• Lays Vieira

“A vida não é suficiente, você precisa ir além”

Mostra de Tiradentes

Terceiro dia da 24ª Mostra de Tiradentes tem como destaque o cinema de gênero; crítico diz que se sente encantado com as possibilidades de mexer com o público



Segundo Kleber Mendonça Filho, em editorial para a revista Filme Cultura nº 61, os gêneros, estão habitualmente associados à ideia de consumo massivo e tiveram na chanchada, nos filmes de cangaço e mais recentemente no favela movie florações capazes de ser identificadas como nacionais. Mas, os gêneros clássicos, à exceção da comédia, raramente se estabeleceram no País e o “cinema nacional” ainda se constitui como uma espécie de gênero em si.


Assim, o que hoje se convencionou chamar de cinema de gênero abarca basicamente um termo para se referir aos filmes de fantasia, ficção-científica ou horror. E foi justamente esse o tema central da roda de conversa da tarde do terceiro dia em Tiradentes. Intitulada “A poética do cinema de gênero”, o bate-papo buscou abordar a importância de se exercitar, se produzir, cinema de gênero no cinema contemporâneo brasileiro.


Mediada pelo crítico de cinema mineiro Marcelo Miranda, a mesa contou com a presença dos diretores Armando Fonseca ("Skull: a Máscara de Anhangá"), Kapel Furman ("Skull: a Máscara de Anhangá"), Marco Arruda ("Magnética"), Otto Cabral ("Animais na pista") e Rodrigo Aragão ("O cemitério das almas perdidas").


De forma descontraída, e em constante dialogo com o público via chat do YouTube, o debate foi aberto com uma contextualização histórica dos vários gêneros, sua força e importância no Brasil e a trajetória de diretores, destacadamente de fantasia e terror, com destaque para as produções do grande José Mojica Marins.


Segundo Rodrigo Aragão esse nicho cresceu bastante nos últimos dez anos, passando de um cenário de três para trinta e sete filmes por ano, além de um cenário nacional rico em estilos. Especialista em efeitos especiais, ele destacou que “me encanta extrapolar a realidade” com o cinema de gênero, a possibilidade de mexer com as emoções do público. Outro destaque de suas falas foi a importância de não ficar preso a festivais de nicho, daí a importância de Tiradentes para o cinema de gênero e a abertura que ele proporciona.


Kapel Furman complementa apontando a possibilidade e importância de se conhecer novos olhares em festivais que não são de gênero. Sobre a área, ele afirma que “demora para acontecer, mas está acontecendo” e que a grande importância de produções independentes, além da autonomia, é a criatividade porque permite imprimir uma identidade própria e nacional.


Entretanto, há imensos desafios em torno dessas produções. Algumas das questões levantadas foram: como continuar fazendo filmes que não são comerciais (já que no contexto brasileiro a comédia nacional é o grande carro chefe enquanto o terror e a fantasia é visto como um nicho não comercial, “cult”, etc)? Quais os estímulos?


De acordo com Armando Fonseca a “popularizar as tecnologias ajudou a inflar os gêneros”, chamando a atenção do público. Entretanto, ainda é muito difundido a ideia de que apenas com a chancela de fora (exterior, festivais de fora, etc) se valoriza a arte daqui. “Aqui tem muita gente que faz coisa boa, tem muita história para contar”.


E mais: como colocado por Marco Arruda, o cinema de gênero faz parte da nossa formação desde criança e seus elementos estéticos mexem diretamente com as nossas sensações. Para ele, que caiu de paraquedas no cinema de gênero com seu curta "Magnética" (curta incrível, um dos melhores curtas sobre invasão, dominação, que essa jornalista assistiu nos últimos tempos), isso é o que de mais importante o cinema de gênero proporciona.


Outro iniciante acidental na área é "Otto Cabral" (diretor de Animais na pista, um curta forte, intenso, onde o narrador é o destaque e traz uma forte reflexão sobre nós enquanto humanidade), “a roupa que coube para contar a história foi essa”. Essa “entrada não intencional” no cinema de gênero acaba sendo muito comum com diretores que são colocados dentro dessa classificação. A intenção em si não é o ponto fulcral, o que conta mesmo, segundo Marcelo Miranda, é como o público lê. “O ato da recepção impõe muito mais o gênero”.


Constante no debate foi de onde buscar inspiração para esse tipo de produção. Além de outros filmes, quadrinhos e contos, o cinema de gênero bebe muito de sensações, da violência e da subjetividade, personagens e cenários que se proponham a ser mais parecidos com a nossa realidade e não com as produções de fora. “O terror é muito um paralelo com o mundo real, fazer o espectador perceber problemas reais”, afirma Armando Fonseca.


“Eu não pensava em fazer cinema de gênero, eu faço filme como eu vejo o mundo”, complementa Kapel Furman. E, assim como a arte no geral, “depois que você coloca para o público, a obra não é mais sua”. O cinema de gênero não é um molde ou uma prisão com códigos específicos, ele é um guia. Transforma-se o conteúdo e não o meio, pode-se trabalhar de várias formas.


Como não poderia ser deixado de lado na discussão: o cenário político atual e a implicações catastróficas para a cultura brasileira. Segundo Rodrigo Aragão a grande maioria das produções são inviáveis nesse cenário, todos os setores do cinema estão em risco, “mas, não dá para parar”, é preciso se virar com o que tem. Kapel Furman destaca que o cinema não é só arte, ele é também produto e ele precisa rodar por ai, o cinema precisa de uma estrutura financeira porque envolve muita gente. Porém, hoje não há dinheiro, e não só pelo cenário político. Para o diretor o público que busca um consumo predatório, a estrutura que o público vem estabelecendo para consumir, também vem prejudicando o cinema, especialmente o cinema independente.


Durante a tarde também aconteceram mostras de curtas e sessão de longas com destaque para Mostra Aurora, que aconteceu às 20h com o filme Açucena, de Isac Donato. E encerrando o dia, um lindo show de Chico César.

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