“Zoiúdo vai matar os mal do mundo”

October 9, 2019

Entrevista

Raissa Fayet fala sobre ativismo ambiental, conexão com a ancestralidade e a função social da arte em entrevista exclusiva ao Jornal Metamorfose 

 

Foto: Reprodução

 

 

A sincronicidade conversa com o cotidiano florido e intenso da artista, cantora e compositora Raissa Fayet, quiçá seja sua presença no mundo que reverbera os acasos. Piscina, Raissa é atenciosa e serena, e sobretudo sólida, é como se sua energia fosse constituída na solitude de quem sabe muito bem o que veio fazer nesse planeta. 

 

Fayet é alma viva de artista, entre os movimentos ela conta seus processos na trilogia Zoiúda, composta por três músicas inéditas e recém lançadas: Zoiúda, Capim (feita em parceria com o cantor Russo Passapusso, vocalista da banda Baiana System) e Freeboi, que será lançada em novembro. 

 

“Zoiúdo é a gente se empoderar, é um ser empoderado, um ser que assume a sua existência, sua missão e propósito se realizam, mas mais profundamente é a expansão do 3° olho da consciência. Da gente enxergar com os olhos de dentro, com o olho da alma, zoiúda é a gente se conectar com a essência para  chegar na flor da alma e assim realizar o que precisa realizar”, conta Raissa Fayet sobre a trilogia, em entrevista ao Jornal Metamorfose

 

 

Confira abaixo a entrevista completa, e se prepare caro leitor, nenhuma palavra dita é por acaso e sua mensagem é clara e forte! Atente-se, pois Fayet reverbera mudança:

 

 

 

Jornal Metamorfose: Como que começou a história de Zoiúda, seu trabalho mais recente?  

 

Raíssa Fayet: Zoiúda começou faz muitos anos, entre 2008 e 2009 eu fui convidada pra participar do espetáculo quilombola, no Paiol de Telha que era um grupo chamado culumbale e eles me chamaram pra ajudar. Rolava os cantos de pontos, aí eu fui ajudar um pouco sobre aquecimento vocal e preparação vocal, uma coisa que na verdade é muito natural deles, eu fui dar um auxilio só. E tinha um número pra exu e era falado “Zoiúdo vai matar os mal do mundo” e eu fiquei com isso ecoando muito tempo, chegava em casa falava isso pra minha mãe, dai eu fui participar de um ritual, uma cerimônia da floresta e depois que voltei dessa cerimônia recebi Zoiúda inteira. Foi muito maluco, ela chegou muito rápido, foi uma das músicas mais rápidas, ela desceu e ela tava pronta. Eu cantei, cheguei a fazer mais letra pra ela, mudei mas não, ela tá original do mesmo jeito que ela saiu.

 

 

 

Jornal Metamorfose: Nossa que loucura 

 

Raíssa Fayet: Aí toquei ela no Hai Studio com a Amanda Pacífico, o Mulamba tocou um tempo ela, algumas mulheres de Curitiba curtiram, a Cida Airam também gravou ela. Eu deixei ela meio guardada querendo gravar ela um dia mas como o Hai Studio tinha versão acústica, a gente ficou "ah deixa por enquanto", isso ia fazer 5 anos que eu tava tentando capitar recurso pra fazer um disco novo, tentei edital, um monte de coisa super difícil. Fui tentar capitação direta, com planejamento business plan a cada música qualquer planejamento de marketing, de tudo junto que podia acontecer e consegui capitar 10% do total do que seria o ideal e com 10% eu faria uma trilogia. E ai eu fui comecei a construir essa ideia da trilogia dentro das mensagens que eu já vinha fazendo no meu trabalho como ativista, que eu tenho um trabalho com um coletivo que a gente desenvolve videoclipes com música para projetos dr lei dr impacto existencial lá em Curitiba, o “Pare e Preste Atenção”, trabalho com varias frentes, com o Curitiba Resiste a gente tá nos atos sim, sendo ativista mesmo kkkk 

 

 

 

Jornal Metamorfose: Você gosta do termo artivista? 

 

Raíssa Fayet: Artivista... a gente usava muito, eu acho um pouco brega kkk mas eu entendo que ele tenha um significado nesse contexto que é a arte misturada com ativismo, mas eu acho que a arte nunca deveria tá separada do ativismo, ela é um ativismo já, a gente que separou e separa muitas coisas.

 

 

Foto: Reprodução 

 

 

 

Ai eu fui pensando em outras canções que tinham haver, lembrei de uma canção minha com o Russo Passapusso de 2016, quando a gente foi selecionado pro Redbull Music Academy Bass Camp, no Chile. Fomos os únicos selecionados no Brasil, e aí eles selecionaram talentos na América Latina e identificaram nós dois em uma seleção com bastante pessoa, e nós dois fomos. Foi incrível a vivência, Capim eu já tinha parte dela, eu comecei escrevendo na Chapada dos Veadeiros (GO), como eu já tinha esse começo de música eu joguei na roda e a gente devolveu o resto dela. Terminamos a canção no Chile e ela ficou um tempão parada e eu surtando, “cara vamos lançar vamos fazer alguma coisa”, eles demoraram muitos anos e eu fiquei "aí quer saber eu vou usar essa canção no disco então, na minha trilogia já que ninguém quer usar eu quero". E ele falou "beleza, eu gravo voz", ai rolou deu ok.

