• Marcus Vinícius Beck

A arte da urbanidade

Cultura

Prédios do Centro de Goiânia foram decorados com obras que retratam a goianidade; JM conversa com diretora de criação que participou do projeto para entender importância das artes visuais nas cidades

Intervenções artísticas em prédios no Centro de Goiânia - Foto: Divulgação


A arte urbana está para o texto assim como o grito para a voz: é a partir dos sprays borrifadores de ideias urgentes que são fixadas nas paredes de prédios os sentidos libertários da existência. Ali a cidade pulsa, vive e exprime uma torrente poética e artística que embeleza os olhos de quem circula no cotidiano da metrópole.


Ou seja, a cidade é um organismo vivo, em constante transmutação e transformação, com suas intervenções, expressões, inquietações e problemas, que denunciam, escarram e protestam contra questões fundamentais da sociedade na pós-modernidade. É o grito de suas dores e desamores. É o grito. É o grito.


Quem perambula pelo Centro de Goiânia percebe uma intervenção que surgiu da necessidade em colocar a capital no circuito nacional e internacional de arte urbana. Para fazer o primeiro mural de 780m², que é o mais alto do tipo no Centro-Oeste do País, o artista visual Wes Gama precisou de quase um ano de planejamento e pré-produção. A obra, segundo a diretora criativa da Valenta Produção e Arte Larissa Pitman, foi projetada de maneira independente e com recurso do próprio artista.


“Essa decisão de realizar o projeto por conta própria veio da necessidade de mostrar para a sociedade a potência artística que temos em Goiás, tanto é que a ação foi chamada de “Manifesto Urbano” - no sentido político e artístico, um manifesto, uma obra pública, monumental que foi realizado de forma independente”, explica Larissa, em entrevista concedida ao Jornal Metamorfose no final da tarde desta sexta-feira (15).


“Manifesto Urbano” nasceu de uma verve independente com o objetivo de defender os povos originários. Num primeiro momento, além das intervenções em prédios da capital, o projeto foi pensado para contar com outros artistas locais. “No entanto não houve patrocínio privado nem apoio do poder público, portanto readaptamos o projeto dentro das condições que a produtora poderia investir e incentivar “, diz Larissa.


O lugar escolhido para fixar a obra é bem simbólico: ali, no coração da cidade, há uma memória coletiva da cultura goianiense, arquitetura e história. Além disso, a região possui um fluxo diário intenso de pessoas e conta com uma diversidade de classe. Então o grupo entrou em contato com o síndico e moradores que compreenderam o conceito do projeto, já que a obra não é apenas para o prédio, e sim para a cidade.


“Acredito que a obra em grande escala, pública e monumental tem grande importância na vida urbana e na qualidade de vida de uma cidade. As obras podem ser contempladas em via pública, acessível a todas as pessoas. Desde que as obras foram entregues houve bastante repercussão positiva de toda a população”, afirma Larissa.


O mural, batizado de “Andança”, faz alusão ao movimento migratório de luta e resistência dos povos tradicionais, camponeses sem terra e povos ribeirinhos. “O que vemos é uma sociedade que enxerga essa extensão do nosso corpo, como recurso a ser explorado, a gente vê ai a mineração, o agronegócio e o desmatamento, as usinas e garimpos, as invasões nos territórios, os rios secando, o ar poluído, e o pior, as pessoas vivendo para alimentar um sistema baseado em lucros e desigualdades”, disse Wes.


O artista explica que, em suas obras, busca representar povos e culturas que possuem relação de equilíbrio com a Terra. “E são esses povos que resistem e ainda lutam para um modelo de sociedade sustentável e socialmente justo”, detalha Wel.


A bem verdade é que a arte urbana tem se mostrado um dos movimentos artísticos que mais tiveram ascensão mundial nos últimos anos. Por isso, iniciativas como a de Wel ou dos outros artistas que produziram os dois murais que também estão no Centro é fundamental para uma cidade que respire e conviva com a arte.


Não é de hoje que Wes cria belezas das artes visuais: ele já participou de eventos como “Festival Arte Core, no Mural “Sem Privilégios”, MAM - RJ (2019). Também marcou presença no Festival Além da Rua Mural “Carroceiros”, em Fortaleza (CE), e “Vira Lata Caramelo”, em Pecém, no mesmo estado, em 2019.


Como diz o poeta Paulo Leminski: “Eu sinto o grafite como uma experiência que vem do fundo das pessoas e, de repente, adquire aquela consistência de um grito”. “Andança”, de Wes Gama, me parece um chamado para que olhemos à nossa cultura.


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