• Júlia Aguiar

A crise da superexposição

Cinema

Debate inaugural da 15º Cine BH sobre “cinema e vigilância” trouxe reflexões sobre o papel do cinema na construção da realidade

Debate de abertura sobre o tema central da mostra surpreende pela complexidade dos pontos abordados. Foto: Universo Produções/Reprodução


O que é realidade? Por mais complexo que seja tal pergunta, podemos conceber a construção do real através da noção de perspectiva, ou seja, nossa visão sobre a concretude das coisas muda de acordo com o ponto de vista. Na era da tecnologia visual exacerbada, os “pontos de vista” multiplicam a perspectiva sobre o real.


Com o processo de digitalização da vida humana e a democratização aos aparelhos de gravação da imagem, o cinema ganha uma nova perspectiva. Nos cabe refletir sobre o cinema e qual seu papel na atualidade.


No 15º festival de cinema internacional de Belo Horizonte (MG) o tema abordado é “cinema e vigilância”, que rege a mostra. Com uma mesa de peso, os participantes refletem sobre a história do cinema, a criação da imagem nos tempos atuais, opressão estatal, o poder da imagem e construção da realidade através da imagem em movimento.


O convidado Bernardo Oliveira, filósofo e crítico de cinema, começa sua fala relembrando as primeiras imagens captadas na História, quando no final do século 19, os irmãos Lumiére registram trabalhadores saindo das fábricas. Bernardo cita reflexões do cineasta Harun Farocki sobre como tais imagens demonstram que o enquadramento escolhido traz em si significados profundos sobre o cotidiano.


“A câmera é para além de um objeto técnico análogo a uma arma, ela é uma espécie de instrumento cartográfico”, afirma o convidado. Segundo Bernardo, Farocki diz que “onde havia a primeira câmera capturando o movimento dos trabalhadores há hoje câmeras de vigilância”.


O curioso em sua fala é justamente a perspectiva da semiótica representada nas primeiras imagens em movimento gravadas pelo ser humano. Uma imagem pode ser inúmeras coisas ao mesmo tempo, tudo depende do ponto de vista.


Fazendo um salto histórico para os dias atuais e para com o tema central da mostra, as câmeras que hoje são utilizadas para vigilância também demonstram recortes sobre o real. O problema é que estamos vivendo um período histórico onde os humanos são bombardeados por imagens o tempo inteiro, a internet transformou a nossa relação com o entendimento sobre o real.


Temos a tendência de acreditar que “antes” as imagens eram somente aquilo que lhes era capturado, um lugar inquebrável da realidade. Porém, como explica Farocki, todas capturas de imagens são compostas por camadas de significados. “O cinema seria uma realização criativa sobre a realidade”, afirma a pesquisadora Patrícia Mourão, uma das convidadas do debate.


Para Patrícia, a difusão do vídeo e a possibilidade de manipulação da imagem, na década de 1980 e 90, trouxe para a sociedade uma desconfiança com a concretude da realidade sobre as imagens. “Passa-se a ter certa rejeição dos modos de observação do documentário por conta de uma suposta crença positivista na realidade”, disse a pesquisadora.


Ao adentrar a reflexão nos últimos anos, Patrícia relaciona esse relativismo com a ascensão da extrema-direita no mundo, afirmando que tal desconfiança sobre a realidade foi apropriada por agentes com um propósito político. O que pode ser observado nas estratégias, extremamente eficientes, de pessoas como Steve Bannon, influindo em movimentos históricos como o Brexit, na Inglaterra, e a eleição de Donald Trump, nos EUA.

Trecho do curta “O Assassinato de Harith Augustus”. Foto: Forensic Architecture


Patrícia termina sua fala relacionando sua reflexão com os curtas-metragens apresentados na abertura da 15º Cine BH, do grupo Forensic Architecture (FA). Os curtas relatam o assassinato de Harith Augustus, um homem negro que no dia 14 de julho de 2018 é abordado pela polícia de Chicago, e durante a rápida abordagem é morto por um policial. Os filmes recriam a cena do crime com desenho 3D, reunindo perspectivas de várias câmeras que capturam trechos do ocorrido, o grupo apresenta uma visão mais ampla sobre o acontecimento.


“Não é exatamente que um coletivo de arte tem um efeito sobre o real, é que o Forensic desloca o centro da prática documental para os lugares de produção e de recepção de todos os fluxos informacionais. São filmes que fazem parte de situações de investigação que mobilizam diferentes colaboradores para acionar um conjunto polifônico que participa de todo o processo”, explica Patrícia.


Fazendo uma relação direta aos curtas Bernardo levanta a hipótese de que “quanto maior o controle dos detalhes maior a vulnerabilidade do sistema”. Já Paulo Tavares, arquiteto e associado do FA, começou sua fala no debate afirmando que “os espaços urbanos são espaços midiáticos. Não somente como vigilância estatal, mas potencialmente uma câmera vigilante por si mesma”.


Tal perspectiva abre espaço para a reflexão: Qual o papel do cinema na atualidade?


CineBH


A Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte começou nesta terça-feira, 28 de setembro e encerra no dia 3 de outubro e pode ser acompanhado pelo site https://cinebh.com.br.


São mais de 90 filmes nacionais e internacionais para assistir, debates e rodas de conversa sobre cinema. O 15º CineBH também investe na formação e capacitação de profissionais em 11 cursos–oficinas, laboratórios de roteiros, workshops e masterclasses internacionais. E também terá sessões cine-escola, Mostrinha de Cinema, exposição e atrações artísticas.


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