 

A última canção é uma que eu acho que faz mais sentido com a minha causa, o principal foco que eu acho mais importante no quesito ambiental, que é o consumo de carne, eu sou vegana desde 2016 e a música se chama Freeboi, que fala do boi.   

 

 

 

Jornal Metamorfose: Ela ainda não saiu né?

 

Raíssa Fayet: Tá pra lançar, ela fala sobre como nós somos os bois do sistema, que é a indústria da carne, a gente precisa se libertar. Eu fui montando a narrativa da trilogia e traçando quem seriam os meu parceiros, quem iria gravar. Tava tudo certo pra gravar com outra galera quando eu vim pra São Paulo e conheci o Guilherme Kastrup, desisti de todo mundo e falei é com ele que eu quero fazer, a gente fez o orçamento e tava muito parecido com o da outra equipe. A gente se encontrou, eu chamei alguns músicos que já trabalhavam comigo e que tenho muito carinho como o Du Gomide e o François Muleka, e a partir disso o Kastrup trouxe o Maurício Fleury  que era do Bixiga 70, que fechou teclado e guitarra.

 

Eu queria que tivesse uma mana, mas a sonoridade que a gente tava estudando eu não conseguiu identificar alguém com um swing especifico, e agora em São Paulo eu quero muito identificar essas manas, quero encontrar elas porque eu imagino que existam, com certeza. O François tem uma vivência com os ritmos africanos muito forte, era isso que a gente queria no baixo. O du é meu parceiro há anos, ele toca milhões de instrumentos, e o Kastrup confia muito no Fleury eles são amigos também, toca flauta, piano, tecladista. Essa foi a equipe que acabou se formando, então um processo super diferente do que eu já tinha feito. Com o Kastrup, eu tinha gravado só em estúdio, onde gravava cada instrumento separado, por último gravava a voz, e dessa vez foi muito legal porque a banda tocou junto ao vivo. Foi um processo muito diferente e faz todo o sentindo no resultado final, que ficou bem bonito. 

 

 

 

Jornal Metamorfose: Já tem data pra lançamento?

 

Raíssa Fayet: Novembro, por aí. A gente queria soltar um pouco antes mas como ele é documental demora mais. Tem muito carinho e cuidado, e pesquisa de dados. Então tem um processo mais difícil pro diretor que além dessas partes que são as musicais da canção, tem o clipe que é uma trilogia audiovisual mesmo. O clipe já foi um outro contexto que uma amiga me apresentou um diretor e me mostrou um filme dele, um clipe do Marrakesh e eu achei muito foda, fiquei caralho esse mano é daqui? Porque de todos os diretores que eu tinha acesso tinha mais haver com o que eu tava trazendo de linguagem. O que eu queria trazer de linguagem, eu já tava escrevendo essa narrativa da trilogia, como ela se interligava. Zoiúda fala sobre o sagrado e a conexão com a floresta, o sagrado dos povos originários como nosso sagrado, então a gente fala dos biomas, das florestas, da importância das florestas com solo sagrado, a gente ancora com Zoiúda. Capim fala sobre tempo roda kármica e nossos vícios, a cadeia produtiva e o consumismo. 

 

 

 

Jornal Metamorfose: E a música Freeboi é mais política?

 

Raíssa Fayet: Todos acabam sendo políticos, cada um na sua esfera. Capim também fala disso, fala de plástico, veneno, tempo, e tudo aparece no clipe. Freeboi é sobre como a gente vai se libertar desse sistema que nos aprisiona e nos faz tão mal, que desmata, metano, vacina, soja, abate, caí sangue dentro da embalagem da carne. É o mercado do boi, liberta o boi, Free Boi. A trilogia se chama Zoiúda porque a gente encarna a zoiúda, os zoiúdos, pra gente quebrar esse sistema que não funciona mais, que tá nos matando. Zoiúdo é a gente se empoderar, um ser que assume a sua existência, sua missão e propósito se realizam, mas mais profundamente é a expansão do 3° olho da consciência. Da gente enxergar com os olhos de dentro com o olho da alma, zoiúda é se conectar com a essência pra chegar na flor da alma e assim realizar o que precisa realizar.

 

 

 

Jornal Metamorfose: E a arte pra você, como que você lida? Porque sua música, seu conteúdo é muito profundo, com muitos significados, têm muito simbolismo e uma mensagem muito clara. Como você vê a arte dentro disso, qual seu entendimento sobre arte?

