• Marcus Vinícius Beck

A ameaça do jornalismo

Botequim Literário

Jornalista Vladimir Herzog foi assassinado em 1975 nas dependências do Doi-Codi, em São Paulo - Foto: Reprodução



Meu lema pruma reportagem pode ser considerado uma espécie de xerox da máxima sentenciada pelo escritor russo Anton Tchekhov: um bom par de sapatos e um caderno de anotações dispostos a grafar as sílabas dos personagens da realidade. O ofício de reportar as histórias do cotidiano me seduziu desde a primeira aula na faculdade de jornalismo – ainda estudante da PUC, rapaz inocente, puro e besta que era, vindo do interior.


É, meus caros, o jornalismo é uma das profissões mais nobres. Gabriel Garcia Márquez, grande Gabo, que o diga. Simplesmente não existe democracia consolidada sem a livre manifestação do pensamento e da liberdade de imprensa – ao menos sem os disfarces tragicômicos de figuras desastrosas que falar-lhe-ão, salve Temer, bravatas um tanto aterrorizantes.


Tiranos – uma vez que eles assaltam o poder – tratam de perseguir os escribas da realidade, meros seres fodidos pela sinfonia cafona do grande capital que somos. Não é legal manter esse bando de gente esquisita escrevendo que sicrano chafurda os cofres públicos ou fulano foi pego, pasmem!, com a mão, digo, com a cueca na botija das verbas públicas.


Bando de comunistas, talquêi?! Nem desviar grana em paz pode, pô! No meu governo vou acabar com essa patifaria, essa cuestão no tocante a isso daí vai acabar!


De tão comuns que essas frases se tornaram e tão confusas que são, a gente se habituou a ouvi-las na boca daquele ex-capitão expelido do quartel. Lógico que me refiro ao molambo ocupante da presidência e sua lógica paranóica de encarar a realidade. Em seu ilimitado desprezo pela vida e decrépita visão de mundo, os jornalistas devem ser silenciados a quaisquer custos – nem que para isso precise... bem... você sabe...


A verdade é que o jornalismo praticado pelas grandes empresas tem se mostrado especialista em passar pano pra ameaças autoritárias. É velho caso do editorialista – aquele escrevinhador de gabinete e aluguel designado a redigir textos ninguém vai ler – que critica os impropérios ogros do milico da farda verde-oliva, mas defende o Chicago Boy e sua política econômica da fome.


Desde o pesadelo no qual a gente se meteu no pleito eleitoral de 2018, o que passou a acalentar os desmandos (i) morais de milicianos, neopentecostais endinheirados às custas da fé alheia e pervertidos amigos do presidente é a peça “Ubu Rei”, do dramaturgo francês Alfred Jarry, um dos principais nomes do Teatro do Absurdo. É a distopia teatral, sempre ela, que imita a realidade – mas a culpa, como vocês já sabem, é da própria realidade.


Em termos práticos amplamente registrados pela historiografia a despeito das ditaduras sanguinárias do século 20, esse tipo de desastre político e humanitário costuma ceifar vidas de jornalistas, artistas e intelectuais preocupados com a dignidade humana – coisa que, vamos e venhamos, não faz parte do reduzido vocabulário da trupe fardada que nos (des) governa.


Penso em Vladimir Herzog, talvez o nome mais conhecido que pagou com a própria vida pela barbárie da ditadura civil e militar de 1964 - como não pensar em Herzog, como! 45 anos depois que ele foi assassinado pelos ídolos do inquilino do Planalto, a gente pode rebobinar a fita da tragédia, com o mesmo roteiro, com o mesmo a mesma direção, com a mesma produção... O fantasma do autoritarismo está mais vivo do que nunca.


E não se enganem: o bolsonarismo, em sua repetição da história tristemente memística, é uma cópia mal-diagramada e pós-moderna daquilo que rolava nos porões da ditadura. Hoje mais do que nunca, resistir precisa ser uma palavra de ordem. Só a resistência salva!


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