• Metamorfose

A poesia das ruas

Botequim Literário


Santa, Rio de Janeiro, 2020 - Foto: Júlia Lee



Perambulei, num domingo desses, pela sinuosidade íngreme de Santa Teresa, à caça de um botequim para degustar uma dose a fim aliviar a tensão acumulada após rodar mil e tantos quilômetros de Goiânia ao Rio de Janeiro. Dica da minha companheira de vida e de pautas, adepta de um ‘tapa na pantera’, mas nem tão devota assim do ofício da embriaguez etílica como este que vos fala: “tem um bar foda bem perto daqui”.


Eis a minha recepçãooooooooooo.


E cá entre nós, não poderia ser mais adequada.


Sentia-me, sem muito esforço em evitar a pieguice, ou deixar na cara a emoção sui generis do turistão empolgado, um personagem que saltara das páginas da crônica “Modern Girls”, do jornalista João do Rio, gênio supremo da arte de bater perna atrás da combustão verborrágica. À medida que a gente andava, todavia, evoquei umas palavras de Rubem Braga impressas no Correio da Manhã, importante jornal nos 1950: “Santa Tereza é um dos lugares que menos existem”.


Braga, na realidade, parece tê-las concebidas ao escriba. E pra variar, adocicou com sua leveza lírica uma alma cansada, meu caro João Antônio, de chutar as tampinhas do desespero.


Sem mais delongas, eis o lirismo braguiano: “Mas do outro lado, entre árvores gordas e palmeiras finas, aquele remorso eterno de não morar em Santa Tereza. É um dos lugares do Rio que menos existe. Quando a gente vai a Santa Tereza tem sempre o ar meio disfarçado de que de repente sai do asfalto do presente para retomar o bondinho da infância, e fica olhando cartões postais e pensando à boa debaixo das jaqueiras”.


Enquanto perambulava, e deleitava-me com as arquiteturas com traços modernistas que embelezam o intelectual e cultural bairro carioca, mergulhei numa sensação da qual eu achava ter esquecido há tempos – pelos menos desde a subversão radiofônica durante a chamada Primavera Estudantil de 2016: a de estar vivo, de sentir a vida pulsando a um palmo do seu umbigo e de sentir-se tão seguro a ponto de pensar ser dono da porra toda.


Penso, em minha caminhada, nos perfis escritos por Machado de Assis e sua busca incessante por dar voz aos excluídos; penso em Paulo Mendes Campos e suas epístolas da boemia eternizadas em “Os Bares Morrem Numa Quarta-Feira”; penso em João Antônio saindo da Redação de O Pasquim maluco para beber uma birita; e acho que não há nada de mais acertado do que pensar em Machado, Paulo e João. Não há!


A poesia está em todo lugar na metrópole à beira-mar. Ou a poesia é a própria metrópole. Mas a verdade é que há alguma coisa acontecendo aqui, que alguma coisa vai acontecer após a morte da moléstia... Reza a lenda rodrigueana que após a pandemia de Gripe Espanhola, responsável por assolar o Rio de Janeiro entre 1918 e 1920, rolou o Carnaval mais sexualmente revolucionário de todos os tempos.


Eu, humildemente, perambulando pelas ruas de Santa Teresa, à procura do tal botequim centenário, imagino como era a vida noturna naqueles tempos de moléstia do século passado. Certamente os malandros do Rio praticavam - assim como a gente - o ofício etílico. Tanto que o Bar do Gomez, instituição fundada em 1919, resiste na Rua Áurea.