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A genialidade de Tolstói

O que ler?

Obra de Liev Tolstói ganha fôlego com nova edição da Todavia. “Novelas Completas” resgata a maestria de um dos estilistas do texto que melhor conseguiu captar a alma da Rússia czarista

Lev Tolstói, em foto tirada no mês de maio de 1908 - Foto: Wikimedia Commons/Reprodução


Marcus Vinícius Beck


Se a gente alçou Fiódor Dostoiévski à condição de gênio da literatura russa, o mesmo deve-se fazer a Liev Tolstói: trata-se, ora pois, de justiça intelectual. Isto posto, ao que interessa: o aristocrata do texto captou – como apenas os gênios dão conta – a alma de seu povo na segunda metade do século 19. E detalhe, numa Rússia infestada pelo atraso czarista. “Estávamos de luto por nossa mãe, que morrera no outono, e passamos o inverno inteiro no campo, sozinhos, eu, Kátia e Sônia”, diz o autor na primeira frase de “Novelas Nada Exemplares", obra que está disponível para compra nas melhores casas do ramo – ou no site da Todavia. Genial, o Tolstói. Bela iniciativa editorial.


Oriundo de uma família aristocrata, o escritor tornou-se conhecido por conta de romances monumentais, como “Anna Karenina” (1877) e “Guerra e Paz” (1869), epopeias brilhantes onde trabalhara com persistência dois temas marcantes em sua literatura, a relação entre homens e mulheres e a morte. Tanto que, logo de cara, em “Novelas Nada Exemplares”, o leitor depara-se com a lamúria provocada pela dor da partida. “Kátia era uma velha amiga da família, a governanta que nos criou, de quem me lembro e a quem amo desde que me entendo por gente”, lamenta. Seu talento narrativo alimentou a alma de gente que revolucionou os alicerces do ofício da escrita.


Uma das responsáveis pela concepção da técnica denominada de fluxo de consciência, a britânica Virginia Wolf dizia que Tolstói era simplesmente “o maior de todos os romancistas”. Por caminho elogioso semelhante vai o alemão Thomas Mann, o cara que escrevera “Tonio Kröger” (1964) e descera a lenha verbal no charlatão Adolf Hitler (lá pelos idos de mil novecentos e trinta e poucos, quando o nazista, para desgraça humanitária, chegara ao poder). Mas, sem dúvida, o sujeito que dissertou com mais paixão foi o crítico literário inglês Matthew Arnold. “Um romance de Tolstói não é uma obra de arte, mas um pedaço de vida”, elogiou. Bravo, bravo, bravo...


Embora – como a gente viu na rasgação de cera de Wolf e Mann – tenha sido um mestre na arte da narrativa longa, Tolstói também brilhou nas histórias curtas, ou, como dizem os ianques, nas shot history. São obras-primas – aqui, só pra deixar claro, vale citar essa palavra tão banalizada pelos escribas da geração apple. Deliciamo-nos com a síntese da condição humana empreendida em sua prosa. E com o guia da tradução de Rubens Figueiredo, as quatro novelas (favor não confundir com o gênero popularizado pelo plim-plim) perpassam por temas onde é possível vislumbrar o trampo de um mestre do texto que penetrou nas profundezas da vida emocional.


Quem foi Tolstói?


Nascido em 1828, na Rússia, Tolstói concebeu a novela “A Felicidade Conjugal”, que já foi lançada no Brasil pela L&PM, entre 1858 e 1859, quando era solteiro e residia numa propriedade rural. Pode-se dizer que nesta época ele estava dando seus primeiros passos na trajetória de escritor, pois a primeira obra cuja autoria é imputada ao romancista data de 1852, isto é, dos tempos em que labutara como militar na campanha do Cáucaso e na Guerra-Russo-Turca, também conhecida como Guerra da Criméia. Após largar mão dessa rigidez fardada, uffffaaaaaa!, o jovem escritor viu seus textos serem disputados por engravatados que comandavam as famosas “revistas grossas”.


Em suas páginas, impregnadas pelas tintas da dialética, militavam o suprassumo dos pensadores. As polêmicas, criadas pela intelligentsia nacional, além das pressões que a cercavam por todos os lados, davam à publicação um charme, tornando-a um reduto por onde passaram boa parte da efervescência fora do comum que exalava criatividade pelas ventas da palavra. Imersa num ambiente pulsante como esse, não restaria outra coisa senão a perpetuação no altar da genialidade literária dos textos que integram “Novelas Completas”. Porque, com a vênia da licença, digo: a acuidade literária de Tolstói o colocam no alto do altar da genialidade. Sem brincadeira, nem exageros.


Intelectualmente inquieto, literariamente engajado, Tolstói a essa altura experimentava distintas estéticas à procura de uma voz narrativa. É, eu arrisco a dizer, temeroso de que o glorioso leitor xingue-me, o grande libelo da obra “Novelas Completas”, agora a venda para todos os rincões do Brasil. De um período – por assim ser – nem tão maduro do prosador russo, as novelas “Felicidade Conjugal”, “A Morte de Ivan Ilitch, “Sonata a Kreutzer” e “Padre Siérgui” se fortalecem justamente a partir do carácter raríssimo. E tornam-se documentos históricos de uma época sobre a qual, vez ou outra, cisma-se em tecer equívocos intelectuais. Ainda mais no País do negacionismo. (Marcus Vinícius Beck)


Ficha Técnica


‘Novelas Completas’

Autor: Liev Tolstói

Gênero: Ficção

Editora: Todavia

Preço: R$ 69,90 (impresso) e R$ 34,90 (e-book)


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