Afrofuturismo: cosmologia africana, afrocentricidade e o protagonismo negro

November 6, 2019

Afrofuturismo 

Brasil conta com autores na vanguarda do movimento

 

Foto do cantor Sun Ra - álbum Space is the Place (1974)

 

Quando olhamos para um filme como Pantera Negra, vemos uma sociedade africana que não sofreu com a colonização europeia ou com a escravidão pelas mãos do homem branco. Que se desenvolvendo tecnologicamente, mas sem perder suas raízes com sua cultura ou religião, o que pode ser visto na arquitetura do país, suas roupas, forma de governar e como a tecnologia é usada. Também vemos isso nos nomes, os personagens  se chamam T’Challa (Chadwick Boseman), Shuri (Letitia Wright) e Nakia (Lupita Nyong’o), não Steve, Tony ou Bruce. O protagonismo dentro e fora do filme é negro, da direção feita pelo Ryan Coogler aos figurinos e música. Isso é afrofuturismo

 

Ao conversar com Fábio Kabral, autor dos livros Ritos de Passagem; O Caçador Cibernético da Rua 13 e o mais recente a Cientista Guerreira do Facão Furioso, ele diz que o movimento se trata sobre buscar recriar o passado, transformar o presente e projetar um novo futuro de acordo com a própria ótica. Essa definição cunhada por ele acabou aparecendo mais tarde no livro “Na minha pele”, do ator afro-brasileiro Lázaro Ramos. “As pessoas costumam definir o afrofuturismo também como mescla entre tradições africanas e com técnologia, e eu não gosto absolutamente dessa definição” Aponta. Para ele essa é uma definição reducionista e eurocêntrica que atribui o advento da tecnologia ao contexto europeu, relegando a África apenas a criadora de tradições e lendas antigas “A definição mais concreta que eu gosto mais de falar é que afrofuturismo é o resgate desse passado africano de ciência, tecnologia, filosofia e arte” informa. 

 

Fábio Kabral e Carolina Desireé - Foto Bruno Talpo

 

Ele diz que essa definição vem por conta do trabalho do cientista senegalês Cheikh Anta Diop, que comprovou usando as leis da ciência ocidental que tudo que nós conhecemos hoje por arte, filosofia, literatura e civilização surgiu primeiro no vale do Nilo, criado por negros africanos. “Eu acho que o afrofuturismo tem esse papel essencial no resgate de não apenas das tradições, e sim também desse passado africano de ciência e tecnologia” conclui Fábio. 

 

O termo foi utilizado pela primeira vez, ironicamente, por um homem branco. Foi pelo teórico e crítico cultural Mark Dery, em seu ensaio Black to the future (1994). Nele, ele data o nascimento do movimento que chamou de afrofuturista entre os anos 1960 e 1970, pelas mãos do jazzista, poeta e “filósofo cósmico” Sun Ra, que se dizia ser um alienígena do planeta Saturno em uma missão de pregar a paz e pelas histórias da autora de ficção científica Octavia Butler, que foi a primeira mulher negra a ganhar notoriedade no gênero. 

 

Fábio Kabral é no Brasil o especialista quando se trata no assunto, e com a Carolina Desireé, que é produtora da Rede Afrofuturismo Brasil e filósofa, conseguiram determinar quatro características fundamentais para uma narrativa ser considerada afrofuturista. São elas: Protagonismos de negros e negras; Narrativa negra de ficção especulativa (ficção ciêntifica e fantasia); Afrocentricidade, ou seja, a centralidade da agência africana e protagonismo de autores negros e negras. 

 

Em todas as definições sobre afrofuturismo, pode-se perceber o quão enfático é a necessidade do protagonismo de personagens e autores afrodescendentes. Exatamente por ele existir para suprir uma ausência desses corpos nesses espaços. Seja na música, artes, moda, cinema ou literatura. Porém, o movimento vem ganhando força com novos artistas, e no Brasil temos uma vanguarda que está trabalhando para que isso seja possível. Dentre eles estão o próprio Fábio Kabral, mas na literatura temos outros nomes como o da escritora Lu Ain-Zaila, autora da Duologia Brasil 2408: (In)Verdade e (R)Evolução, que conta a história da heroína negra Ena, que luta contra a corrupção no Brasil do século 25 e Sankofia: Breves histórias afrofuturistas. Formada em pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 2015 frequentou a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, e percebeu que não haviam livros qual ela podia se identificar, foi aí que começou a escrever. 

 

A perspectiva é positiva sobre o que ainda pode vir do movimento, e para Carolina, estamos apenas no começo “Uma coisa que a gente sempre fala nas oficinas é que o afrofuturismo é um movimento em movimento. A gente não sabe direito de onde ele surge e para onde ele vai, só sabemos que ele está caminhando.” Aponta. Ela diz que estão todos convidados a fazer parte dessa empreitada e começarem a produzir conteúdo afrofuturista. 

 

“Quando eu falo produções significa arte, músicas, filmes, imagens. Porque quanto maior o número de produções mais fácil fica a definição. Não dá para ficar com vários críticos sobre um movimento que ainda não se tem as produções. Acho que é um convite sim e tem que estar aberto para mais pessoas fazerem, para que só assim possamos saber para onde vai e o que vai ser desse movimento” conclui Carolina.

 

O afrofuturismo já é um movimento antigo, mas que foi descoberto pelos brasileiros somente a pouco tempo. É um resgate da cultura e ancestralidade africana. Faço um convite a você leitor a conhecer algumas dessas obras e descobrir um pouco desse mundo!

 

Livro: A Cientista Guerreira do Facão Furioso

 

 

Sinopse: Aqui é Ketu Três, lar do povo melaninado, filhos dos Orixás; a metrópole governada por sacerdotisas-empresárias e tecnologias fantásticas movidas a fantasmas. Jamila Olabamiji, filha de Ogum, só quer se tornar a maior engenheira de Ketu Três. Nada demais. Porém, é difícil manter o foco quando se tem de lidar com um pai ocupado em três empregos, uma namorada patricinha e encrenqueira, e um valentão da escola que a atormenta sempre. 

 

 

 

 

 

 

 

 

Música: Sun Ra - Lanquidity

 

 

Nesse álbum, Sun Ra leva seus ouvintes para além das galáxias com seu jazz, é um dos melhores trabalhos do autor e uma porta de entrada para o seu o miniverso afrofuturista. 

 

Filme: NEGRUM3

 

 

Sinopse: Entre melanina e planetas longínquos, NEGRUM3 propõe um mergulho na caminhada de jovens negros da cidade de São Paulo. Um ensaio sobre negritude, viadagem e aspirações espaciais dos filhos da diáspora.

 

 

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