• Lays Vieira

A cooptação da liberdade de imprensa

Belarus

Cobertura midiática abre espaço para grupos neonazistas e nacionalistas aparecem no noticiário, em uma abordagem invariavelmente descontextualizada

Prisão do jornalista Ramon Protosevich gerou críticas de entidades internacionais - Foto: Artur Widak


A liberdade de imprensa e política, como a existência de oposição a um regime, é essencial em qualquer tipo de democracia e deve ser defendida com afinco. Entretanto, as disputas ideológicas de narrativas ao longo da história nos mostram que em um regime hegemônico não devemos aceitar o que está posto como sendo necessariamente verdade.


As contradições no mundo capitalista são constantemente varridas para de baixo do tapete no intuito de não atrapalhar sua dominação e manutenção ao longo do tempo. Como o JM já mencionou várias vezes, a grande imprensa é um exemplo dessa dinâmica e, por isso, deve ser confrontada nos níveis de informações, fatos e análises.


Dentro disso, um caso recente chama a atenção e merece uma análise mais detida. Na semana passada, o jornalista belarusso exilado, Ramon Protosevich, foi preso em um episódio controverso. Os grandes veículos de mídia internacional logo se prontificaram a condenar a prisão e apontar os abusos do governo de Alexander Lukashenko, que preside Belarus desde 1994 e é conhecido como o último ditador da Europa.


Reeleito cinco vezes, incluindo as últimas eleições, em agosto de 2020, na qual ele supostamente recebeu 80% dos votos, as suspeitas de fraudes vieram à tona e uma multidão de manifestantes foi às ruas. Os protestos notícia internacional, fazendo muita gente ouvir falar pela primeira vez do país Belarus.


O movimento de 2020 tem ligações com a prisão de Protosevich, mas não pela questão que à primeira vista nos remete: um governo autoritário reprimindo um povo que clama por democracia e liberdade. Aqui existem outras ligações mais perigosas.


Não estamos falando que o governo de Lukashenko não adquiriu um viés autoritário ou que não seja necessário se atentar ao fato de que ele está no poder há 26 anos. O foco aqui é outro: são as narrativas midiáticas que apagam disputas históricas e geopolíticas por uma suposta defesa de uma liberdade e democracia, construindo assim, para o público, uma realidade muitas vezes alienante e perigosa.


O jornalista e ativista Roman Protasevich foi detido no último dia 23 de maio pelo governo de Belarus. Seu voo, indo para a Lituânia, fez um pouso de emergência em Minsk, capital, com a justificativa das autoridades de suspeita de bomba.


Na versão oficial, quando foram averiguar a existência ou não de bomba no avião, se depararam com o ativista. Como ele estava em uma lista de procurados pelas autoridades, com suposto envolvimento com terrorismo (o que pode dar pena de morte no país), foi levado preso. Tudo não teria passado de uma coincidência.


Protasevich é um antigo crítico do governo e fundador do canal de notícias pelo Telegram, o Nexta. Ele desempenhou papel fundamental na coordenação e organização dos protestos depois de outra reeleição do presidente Alexander Lukashenko.


Líderes europeus e da oposição em Belarus repudiaram o fato e acusaram o presidente de ter ordenado o que seria um “sequestrado” do avião. Entidades, como a ONU, afirmam que irão impor restrições, incluindo proibição de todas as companhias aéreas do país de usarem o espaço aéreo e os aeroportos dos 27 países-membros do bloco.


Belarus e o governo ainda contam com apoio de Vladimir Putin, apesar do ocorrido poder gerar certo desgaste entre os dois líderes por aumentar ainda mais a crise no país que vem se intensificando desde o ano passado.


Após a prisão de Protasevich e sua namorada, Sofia Sapega, as autoridades divulgaram um vídeo onde os dois afirmam estar bem e sendo bem tratados. O presente afirmou ter agido dentro da lei no episódio. Mas, muitos grupos acusaram o governo de ter coagido os ativistas para a gravação do vídeo, alguns até alegando tortura.


