• Júlia Aguiar

A greve que nunca acabou

Memória

Por 10 anos a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, presenciou greves massivas; confira entrevista exclusiva com os ativistas do movimento que se tornou a greve mais importante da história do Brasil

Entrevista foi concedida para o programa “Por de trás das notícias”, que ocorre toda segunda e quarta, das 7h às 9h da manhã na TVM


Estamos em novembro de 1988, e a nova constituinte havia acabado de ser aprovada pelo Congresso Nacional no mês anterior, oficializando o “fim” da ditadura civil-militar e garantindo direitos trabalhistas. “Temos ódio e nojo da ditadura, ódio e nojo!”, afirmou o deputado federal Ulysses Guimarães, em 5 de outubro de 88, segurando a nova constituição em mãos.


Logo após sua aprovação, aconteceu uma chacina em Volta Redonda (RJ), quando as Forças Armadas assassinaram três trabalhadores e mais de 51 feridos que compunham a greve geral mais combativa da história do Brasil.


À época, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) era uma empresa estatal e a maior siderúrgica da América Latina, situada em uma cidade planejada para comportar os trabalhadores. Volta Redonda - que fica a 132 quilômetros da cidade do Rio de Janeiro - foi marcada em 1941, pela criação da CSN, o primeiro complexo siderúrgico brasileiro, feita pelo então presidente Getúlio Vargas. O município se desenvolveu através das necessidades dos trabalhadores metalúrgicos, a circulação de capital e reprodução da força de trabalho.


Pela dinâmica da cidade com a usina, a população desenvolveu um sentimento de “CSN mãe”, afinal, a empresa era de fato do povo: pertencia ao estado brasileiro. Durante os anos de chumbo a cidade foi controlada pelos milicos e, em 1973, foi declarada pelo governo federal área de segurança nacional, o que perdurou até 1985. Tal medida impediu que a população elegesse um prefeito por 12 anos, sendo o cargo indicado pelo presidente da república.


Porém, em junho de 1984, acontece a primeira greve geral massiva dos metalúrgicos na “cidade do aço” reivindicando 45 pautas, sendo a principal uma equiparação salarial com os trabalhadores da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), que ganhavam o dobro. Desde então, houve greve todos os anos por melhorias trabalhistas, ao ponto de, em 1988, a paralização mobilizar várias bases de movimentos sociais, como mulheres, trabalhadores de vários segmentos, movimento negro, igrejas, estudantes e movimento de bairros.


Em 7 de novembro de 1988, começa a greve que reivindicou ao governo Sarney reajuste salarial com base no índice de inflação, estabilidade no emprego, jornada de trabalho de 40 horas semanais, readmissão dos demitidos em 1987, isonomia salarial, instauração de uma Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) eleita pelos trabalhadores, reconhecimento dos representantes sindicais, fim da perseguição à atividade sindical e divulgação do Sistema de Cargos e Salários da empresa.


Em entrevista concedida ao programa de rádio/tv “Por de trás das notícias”, que acontece toda segunda e quarta-feira das 7h às 9h da manhã na TVM – a mídia da Oposição Metalúrgica do Sul Fluminense, o dirigente do sindicato dos metalúrgicos na década de 1980, Isaque Fonseca, explica que a greve foi movida principalmente pelo princípio da ocupação e ação direta.


Reação do exército foi a mais agressiva da história do Brasil contra uma greve popular. Fotos: Arquivo Nacional/Reprodução


Isaque relembra que os trabalhadores, ao sentir esse sentimento de pertencimento à fábrica, sabiam que ocupar seria a maneira mais justa e eficaz de luta. Quando os companheiros Carlos Augusto Barroso (19 anos), Walmir Freitas Monteiro (27 anos) e William Fernandes Leite (22 anos) foram assassinados de forma brutal pelo exército, Fonseca estava presente junto aos trabalhadores da base para decidir como deveriam agir.


Após os assassinatos, a cidade inteira se mobilizou pela greve dos trabalhadores: mães com seus filhos pequenos, idosos, crianças, secundaristas, trabalhadores de outras regiões, solidariedade internacional, movimento negro, candomblecistas, mulheres dos trabalhadores, a igreja católica – com bispos, padres e féis da teologia da libertação. Volta Redonda se transformou por quase um mês, numa experiência libertária de democracia direta com assembleias com quase metade da cidade reunida em praças e palanques.


Uma técnica muito conhecida pelos movimentos por moradia em 2021 foi usada para justificar a ocupação do exército na fábrica e na cidade. O juiz da 3ª Vara Cível, Moisés Cohen, acatou pedido de “reintegração de posse” e permitiu a entrada das forças repressivas. Os trabalhadores Juarez Antunes, Marcelo Felício e Isaque Fonseca foram citados, mas não receberam a notificação e todos decidiram resistir ao avanço das forças armadas.


Batalhão de Petrópolis com a 1ª Brigada Motorizada do Exército, batalhões da Polícia Militar do Rio de Janeiro e de Barra Mansa foram enviados pelo então presidente José Sarney para barrar a greve. Como um ímpeto tardio do AI-5, a força repressiva criou um cenário de guerra na cidade do aço.


Foram mais de 20 dias em confronto direto da população resistindo as força repressivas. A greve durou até o dia 24 de novembro, quando os trabalhadores em união com os movimentos populares decidiram que a greve acabava se o exército, a polícia e todo aparato repressivo fosse embora da cidade.


Os convidados da live Sandra Mayrik, Erasmo Quicciri e Isaque Fonseca relataram aos telespectadores do programa como foi esse momento histórico de resistência e extrema violência.


Conheça os convidados:


Erasmo Quiricci: historiador, documentarista - autor dos documentários "Os Sacerdotes do Povo - The Red Bishop" e "1988 - uma greve corações e mentes”. Atualmente é coordenador de Comunicação da Oposição Metalúrgica do Sul Fluminense.


Sandra Mayrink: jornalista, ex-presa política, militante histórica, coordenadora de Comunicação da Oposição Metalúrgica do Sul Fluminense e autora do livro "Volta Redonda: entre o aço e as armas", junto com Isaque Fonseca. Atualmente é coordenador de Comunicação da Oposição Metalúrgica do Sul Fluminense.


Isaque Fonseca: Dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense, na década de 1980, era o dirigente mais próximo de Juarez Antunes. Era também o dirigente do Sindicato mais ligado aos grupos de base na CSN, denominados de Segundo Comando. Atualmente é coordenador político da Oposição Metalúrgica do Sul Fluminense.

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