• Marcus Vinícius Beck

A mostra da diversidade

Cinema

24a Mostra de Cinema de Tiradentes homenageia cineasta Paula Gaitán, uma das artistas mais importantes do cinema brasileiro; programação conta ainda com produção goiana

Cantor Arrigo Barnabé em cena do documentário ‘Ostinato’, de Paula Gaitán - Foto: Lucas Barbi/ Divulgação


Já virou tradição: a Mostra de Cinema de Tiradentes abre desde 1997 o calendário do audiovisual no País com longas exibidos em sessões competitivas, curtas que provocam reflexões sobre pautas identitárias na sociedade e mesas-redondas que estimulam um olhar desconstruído às obras que fazem parte da programação.


A mostra, de longe, é a principal do cinema brasileiro e as razões para isso vão da programação abrangente, diversificada e gratuita que conta com 114 filmes - sendo 31 longas, 2 médias e 81 curtas em pré-estreias nacionais e mundiais - à participação de 102 convidados no 24o Seminário do Cinema Brasileiro, com 22 debates, 10 oficinas e 225 vagas para performance audiovisual, exposições, shows e atrações artísticas.


Neste ano, contudo, as coisas estão um pouco diferentes: por causa da pandemia não teremos a charmosa cidade de Tiradentes (MG) como palco e nem sua arquitetura colonial embelezando o evento. A mostra migrou para as plataformas digitais.


Mesmo assim, a abertura seguirá a cartilha dos anos anteriores ao exibir a estreia mundial de um filme feito pelo homenageado. O do deste ano será o documentário “Ostinato”, da multiartista Paula Gaitán, nome seminal para o cinema experimental por conta das provocações estéticas lançadas em sua obra. Afinal, não dá para separar o mundo do cinema ou a realidade das imagens: eles são grudados uns aos outros.


Os curadores Francis Vogner e Lila Foster, em texto no qual analisam o cinema produzido por Gaitán, explicam que ela realiza longas, curtas e filmes com ou não dinheiro, bem como produções caseiras, musical de memória, filmes híbridos ou documentários especulativos, ficção poética e cine retrato abstrato. É, segundo eles, uma artista “que realiza trânsitos entre arte e cinema há anos”. “Ela usa a câmera como uma pintora usa o pincel, tem um ouvido atento, dá cores à música”, definem.


Em “Ostinato”, Gaitán narra a história do músico Arrigo Barnabé. É uma obra que reflete antes de tudo uma ideia, um padrão rítmico. Aqui o retrato de Arrigo é o retrato do trabalho. Ele fala de música, processos, perambula por São Paulo, cidade onde sua música se tornou um patrimônio da cultura brasileira. Errou quem imagina que o trabalho é todo “passando a mão na cabeça”, pois trata-se de um filme de Gaitán.


“Tiradentes tem um caráter de tentar dar conta de um panorama que é muito longo”, disse Vogner, em entrevista coletiva realizada na quarta-feira (13). “A cada ano a gente faz uma temática, faz um corte, mas é um panorama muito amplo de filmes, de filmes de longa-metragem, de filmes de curta-metragem. No caso dos longas, que Lila e eu fizemos, esse ano e ano passado, a gente se deparou com um universo muito grande”.


De fato, a diversidade impede que o repórter destrinche a programação de Tiradentes.


No entanto, filmes como “Rodson ou (Onde o Sol Não Tem Dó), de Cleyton Xavier, Clara Chroma, Orlok Sombra e “Voltei”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio apelam para o perecimento do nosso momento histórico a partir do futuro. “Subterrânea”, de Pedro Urano, foca num arrasamento feito pelo então prefeito do Rio de Janeiro Carlos Sampaio, em 1922, focando no Morro do São Carlos. Em sua investigação imagética, Urano mostra como os pobres são expulsos do processo urbano nas metrópoles.


Já “Amador”, produção goiana e mineira assinada por Cris Ventura, retrata a história do poeta underground de Belo Horizonte, Vidigal, que morreu precocemente. Artista multifacetado, ele é perfilado com uma beleza que não está dissociada de sua radicalidade poética, componente fundamental em sua existência. Fica claro, no filme, que o artista viveu sua intensidade do presente e suas falas refletem a rua, ali onde transitam os malucos de boa alma, os vagabundos iluminados e os seres da noite.


“Fui muito próxima ao Vidigal no começo dos anos 2000, ia muito a sua casa, ele ia na minha, viajamos juntos algumas vezes, tínhamos muitas histórias, muitas vivências no fim da adolescência e começo da vida adulta”, recorda a cineasta ao JM. Ela relata ainda que, quando começou a fazer seus primeiros curtas, havia tentado realizar parcerias com ele. “Mas em algumas dessas tentativas ele não estava em condições”.


Em “Mulher Oceano”, filme exibido na Mostra na Praça , a cineasta Djin Sganzerla – filha do diretor Rogério Sganzerla e da atriz Helena Ignez – faz um mergulho na alma da escritora Hanna, que se muda para o Japão, mas não sem levar consigo a imagem de uma mulher nadando nas praias do Rio de Janeiro. Djin interpreta tanto a protagonista quanto seu duplo, trazendo dimensões simbólicas como um mergulho no mar.


Na obra, o oceano nada mais é do que uma metáfora para representar a intimidade que há na escrita e seu diálogo com as camadas mais profundas do interior da existência. “Concebendo essa história junto com ela, fiquei apaixonada pela personagem, todo universo dela, ela foi nascendo dentro de mim ao mesmo tempo. Eu fui me tornando esses personagens enquanto eu escrevia. É orgânico e natural”, detalha Djin.


Tiradentes, realmente, instiga reflexões sobre diversidade no cinema e isso numa época em que a caça às bruxas aparentemente está sendo ressuscitada me parece ser algo bastante convidativo. Programem-se: acompanhem a mostra, se emocionem com o cinema brasileiro e percebam como ele é crucial para que nos entendamos enquanto sociedade, enquanto cultura, enquanto país...


‘24a Mostra de Cinema de Tiradentes’

Quando: de 22 a 30 janeiro

Horário: início às 20h

Onde: https://mostratiradentes.com.br/

Gratuito


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