 

Raíssa Fayet: Eu acho que a arte é a melhor ferramenta de formação de consciência que a gente tem... A arte é a ferramenta que eu utilizo, mas já trabalhei no meio publicitário, estudei publicidade um tempo e consegui ver através disso, que era só através da arte que as pessoas realmente eram tocadas. É através do lúdico, da poesia e brincadeira que a arte pode trazer seriedade, Capim é um pouco disso, um clipe colorido que da uma facada a cada 5 segundos. Eu sou artista desde muito menina, comecei no teatro, sou formada em cinema, já fui bonequeira, já fiz teatro mambembe, circo perna de pau, eu tenho uma história gigantesca desde os meus 15/16 anos na arte. Comecei muito cedo profissionalmente na arte, com 18 anos eu já trabalhava e já ganhava dinheiro como artista.

 

 

Foto: Reprodução

 

 

 

Jornal Metamorfose: E vem cá, fala mais um pouco sobre essa mensagem que você tem dentro de você.

 

Raíssa Fayet: Desde muito pequena eu converso com os espíritos e né, cada um com sua crença e suas entidades, porém a minha formação é de muitos anos com os espíritos, então é muito louco, eles me conhecem e sabem o que eu to fazendo, tamo no rolê junto kkkk Chamo pro rolê entendeu? Eles vem também caminhar o meu caminho. A gente quer dar a mensagem, e tem que se comunicar com pessoas, com seres, mas eu acho que tanto que o foco era unir todos os seres.

 

Ainda sou uma mulher branca, de um lugar específico, falando sobre um tema que eu vivi e estudei, mas que não tem a mesma legitimidade dos povos originários, nenhuma na verdade enfim. No meio desse meu lugar de fala e de muito aprendizado é que eu posso trazer mensagens que cabem à mim falar, uma mensagem um pouco mais moderna. A gente tá comendo plástico galera, do petróleo, coisas mais casuais, trazendo atenção pra floresta dos povos originários, porque eu acho que eles merecem toda atenção e talvez essa seja uma forma da gente conseguir fazer essa conexão.

 

 

 

Jornal Metamorfose:​ A sua visão política de entender suas estruturas e fazer uma arte que contribui faz parte desse processo de conexão né? Com essa realidade tóxica que a gente vive no sistema, falo você mais como pessoa e como ativista, qual o seu entendimento politico nesse sentido?

 

Raíssa Fayet: Eu acho que tá tudo conectado. A gente começa tentando ver seres que podem tá fazendo coisas também e conectando todas as frentes, nenhuma frente é isolada, todas são igualmente importantes tanto quanto. É um lugar que engloba todos, então como que a gente se auxilia e ajuda nisso né? O que eu posso fazer e o que podemos fazer? Além de encontrar pessoas que estão fazendo, eu acho que essa conexão a partir do momento que tudo se interliga a gente saca, cara essa aqui é nossa existência. Quer dizer que somos todos iguais nesse lugar aqui e quer dizer que vai afundar todo mundo junto, equilibrou agora a gente precisa se ajudar todo mundo. Então a gente corta todas as barreiras, tem que se unir pra arrumar a casa. 

 

É a partir do momento que a gente realmente se livra de uma palavra péssima que eu detesto, que é privilegio sabe? A gente começar realmente a zerar mas como q a gente vai zerar? É difícil a gente vai aprendendo, vai criando os manuais, vai entendendo como a gente funciona. Nossa cabeça funciona de um jeito limitado perto da capacidade que poderia, então como a gente sai da matriz? 

 

 

 

Jornal Metamorfose:​ A sua música têm tudo haver com isso, você traz essa mensagem de como e porque fazer isso. Como você se sente vivendo esse processo é muito forte, pelo menos eu vejo isso.

 

Raíssa Fayet: É muito forte. Então, por isso que essa conexão com a floresta de verdade e a espiritualidade foi o lugar onde eu consegui ter conforto pro meu coração, pra entender que é missão mesmo. Tá tudo bem, faz parte da minha evolução, que seja e enfim propósito é louco mesmo, é foco mesmo e isso é muito indefinível. Claro que somos seres humanos né, a gente têm milhares de porrada da vida, levanta a cara e volta mas eu tento manter alegria nisso sabe? É profundo, é serio mas é alegre também, o que é muito dessa experiência das leituras da floresta, assim quando vc.. Puta, tamo falando de um assunto bem complexo e bem universo paralelo mas a gente se conecta com a essência de tudo, e muda todo o padrão vibratório né.

 

A gente fica sem forma, o cérebro desaparece, tudo tem muito mais luz, o som é muito diferente, meio que o lugar dentro de ti tem que trazer esse lugar sempre porque tudo faz parte da nossa evolução. Como que gente vai então contra os seres espirituais desse universo gigantesco? É infinito pelo amor da deusa, a gente não pode negar isso. É incontável como que acham que isso aqui é só isso? Não é possível se seja isso não sabe?

 

 


 

 

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