Protasevich cobriu ativamente as contestadas eleições presidenciais de 2020 e os protestos que se seguiram. A União Europeia não reconheceu a validade do pleito. Ano passado, as autoridades belarussa promoveram uma forte repressão contra as manifestações, com diversas prisões, espancamentos e abusos.


Disputas históricas, nacionalismo e geopolítica em Belarus


André Ortega, fundador do site Realismo Político e coapresentador do programa Posto Sul, em texto publicado pela Revista Opera, analisou as manifestações de 2020. Nele, encontramos fatos bastante elucidativos para entendermos o que pode estar não só por estar por trás da prisão, mas principalmente pela postura da mídia internacional e dos países europeus sobre o ocorrido.


Segundo Ortega, mesmo com pautas diversas, as manifestações que ocorreram têm grande peso geopolítico e histórico. A cobertura internacional, que foi reproduzida por veículos no Brasil, apenas apresentou uma narrativa onde manifestantes lutando contra um ditador em nome da liberdade.


Mas, olhando a fundo, Ortega analisa aspectos deixado de lado por essa cobertura. Ele nos chama a atenção, por exemplo, para os símbolos que os manifestantes portavam e muito se eternizaram em fotos que correram o mundo, como a bandeira composta por uma faixa branca em cima, uma faixa vermelha no meio e outra faixa branca embaixo.


Segundo apurou Ortega, ela surgiu primeiro em 1919, em uma breve experiência política chamada de República Popular Bielorussa, órgão liderado por nacionalistas, em um contexto de pós-Primeira Guerra, Guerra Civil na Rússia e intervenção estrangeira. Essa não é a bandeira e nem as cores oficiais do país. E essa diferença entre símbolos do governo e da oposição remete a uma disputa pela identidade e consciência nacional.


No país, até recentemente, grande parte da população se identificava com a Rússia, a revolução de 1917 dando início a criação de Belarus e tinham como evento mais importante da história de Belarus a resistência contra os invasores nazistas.


Entretanto, surgiu e cresceu uma outra narrativa, marcada por revisionismo histórico, uma visão alternativa e ocidentalizada que propõe que Belarus é um país completamente diferente da Rússia, que foi dominado por esta e precisa romper tal dominação e se integrar à Europa.


Um exemplo desse revisionismo que Ortega nos apresenta em seu texto é sobre Wilhelm Kobe. Comissário Geral nazista para Belarus entre 1941 e 1943, vem sendo colocado como um homem interessado nas coisas belarussa e seu domínio permitiu o florescimento nacionalista. Ainda dentro do período, apoiando os nazistas, existiu a Polícia Auxiliar e a Guarda Territorial Belarussa.


Esses colaboradores usavam as bandeiras vermelha e branca, com a Guarda Territorial usando braçadeiras nessa cor. Posteriormente, tais cores foram retomadas em 1991, durante a independência do país, mas foram muito atacadas por sua associação. Atualmente, o branco e vermelho vem sendo reivindicado como um símbolo de liberdade, democracia e independência, além de ter se tornado um símbolo de oposição Lukashenko, adotado por muitos jovens.


Alexander Lukashenko está no poder desde 1994 - Foto: Alexander Astafyev / via Reuters



O simbolismo das cores e suas divergências traz consigo fortes disputas políticas com componentes nacionalistas, envolvendo sobretudo a Polônia e a Rússia. Por outro lado, também envolvem disputas entre católicos e a igreja ortodoxa; e disputas históricas soviéticas e ocidentais. Os radicais do nacionalismo belarusso se organizam no seio da comunidade católica (não que a Igreja Ortodoxa também seja uma maravilha!)


Ortega destaca que muito se falou e se comparou a situação do país com a Ucrânia, mas devemos salientar que em Belarus a polarização, o nacionalismo e a divisão regional e linguística não são tão acentuadas. O que se destaca mais aqui é um nacionalismo anti-russo e pró-Europa.


Um exemplo é a Frente Jovem, um movimento nacional radical, que participou das manifestações e ligados aos neofascistas ucranianos. Este movimento também está ligado ao partido Democracia Cristã Bielorrusa (DCB), o qual ajudou a fundar. Ambos são contra o status oficial da língua russa e querem retirar o russo das escolas.


