pais, aos nove anos. “Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra os outros, perdemos também o direito de nos considerar seres humanos civilizados”, disse certa vez.

 

 

 

Janela: “Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra os outros, perdemos também o direito de nos considerar seres humanos civilizados” - Vladimir Herzog, jornalista

 

 

 

 

Cinema

 

O lado jornalístico de Vladimir Herzog sempre abrangeu o cinema. Frequentador assíduo da era da Cinemateca Brasileira, o gosto pela sétima arte acabou fazendo com que Vlado realizasse “Marimbás”, em 1963, seu único filme. O curta-metragem, que foi feito ao estilo cinema verdade, mostra a presença dos marimbás entre as pescas e as sobras do produto, em oposição aos frequentadores da praia de Copacabana, área nobre do Rio de Janeiro. Com essa obra, segundo o amigo Luiz Weis, o jornalista teve um choque cultural.

 

Além de “Marimbás”, assinou o som direto de “Viramundo”, em 1965, documentário que mostra a chegada de nordestinos em São Paulo. Fez ainda a produção de “Subterrâneos do Futebol”, no mesmo ano, peça que narra a ascensão econômica via esporte bretão. Também participou da elaboração do roteiro de “Doramundo”, em 1978, filme que só veio a ser concluído e exibido um ano depois da sua morte. Vlado queria fazer um longa sobre Canudos e chegou a visitar o local várias vezes, mas morreu antes da produção.

 

Toda essa devoção pelo cinema e o uso dele com viés pedagógico são mostrados ao público por meio de cartas e artigos. Herzog queria filmes que fossem atentos às questões sociais e “acessível a um público maior”– bem alinhado, é importante frisar, com o que pensava sobre o papel da informação na sociedade. Como escreveu no texto “Birre Santa Fé”, publicado no Estado de São Paulo, em 5 de abril de 1962: “Pela primeira vez uma obra de arte cinematográfica produzida na América Latinha era sul-americana”.

 

“Ocupação Vladimir Herzog” é uma iniciativa necessária em tempos onde a vida humana virou algo banal e discursos saudosistas da ditadura ganharam força em diversos espaços públicos. Afinal, como defendia o próprio Herzog, a capacidade de nos tornarmos indignados é a principal característica do ser humano, não é mesmo? Se você estiver passar por São Paulo até o dia 20 de outubro, quando a exposição ficará em cartaz, vale a pena conferir. 

 

Serviço

‘Ocupação Vladimir Herzog’

Quando: até o dia 20 de outubro

Onde:  Itaú Cultural

Endereço: Avenida Paulista, 149, Bela vista

Preço: Grátis

 

Foto: Herzog na redação da BBC, em Londres, na década de 1960 - Acervo Instituto Vladimir Herzog

 

 

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