• Lays Vieira

“A situação está tensa e precisamos de camaradas”

Sede de arte

Potente e didático, o segundo livro da socióloga, professora e youtuber Sabrina Fernandes, foi lançado no final de 2020

Segundo livro esta disponível no site da editora Pensamento. Foto: Reprodução perfil da Sabrina


Muito provavelmente, se você é de alguma vertente da esquerda, ou minimamente progressista, já deve ter ouvido falar nesse nome: Sabrina Fernandes. Ela se tornou conhecida no YouTube e popularizou vários dos debates da esquerda, sem esvazia-los. Mas, o que talvez nem todos conheçam é o seu trabalho intelectual. "Sintomas Mórbidos", seu primeiro livro, é uma ótima e densa análise sobre crises conjunturais e a esquerda no Brasil.


Em seu segundo livro: "Se quiser mudar o mundo: um guia político para quem se importa", escrito durante a pandemia, visa ser um guia introdutório para ajudar na compreensão dos vários elementos políticos que atravessam a sociedade, tendo como horizonte último da obra apresentar o porquê do capitalismo ser um sistema falho, obsoleto e como ultrapassá-lo. O intuito é compreender a realidade para transforma-la.


Um dos pontos mais interessantes, e que falta em muitos autores por aí, é que Sabrina se posiciona. Ela tem um lado e não o esconde (algo essencial nos dias de hoje). Os conceitos e análises, que fornecem as ferramentas para o leitor, partem de explicações marxistas da realidade, usando uma didática que segue a lógica de degraus, mas evitando simplismos.


Sabrina acerta em cheio ao colocar como um dos principais pontos da sua proposta a importância de se observar a realidade, especialmente em um contexto onde estamos constantemente ocupados (trabalho, horas no transporte público, etc) e ao mesmo tempo bombardeados por uma imensa quantidade de informações (que nem sempre vai possuir sentido), isso justifica a importância de se desenvolver instrumentos próprios de compreensão do mundo.


Ou seja, desenvolver autonomia política. Mas, essa autonomia passa por etapas: observação, ato de questionar, crítica, diálogo, experimento e reflexão continua. Elas também precisam se costurar entre si, dando origem ao que chamamos de práxis.


Outro ponto positivo da obra são os constantes exemplos, o que facilita o entendimento, como quando ela fala de desigualdade, exclusões e a necessidade de se normalizar a radicalidade, trazendo o exemplo da “teoria da ferradura” (onde ela também aproveita para explicar as diferenças entre esquerda e direita e os diferentes projetos dentro do socialismo).


Aqui a observação é um ponto de partida, complementada com uma lente de interpretação que qualifica os conceitos, nesse caso, e de forma bem honesta, ela propõe a lente do materialismo histórico dialético. Isso acontece, por exemplo, quando ela define o que é ser radical e defender uma transformação radical da realidade, uma saída que não seja rápida, barata ou superficial, mas que sim, vai na raiz do problema, usando como exemplo a criminalidade e a violência.


Resolver esses graves e sistêmicos problemas não é fácil, algo que a autora também se propõe a mostrar. Porém, uma saída é observar as contradições presentes na nossa realidade - ação que faz parte do método de análise que a autora está propondo e defendendo -, inclusive contradições internas.


“Isso fica evidente naquele tipo de pergunta que anticapitalitas ouvem por aí: como é possível ser socialista vivendo em um país capitalista? Parece uma contradição, não? Pois aí está a questão-chave. Ser socialista num país capitalista só é uma contradição enquanto o país não se torna socialista; [...] Outro exemplo seria viver em uma grande cidade cheia de poluição da indústria e do transporte ao mesmo tempo que se deseja um planejamento urbano mais sustentável. O exercício de observação indica que a escolha de deixar de viver em sociedade não muda a sociedade e que qualquer luta de transformação social terá que considerar viver com o que se quer transformar. O que fará da decisão algo realmente transformador é aprender a identificar a raiz do problema e agir contra tal”, explica Sabrina entre as páginas 23 e 24 do livro.


Não há como fugir individualmente da contradição formal e simbólica de ser contra a ordem vigente. Uma ordem onde as relações sociais são ditadas pelo capitalismo e sua fome de acumulação, com uma ideologia dominante que gira entorno do consumo, de uma noção em que qualidade de vida está mais ligada a quantidade de coisas que alguém deve ter do que na qualidade do tempo que se passa com amigos ou familiares, o acesso pleno a saúde, a educação, etc.


A autora também é bastante honesta e realista ao desmistificar essa falsa noção de que uma transformação radical (uma transformação e implementação do socialismo, por exemplo) acabaria com todo e qualquer problema daquela dada sociedade. Não. “Queremos transformar as coisas e, depois, teremos outras coisas a modificar. Não vivemos o fim da história hoje, tão pouco a história acabará se tivermos sucesso na empreitada. Depois de uma vitória, a vida segue, e novos desafios também”, afirma na página 28.


Outra desmistificação importante é sobre o comum “nem esquerda nem direita” e sim um meio-termo, um diálogo. Mas, entre fascismo e antifascismo, existe um meio termo, um em cima do muro? Meio fascista?? Dialogo é bom e é bem-vindo, mas ele não deve ser entendido como meio-termo entre o aceitável e o inaceitável. O objetivo do diálogo, como a autora mostra, é criar um sentido comum que leve a uma direção a partir do confronto das ideias e dos fatos.


"Se quiser mudar o mundo: um guia político para quem se importa", no contexto atual, de desgoverno bolsonarista e ampliação da extrema-direita pelo mundo, é uma leitura essencial, tanto pela potência política como pela esperança que perpassa suas páginas. O caminho é difícil, isso fica bem claro, mas existem possibilidades e saídas.


Serviço


Livro: "Se quiser mudar o mundo: um guia político para quem se importa"

Autora: Sabrina Fernandes

Preço: R$ 30,00 (em média)

Editora: Planeta

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