• Marcus Vinícius Beck

A beleza de ser um eterno aprendiz

Música

Autor de uma obra imortal, Gonzaguinha completaria 75 anos se não tivesse falecido num desastre automobilístico no Paraná, em 1991. No entanto, seu trabalho segue pulsando, mais vivo e atual do que nunca

Gonzaguinha criou uma obra que resiste ao tempo, e sem a perda da poética dos oprimidos - Foto: Reprodução/ Instituto Moreira Salles


Se Luiz Gonzaga do Nascimento e Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior tinham uma relação conturbada, a História tratou de colocá-los no panteão dos grandes nomes da MPB. Rei do baião, Gonzagão morreu a 2 de agosto de 1989. Já Gonzaguinha saiu de cena num desastre automobilístico em 29 de abril de 1991. Mas, cá entre nós, o filho e o pai continuam vivos com suas músicas esperançosas. Um dos grandes compositores da MPB, Gonzaguinha faria 75 anos – e seu aniversário não passou em branco.


Artista que não perdia a esperança de ser um eterno aprendiz, Gonzaguinha nem sempre foi visto com um sorriso estampado à cara. Ficou conhecido entre os anos 1970 e 1980, época em que despontara no cenário fonográfico como um artista contestador, daqueles que não se eximiam da crítica e do protesto. Preocupado com as causas sociais de seu tempo, o autor de “Lindo Lago do Amor” voltou-se – ainda quando dava seus primeiros passos na música – contra as injustiças, razão pela qual colecionara desafetos. Ainda assim, sua obra pulsa, sua obra vive, sua obra encanta...


Quase três décadas após o desastre que o vitimou, os sambas compostos por Gonzaguinha são de uma aterrorizante atualidade, como “Comportamento Geral”, lançado em 1972. Eis a letra: “Você merece, você merece/ Tudo vai bem, tudo legal/ Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé/ Se acabarem com teu Carnaval/ Você merece, você merece/ Tudo vai bem, tudo legal”. Em 1988, o cantor compôs “É”, cujos versos fazem sentido no Brasil atual comandado pelas intempéries bolsonaristas. “A gente quer é ter muita saúde/ A gente quer viver a liberdade/ A gente quer viver felicidade”, canta.


Música foi censurada pela Ditadura Civil-Militar (1964-1985)


Antes de entregar-se à sedução do romantismo com o qual atingiu o grande público nos anos 1980, Gonzaguinha cantou as agruras do Brasil na década de 70, quando os militares expurgavam todos que se propunham a tecer críticas aos rumos da nação. Afirmava, o artista, em suas letras, que a gente não tem cara de panaca. E, por isso, o eu-lírico preferia ficar com a pureza das respostas das crianças, já que seu gogó cantava a vida, “que é bonita, é bonita”. Como poucos, soube usar o samba como instrumento para se levantar contra a opressão, pois essa rapaziada segue em frente.


Do primeiro LP “Luiz Gonzaga Júnior” (1973) a “Luizinho de Gonzagão Gonzaga Gonzaguinha”, seu último disco, Gonzaguinha jamais perdeu a ternura para encarar as durezas e mazelas do Brasil. Mesmo assim, há aqueles que preferem a dor de cotovelo de “Lindo Lago do Amor” (1984) e “Mamão Com Mel” (1985) ou o ode à vida que se faz presente nas músicas “Maravida” (1981) e do samba “O Que É O Que É” (1982). Seja canções políticas, românticas ou esperançosas, Gonzaguinha criou uma obra que resiste ao tempo, e sem a perda da poética dos oprimidos. Se a vida é breve, e a de Gonzaguinha foi, a arte não é - e permanece aqui por muito tempo, como a dele.


Órfão


Aos dois anos de idade, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior ficou órfão, quando sua mãe, a cantora e dançarina Odaléia Guedes dos Santos, morreu de tuberculose. Odaléia era esposa do cantor e compositor Luiz Gonzaga, que adotou o menino. No entanto, a nova namorada do pai não aceitava Gonzaguinha. Gonzagão o visitava sempre e lhe mandava dinheiro, porém a relação dos dois era bastante conturbada, já que o filho não aceitava que o pai não lhe criou – esse episódio é contado no livro “Gonzaguinha e Gonzagão — uma história brasileira” (2006), da jornalista Regina Echeverria.


Em 1973, no auge dos anos de chumbo da ditadura civil-militar, a carreira de Gonzaguinha – que tocava desde os 14 anos, quando compôs “Lembranças da Primavera”, sua primeira música – sofreu uma reviravolta. Ele tocou a canção “Comportamento Geral” no programa de Flávio Cavalcanti, sujeito amigável ao regime vigente, e foi acusado pelo júri de terrorismo. No dia seguinte, recebeu uma censura, e isso lhe serviu para impulsionar a música. Por causa desse episódio, Gonzaguinha fora encaminhado ao Dops e chegou a ter 54 músicas vetadas pela ditadura.


Nascido no Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1945, as músicas de Gonzaguinha foram regravadas por nomes de peso da MPB, como Gal Costa, Maria Bethânia, Zizi Possi, Simone, Elis Regina, Fagner e Joanna. Junto com Aldir Blanc, Ivan Lins, Márcio Proença, Paulo Emílio e César Costa Filho, fundara o Movimento Artístico Universitário (MAU), que teve papel fundamental durante os anos de 1970 e 1971, época brava de ditadura, repressão e censura às liberdades e às artes. Depois de acabar um show em Pato Branco (PR), o cantor dirigia em direção a Foz do Iguaçu (PR), onde iria a Florianópolis (SC). Gonzaguinha morreu no dia 29 de abril de 1991 num acidente ao bater em uma caminhonete.