• Lays Vieira

A república de Barbados

Internacional

Mudanças tendem a ser mais simbólicas do que práticas

A artista Rihanna foi homenageada como heroína nacional pelo seu papel na conquista da independencia de Barbados pela primeira presidenta do país. Foto: AFP/Reprodução


A ilha caribenha retirou o título de chefe de Estado da rainha Elizabeth II na última terça, 30, e se tornou oficialmente uma república. A quase trinta anos, Elizabeth não era removida de tal posto, o último país a fazê-lo foi as Ilhas Maurício, em 1992.


Barbados possui aproximadamente 280 mil habitantes, tendo sido “descoberta” ainda em 1492, mas não foi colonizada por espanhóis. Posteriormente, sua posse foi reclamada pelos britânicos em 1625. Tendo sido colônia destes até (também) 30 de novembro de 1966. A maioria da população é de ascendência africana (82,4%) e cristã (75,6%), segundo o Censo de 2010 do país.

A ilha foi um dos principais centros caribenhos do modelo de plantation: monocultura para exportação (a exemplo do tabaco e do açúcar), baseada em ampla e brutal mão-de-obra escrava (especialmente de negras e negros forçados a sair do continente africano). Prática muito utilizada no período de colonização das Américas, que levaram países, como a Inglaterra, a enriquecer imensamente.

Barbados manteve laços com a monarquia britânica mesmo depois da independência. Com a troca de regime, encerra-se 396 anos de reinado. Por isso, como símbolo da mudança, o estandarte real do Reino Unido foi retirado e a governadora-geral, Sandra Mason, prestou juramento como primeira presidente da nação.

A decisão de se separar da monarquia foi anunciada ainda em setembro de 2020. No mês seguinte, o Parlamento de Barbados elegeu Sandra Mason como presidenta da República. Mason é advogada e coleciona diversas conquistas históricas em seu país: 1ª mulher admitida na Ordem dos Advogados em Barbados, a 1ª mulher nomeada embaixadora e a 1ª mulher a integrar o Tribunal de Apelações do país.

Também atuou no Comitê da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre os Direitos da Criança (entre 1991-1999) e integrou a comissão da Caricom (Mercado Comum e Comunidade do Caribe - bloco de cooperação econômica e política). Em 2005, foi nomeada para a Ordem dos Advogados de Barbados como Conselheira da Rainha. No dia 1º de janeiro de 2014, foi a 1ª barbadiana membro do CSAT (Tribunal Arbitral do Secretariado da Commonwealth) e em 2017, foi eleita a 1ª mulher presidente desse tribunal. Em 2018, foi nomeada governadora-geral de Barbados também pela Rainha, cargo que funciona como um representante desta última em tal país.


Simbolicamente, esse movimento republicano e a nomeação de uma mulher (e com tantas conquistas históricas) ao cargo de presidente, é de muita importância e valor. Mas, em termos práticos, será que muda muita coisa? Aparentemente o caminho até mudanças realmente concretas pode ser longo. Depois da independência a influência da monarquia britânica já era muito mais simbólica do que prática, ainda sim, 60% da população preferiu a separação, via ato de governo. Mas, a ilha pretende permanecer como membro da Commonwealth, a comunidade de nações que pertenceram ao império britânico.


Por outro lado, a econômica que se construiu pós regime de plantations é fortemente dependente do turismo (que a pandemia prejudicou em muito), com cerca de 40% dos empregos gerados no país vindo deste setor. O que cria na ilha uma grande dependência, por outras vias, do turismo de cidadão de países ricos. Vale ressaltar também que o país é um território muito procurado (e que abriga) para sediar empresas offshore.


No primeiro discurso de Mason como a primeira presidenta, ela o fez ao lado do príncipe Charles. Um discurso pautado pela autonomia e afastamento do passado colonial, mas em tom conciliatório e de separação amigável.


Em termos simbólicos, Barbados se saiu bem. Resta acompanhar se a ilha caribenha conseguirá fortalecer sua política e sua economia, expandindo-a para além do turismo.

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