• Marcus Vinícius Beck

A mordaça do racismo

Televisão

No Dia da Consciência Negra, TV Globo – em parceira com o Globoplay – exibe o especial ‘Falas Negras’, que conta com 22 depoimentos de atores que interpretam personagens históricos

Atriz Taís Araújo vive vereadora Marielle Franco em especial - Foto: Victor Pollak/ Globo Divulgação


A vereadora Marielle Franco foi assassinada em 14 de março de 2018 no Rio de Janeiro, mas a polícia brasileira ainda não encontrou o mandante do crime. O pastor Martin Luther King tinha o sonho de ver seus filhos frequentarem os mesmos espaços que os brancos bem-nascidos, e acabou tendo sua utopia interrompida em 4 de abril de 1968, em Memphis, nos Estados Unidos, enquanto se preparava para mais uma marcha civil.


Muhammad Ali, maior pugilista da história, recusou-se a ir à Guerra do Vietnã e desafiou o governo norte-americano com isso. Suas conquistas no ringue - três títulos de pesos pesados - foram cassadas e ficou três anos sem lutar até a Suprema Corte emitir sentença favorável a ele – episódio é contado pelo jornalista Norman Mailer na obra “A Luta”, livro-reportagem que narra o confronto entre Ali e George Foreman.


São tantos e tantos casos de mordaça contra negros que não cabem nas nossas duas mãos: Nelson Mandela, Milton Santos, Angela Davis e mais de uma dezena de personagens têm agora suas trajetórias no centro do especial “Falas Negras”, exibido hoje pela TV Globo – em parceria com o Globoplay – após a novela “A Força do Querer”. As falas históricas são interpretadas por atores, em primeira pessoa, num projeto concebido por Manuela Dias, com direção de Lázaro Ramos.


“Eu fiquei muito emocionada com o convite porque a Marielle significa muito para mim, em muitos lugares. Eu fiquei muito feliz! É uma personagem importante para a história recente no Brasil. Eu senti vontade de ter conhecido mais a Marielle”, revela a atriz Taís Araújo (Marielle Franco), em material de divulgação disponibilizado pelo Grupo Globo para a imprensa. “Eu acho que todos os brasileiros mereciam conhecê-la mais. Ela tinha tanto a dizer e tanto a fazer...”, completa Taís.


No especial, o público vai assistir relatos os coloniais de Nzinga Mbandi, que datam de 1626, e os veementes de Malcolm X e Angela Davis, além da rebeldia de Muhammad Ali, a preocupação de Marielle Franco com os menos favorecidos, os ensinamentos pacifistas de Martin Luther King e o pensamento do geógrafo e jornalista Milton Santos. E tudo com um tom artístico: a iluminação carrega marcas estéticas do documentarista Eduardo Coutinho, sobretudo a adotada por ele em “Jogo de Cena”.


“Quando eu era mais jovem, sonhava me tornar lutador e ele era um dos maiores lutadores do mundo. Quando o vi falando, foi a primeira vez que eu vi um lutador falar daquele jeito. Eu me emocionei pelas condições em que ele se encontrava, as condições da luta dele foram muito traumáticas”, diz o ator Babu Santana (Muhammad Ali), também em material de divulgação da Rede Globo.


Trailer:


“Falas Negras” foi produzida entre um capítulo e outro da novela “Amor de Mãe”, folhetim global interrompido pela pandemia de coronavírus. Os textos, escritor por Manuela, foram selecionados após pesquisa com Thaís Fragozo. Com uma fotografia inspirada no pintor italiano Caravaggio, a obra é um telefilme que foca em depoimentos reais verbalizados por atores, e sem grandes cortes: o que, de fato, prende a atenção do público é a capacidade de cada em contar uma história.


“Quando li o material todo, fiquei parado por um tempo pensando em como que eu ia lidar com aquilo. Mas, ao mesmo tempo, sei que tudo aconteceu de verdade, não tem ficção aqui. É o que a nossa História produziu”, relata Lázaro Ramos, em entrevista de divulgação disponibilizada pela Globo à imprensa. Então, ele continua, sentiu como se estivesse sendo convidado para refletir sobre a maneira com que a sociedade enxerga a História. “O meu desejo é que as pessoas se sintam motivadas a agir. É a nossa História, foi o que nós produzimos. E aí? O que faremos com isso?”, arremata.


Para aproximar o espectador das personalidades retratadas, a figurinista Tereza Nabuco traz adereços que faziam parte da imagem pública dos personagens, mas se preocupou em manter o destaque às palavras deles. Mesmo assim, a caracterização dos personagens salienta o poder revolucionário da negritude: Taís Araújo dá show como Marielle, bem como Babu na pele de Ali e Naruna Costa vivendo Angela Davis.


Se devemos refletir sobre o racismo todos os dias - e não apenas no Dia da Consciência Negra, que é hoje -, “Falas Negras” serve como um instrumento de transformação: ainda temos muito o que fazer para evitar problemas como os negros ganhando menos que brancos pelas mesmas funções exercidas. É preciso dar o primeiro passo, e já.



‘Falas Negras’

Quando: hoje, após “A Força do Querer"

Onde: Globo e Globoplay



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