Outro exemplo trazido por Ortega é o Partido da Frente Popular Bielorussa (PFPB), descendente do grupo Frente Popular, atante nos anos 90, e é um partido de direita, adepto ao nacionalismo anti-Rússia e pró-europeu. Ele, junto com outros grupos como a Frente Jovem e a DCB, integram o Bloco pela Independência de Belarus e tiveram vários contatos com grupos neofascistas ucranianos


Mais exemplos afloram quando nos atentamos às lideranças de oposição. Ortega apresenta o caso de Ales Bialiatski, famoso como defensor dos direitos humanos e que foi preso sob acusação de enganar o fisco. Ele faz parte e já foi secretário e vice-presidente do movimento nacionalista da Frente Popular de Belarus. Pavel Belaus é ligado à Frente Jovem, um dos líderes da ONG Hodna e dono da loja de símbolos nacionalistas Symbal. Também encontraram ligações dele com neofascistas ucranianos.


Por outro lado, existe uma oposição liberal tem um programa político claramente neoliberal, pró mercado e com caráter individualizante. Aqui, com exceção da referência à língua russa, o foco é mais o neoliberalismo do que o nacionalismo. Mas, há uma convergência em termos de influência na questão geopolítica que complica um pouco mais esse contexto.


De um lado, grupos perigosamente adotando ou flertando com o neofascismo; do outro, reformas econômicas. No que se refere a essas últimas, figura sempre presente é Viktor Barbaryka, empresário belarusso que era tido como principal candidato de oposição a Lukashenko que está preso por crimes financeiros; Barbaryka é considerado um pró-russo, como afirma Ortega.


Protasevch, protestos e neofascismo


Roman Protasevich, hoje com 26 anos, iniciou seu ativismo ainda adolescente, via internet. Em 2012, aos 17 anos, foi preso por coordenar dois grupos na rede social russa Vkontakte contra o presidente. Ele também trabalhou como fotógrafo para veículos de notícias belarussos entre 2017 e 2018 e abandonou o país em 2019.


Protasevich já foi contemplado com uma bolsa Vaclav Havel, ligada ao mestrado multidisciplinar Erasmus Mundus, para aspirantes a atuar como jornalista independente. Se vocês, caros leitores, pesquisarem e entrarem no site oficial, verão que a bolsa é oferecida pelo Institute of Internacional Studies da Charles University, em Praga, na República Checa, e tem como objetivo formar líderes. Segundo o site oficial da Universidade, a bolsa é descrita assim:


“O título do nosso programa reflete a importância e o conteúdo do legado do primeiro presidente pós-comunista da República Tcheca e um ex-dissidente, Václav Havel. Em primeiro lugar, a ideia de Europa de Havel era mais ampla (em termos geográficos) do que a integração na UE. Ao mesmo tempo, Havel reconheceu e destacou a importância de uma cooperação europeia mais estreita, que constitui o cerne das relações entre os países europeus.


O Programa EPS também se relaciona com a Europa nesse sentido, sublinhando no currículo a importância dos cursos sobre temas relacionados com a UE, mas num contexto europeu mais vasto (em termos geográficos, culturais, económicos e políticos)”.


Para além de tal discurso, tipicamente liberal, facilmente encontramos fotos e comentários no Twitter, mostrando Protasevich com roupas que possuem símbolos neofascistas e acompanhado de pessoas declaradamente neofascistas.


Novamente, a ideia aqui, obviamente, não é atacar a liberdade de imprensa e política ou o jornalismo independente, mas mostrar que existem contradições e diversidade dentro dos movimentos que ocorrem em Belarus. Mas a mídia internacional, reproduzida no Brasil por meio de agências de notícias, como a Associated Press e Reuters, trata tudo como sendo a mesma coisa, um monobloco dentro de uma lógica de luta de bem contra o mal. É preciso se atentar a essas contradições para evitar abrir espaço para grupos extremistas, conservadores e de direita.



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