• Marcus Vinícius Beck

Adeus ao poeta que desafiou o capitalismo do Tio Sam

Obituário

Lawrence Ferlinghetti moldou contracultura norte-americana ao publicar obra taxada como obscena de Allen Ginsberg, razão pela qual passara alguns dias no xadrez


Ferlinghetti em frente à lendária City Lights Bookstore - Foto: Clay Mclachlan/ AP/ Reprodução



O poeta e editor Lawrence Ferlinghetti, responsável por publicar Allen Ginsberg e marcar a história da literatura contracultural da costa oeste dos Estados Unidos, morreu na última segunda-feira (22) em decorrência de problemas pulmonares. A informação foi divulgada pelo documentarista e amigo do escritor, Starr Sutherland, que está trabalhando num documentário sobre City Lights Bookstore, lendária livraria de São Francisco e templo da Geração Beat. Ferlinghetti tinha 101 anos e em março completaria 102.


Alto, esguio, barbudo e bonito, Ferlinghetti não era conhecido pelas bebedeiras públicas homéricas, como Jack Kerouac, ou pelo delírio nudista libertário de Allen Ginsberg, muito menos por conta do estilo de vida doidão de William Burroughs. Ele nadava todos os dias e se locomovia para trabalhar na City Lights de bicicleta. Era um dos sobreviventes: Kerouac morreu aos 47 anos, de cirrose, e Ginsberg e Burroughs em 1997, aos 70 e 83, respectivamente.


Um dos nomes que mais afrontaram o establishment político norte-americano no período do macartismo, Lawrence Ferlinghetti representa os tempos de uma Califórnia que ousou apresentar ao mundo uma opção de literatura até então menosprezada pelo draconiano e bizarro sistema judicial dos Estados Unidos, o mesmo que censurara Henry Miller anos antes. Ferlinghetti é um dos símbolos da contracultura e tudo o que veio a reboque: literatura beat, luta pelos direitos civis, movimento hippie, rock de protesto, veganismo, New e Gonzo Journalism.


Em 1957, a City Lights editou “Uivo”, libertária obra de Allen Ginsberg que se rebelava contra os valores mais importantes para os Estados Unidos, como o capitalismo e a violência como pilares da "democracia". Ferlinghetti chegou a ser preso por tê-la publicada, em um caso jurídico que se espalhou pelos EUA e se tornou referência na discussão sobre liberdade artística e expressão. O poeta foi solto a partir de uma decisão que citava a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos e livros como “Trópico de Câncer”, proibidos de circularem, puderam sair da mordaça.


O movimento beatnik, pilar da contracultura dos anos 1960, surgiu de uma definição criada por Jack Kerouac durante uma entrevista a um programa de televisão qualquer. Obras como “On The Road”, de Kerouac, “Almoço Nu”, de Burroughs, e “Uivo”, de Ginsberg, espalharam um estilo de vida livre, sem apego a bens materiais e em constante efervescência criativa. Entre seus fãs, estão o jornalista gonzo Hunter S. Thompson e o cantor Bob Dylan - não por acaso duas das personalidades que mais conseguiram captar as transformações sessentistas.


Mas Ferlinghetti também era um poeta respeitável e ficou conhecido por “A Coney Island Of The Mind”, coleção de poemas com a qual vendeu 1 milhão de exemplares nos EUA desde que a lançou pela primeira vez, em 1958. “Lawrence inspirou provavelmente centenas de milhares de pessoas a ler poesia. Leram sua poesia primeiro e depois passaram a ler mais poesia”, disse o poeta Michael McClure, que chamava Ferlinghetti de mestre, ao jornal San Francisco Chronicle, em 2003.



Foto 1: Ferlinghetti com Borroughs/ Foto 2: Poeta escorado na City Lights/ Foto 3: Ferlinghetti e Allen Ginsberg em Londres



Revelou ainda, em 1988, seu talento para a prosa em “O Amor Nos Tempos de Fúria”, romance emocionante e bonito em fluxo de consciência lançado no Brasil pela L&PM - você pode comprá-lo no site da editora. O enredo é ambientado em 1968, na cidade de Paris, em meio ao calor da insurreição dos estudantes da Sorbonne Université que ocuparam as ruas com protestos, discursos e pichações. Uma pintora idealista, Annie, e um cético banqueiro que se diz anarquista de coração, Julien, protagonizam a obra, com a paixão complicada deles no centro da trama.


Nascido em 1919, o avô dos beats – filho de um imigrante italiano e uma mãe de origem caribenha – teve sua trajetória marcada por desastres familiares: quando tinha cinco meses de vida, seu pai morreu em decorrência de um ataque cardíaco. Sem grana, a mãe lhe entregou a irmã que, também sofrendo de problemas financeiros e sem condições de criá-lo, perdeu a guarda do garoto. Depois, já empregada na casa de gente endinheirada, a tia o resgatou, mas em pouco tempo acabou sendo demitida do trabalho. O jovem, contudo, permaneceu lá.


Formado em jornalismo, com mestrado em literatura pela Universidade de Columbia e doutorado na Sorbonne, Ferlinghetti frequentou a Redação da revista Time nos anos 1940. Na Segunda Guerra, foi intimado a comandar um submarino no Dia-D e, em seguida, esteve na batalha do Pacífico. Assim que findou a guerra, se estabeleceu em San Francisco, onde fez amizades com artistas e poetas, como Kenneth Rezroth, Robert Duncan e Gary Snyder, e foi fundamental para a poesia americana e, mais do que isso, desafiou o capitalismo predatório do Tio Sam.


Em 2018, para comemorar seu centenário que no ano seguinte, Lawrence Ferlinghetti lançou um romance autobiográfico, em fluxo de consciência, sem ponto, subvertendo radicalmente a linguagem e gramática, no qual conta sua trajetória e faz análises sobre a política americana das últimas décadas - tudo aparentemente sem sentido. "Little Boy" ainda não tem data prevista para ser publicado no Brasil. Uma pena que tenhamos de esperar o livro chegar aqui.


Com a partida de Ferlinghetti, enfraquece o sonho de um mundo no qual a liberdade sexual, de embriaguez e de criatividade não mais espantem mentes que insistem em viver no período da inquisição e reinem supremamente na sociedade. Mas fica o legado do mestre, e isso definitivamente não é pouco: é digno de alguém que dedicou a vida a discutir e combater os problemas do mundo a partir da circulação de ideias. Obrigado por tudo, Lawrence Ferlinghetti!




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