• Marcus Vinícius Beck

A pioneira da ficção

Estreia

Documentário reconstitui trajetória da primeira cineasta da história e mostra como ela viu o cinema enquanto meio artístico


Cena do documentário ‘Alice Guy’ - Foto: Divulgação



A cineasta francesa Alice Guy-Blaché (1873-1968) esteve presente na sessão dos irmãos Lumière no Grand Caffé de Paris, em 1895, mas logo tratou de ser apagada da história do cinema por bigodudos da acadêmia. Ela foi capaz de imprimir uma dimensão criativa e artística além das invenções do seu tempo. O que era apenas máquinas da reprodutibilidade técnica do daguerreótipo tinham, nas mãos dela, se tornado o paraíso onírico da fantasia.


Guy-Blaché deu um passo além: afinal, ela foi a pioneira em dirigir um filme quando isso ainda era coisa de homem. Nascida na região de Paris, ela se dedicou ao cinema por um acaso. Primeiro, entrou como secretária no Comptoir Général de La Photographie, em 1894. O horizonte abriu-se sua frente: não demorou para realizar seus primeiros curtas-metragens. Depois, enveredou pelos caminhos da ficção, introduzindo-a no novo meio.


Nesse sentido, o público tem a oportunidade de assistir a estreia no Telecine hoje, em sua plataforma de streaming e no canal Cult, às 22h, o documentário “Alice Guy: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo”. O filme, cuja direção é assinada por Pamela B. Green, recompõe a trajetória da primeira mulher a dirigir uma obra com imagens em movimento: é regresso aos primórdios do cinema.


B. Green reconstitui as experiências cinematográficas de Guy-Blaché e mostra como a jovem cineasta tinha uma curiosidade artística insaciável, que tocava em todos os gêneros, em todos os estilos, e quase sempre com um olhar atento às novidades. Claro, não é à toa que se o cinema é considerado a arte do século 20 por excelência, o nome da francesa precisa ocupar um lugar de destaque: ela era original e descobridora.


Mulher excepcional, mas tristemente esquecida por aqueles que ‘escrevem’ a História (faço questão aqui de usar o ‘H’ maiúsculo), Guy-Blaché percebeu antes dos seus colegas que o cinema poderia ser outra coisa além de desfiles de militares ou um amontoado de imagens de trens entrando e saindo da estação. Foi ela, por exemplo, quem criara a primeira obra de ficção e o que seria do cinema sem a fantasia e sem o sonho?


Em sua carreira, a cineasta dirigiu cerca de 500 filmes – entre curtas e longas-metragens – e durante anos foi a única diretora do mundo. Em 1896, ela produziu o que é considerado o primeiro filme com uma história inventada. Com menos de um minuto”, “La Fée Aux Choux” mostra bebês saindo de um papelão artisticamente desenhado. Centenas de produções se sucederam, do drama à comédia, até que roda sua obra-prima, “A Vida de Cristo”, de 1906, foi feita: tem 25 cenas, com duração de 35 minutos.


Feminista


Na segunda parte de sua carreira, Guy-Blaché partiu para Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde ela viu sua carreira florescer. Sem demorar, fundou um estúdio que se tornaria o maior dos EUA da era pré-Hollywood. Em 1919, numa entrevista a um jornal americano, a diretora afirmou que as mulheres já estavam preparadas para votar. Isso, porém, foi acontecer apenas em 1920.


Em 1922, após ser abandonada pelo marido, Guy-Blaché retorna para a França, mas percebe que seu trabalho já havia sido esquecido. Com dois filhos, não conseguia encontrar sequer um emprego. Seu país natal a colocou no ostracismo e, assim que surgem as primeiras histórias a respeito da origem do cinema, a obra da diretora é apagada e atribuída a outros personagens, mais medíocres, menos brilhantes, porém todos com algo em comum: são homens.


Sem assinatura, créditos e tampouco direitos autorais, os filmes de Guy-Blaché seguem perdidos no tempo. Na autobiografia publicada após sua morte, a diretora diz que “se eu nascesse em 1873 […]. Se eu tivesse trabalhado na Gaumont por onze anos […]. Se eu fosse a única diretora feminina em todo o mundo por dezessete anos, quem eu seria? Eu seria famosa, seria famosoa, seria celebrada, seria reconhecida. Quem sou eu? Méliès, Lumière, Gaumont? Não. Eu sou uma mulher."


De fato, uma mulher pode e deve ter sucesso - Alice Guy-Blaché provou isso -, mas em algum momento a tiraram de um lugar que é seu por direito. Méliès, por exemplo, também foi esquecido pela história e, sem dinheiro, chegou a vender doces em frente à estação de Montparnasse. Mas, a partir de 1925, devolveram-lhe o seu posto. Já Guy-Blaché nem mesmo é mencionada. Vamos ter de nos consolar com poucos filmes dela disponíveis no Youtube. Muito pouco.


Enquanto isso, é uma boa escolha assistir a “Alice Guy: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo”, de Pamela B. Green. O longa mostra por que a importância de Guy Blaché para a cinema e seu desenvolvimento é essencial.


Alice Guy: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo

Autora: Pamela B. Green

Gênero: Documentário

Quando: Hoje

Horário: a partir das 22h


Trailer do documentário 'Alice Guy: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo' - Foto: Divulgação

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