• Marcus Vinícius Beck

Amanhã vai de ser outro dia

Memória

Para calar vozes contrárias, militares cercearam liberdade de expressão e obrigaram artistas a se utilizar da criatividade para driblar censura

‘Terra em Transe’, de Glauber Rocha, foi censurado pelos militares - Foto: Reprodução


Foi difícil pregar o olho naquela noite de 31 de março de 1964.


A jovem democracia era nocauteada por um golpe que destituiu o então presidente João Goulart, eleito em 1961. Tanques de guerra tomaram as ruas. Anunciou-se uma tempestade. Então o Comando dos Trabalhadores Intelectuais (CTI), encabeçado por nomes como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho, assinou um manifesto contra o regime que se instalava.


No auge de seu pulsar criativo, o cinema novo não demorou a sofrer os impactos drásticos do regime. Glauber, que brigava contra a censura desde o final dos anos 50, viu sua relação com as autoridades chegar ao limite assim que lançara o longa “Terra em Transe” (1967), sua obra-prima. Ovacionado em Cannes, no Brasil o filme estava proibido. A trama girava em torno da República de Eldorado, país fictício no qual um jornalista e poeta busca combater a miséria a que seu povo é submetido.


Dois anos depois, com “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, considerado uma continuação de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), a situação chegou ao extremo: a iminência de prisão se tornava cada vez mais real e o cineasta precisou ir para o exílio, pois estava impedido de tratar questões essenciais para seu cinema.


Com Rogério Sganzerla, a repressão veio por motivos sexuais. Sim, seu “Bandido da Luz Vermelha”, que inaugura o chamado cinema marginal, tinha cenas eróticas que sacudiram a caretice dos militares, numa história que girava em torno de um criminoso que dominava as páginas policiais dos jornais na década de 1960. Sganzerla debochou da polícia, e – cá para nós – isso não é o tipo de coisa facilmente tolerada por tiranos.


Até o circuito de festivais não escapou dos vetos fardados. Politizado e afrontoso, o Festival de Brasília foi impedido de ser realizado de 1972 a 1974, sob a justificativa de que nele rolavam discussões subversivas. Sem poder falar dos assuntos nacionais, o cinema resistiu pela pornochanchada, com nomes como Neville D´Almeida e Hugo Carvana. Apenas em “Pra Frente Brasil”, de Roberto Farias, a ditadura voltou ao centro das discussões, em uma história que mostrava influência dos empresários na tortura.


A mordaça estava posta, e todo mundo era alvo. Na música, sobraram as metáforas. Foi o que fizeram Chico Buarque e Gilberto Gil, com “Cálice”, cuja brincadeira fonética do título tem som semelhante à expressão “cale-se”. Chico era tão perseguido que chegou a adotar no início dos anos 1970 o pseudônimo Julinho de Adelaide, para ver se lhe deixavam em paz. E não é que o deixaram? Emplacou “Acorda, Amor”, óbvia referência ao uso da força pelos militares após o endurecimento do regime.


Além do autor de “Cálice”, nomes como Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Gilberto Gil e Odair José fazem parte da longa lista de compositores que tiveram suas músicas censuradas pela ditadura. O caso mais marcante foi a proibição de “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, que ficou na segunda colocação na fase nacional do Festival Internacional da Canção, em 1968, evento realizado na cidade do Rio de Janeiro: Vandré criou um hino de resistência, mas precisou ir para o exílio após o AI-5 endurecer o regime naquele mesmo ano.



Cronista da realidade brasileira, o goiano Odair José figura como um dos músicos que mais tiveram composições vetadas pela ditadura. Sem defender diretamente a resistência contra a ditadura ou endeusar ídolos da foice e do martelo, ele incomodou os fardados com “Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)” por causa do refrão: “pare de tomar a pílula, porque ela não deixa nosso filho crescer” se chocava com uma campanha de controle de natalidade que a patota do coturno fazia naquele momento.


Já os famosos versos de Chico, escritos durante os anos de chumbo da ditadura civil-militar, viraram mantra contra o autoritarismo. “Hoje você é quem manda/ Falou, tá falado/ Não tem discussão/ A minha gente hoje anda/ Falando de lado/ E olhando pro chão, viu/ Você que inventou esse estado/ E inventou de inventar/ Toda a escuridão/ Você que inventou o pecado/ Esqueceu-se de inventar/ O perdão”.


Chico gravou “Apesar de Você” no disco “Chico Buarque” (1978), quando o país sonhava com a abertura política após 21 anos mergulhado num regime que censurou, perseguiu e calou vozes contrárias às ideias do regime. A letra sintetiza a esperança do momento em que os propósitos obscuros da ditadura - instalada a partir de um golpe que começara em 31 de março e se consolidara no dia 1° de abril de 1964 - se tornassem uma página em nossa história que a consultaríamos com o intuito de jamais repeti-la.


A mordaça fardada atingiu também a produção literária. Escritores, hoje consagrados, foram alvo da censura e tiveram suas obras proibidas de circularem, instituindo uma espécie de index, o famoso índice de livros proibidos pela Igreja Católica na Idade Média. Entre os nomes amordaçados, segundo estudo da pesquisadora Sandra Reimão, da Universidade de São Paulo (USP), estavam pessoas do calibre de Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Millôr Fernandes, Ignácio Loyola Brandão e Moacyr Scliar.


Para além dos casos de batidas policiais na casa de escritores e jornalistas, houve ainda a proibição de clássicos como “Trópico de Câncer” ou “A Trilogia Encarnada”, ambos escritos por Henry Miller. É perfeitamente compreensível as razões que levaram a isso – pela lógica dos militares, é claro: Miller trata da liberdade sexual, disseca a hora dos assassinos e mergulha numa existência desprovida de delírios autoritários.


No teatro, Dias Gomes, Flávio Rangel, Bertold Brecht, William Shakespeare, José Celso Martinez Corrêa e Maria Adelaide Amaral... O caso mais emblemático, porém, é a invasão e agressão aos atores da peça “Roda Viva”, pelos integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), em uma das passagens mais tristes de nossa história cultural - o episódio é documentado em “1968 - O Ano Que Nunca Acabou”.


Foi difícil sobreviver no Brasil de 1964 a 1985.


Saiba mais:

1968 – O Ano Que Nunca Acabou

Escrito pelo jornalista Zuenir Ventura, “1968” mostra como o fatídico ano foi uma época em que jovens do mundo todo lideraram protestos e descobriram formas de luta. Neste livro, os autores abordam os acontecimentos do período que consideram principais, no Brasil e no mundo.


O Ato e o Fato

É sabido o papel de Carlos Heitor Cony nos dias atormentados que o país viveu e continua a viver. Muitos e variados riscos foram enfrentados, para que lhe fosse possível comportar-se como homem e como escritor. Cony honrou os dois títulos. A crônica final e a carta que se segue mostram o preço que lhe custou esse comportamento e são ainda um retrato da realidade brasileira. Um retrato triste.


Terra em Transe

Considerada uma das principais obras do período, “Terra em Transe” é o filme em que Glauber Rocha (1939-1981) aprofunda o estudo da situação nacional. Põe em cena amplo leque de personagens: militantes, militares, intelectuais, políticos e empresários, todos envolvidos na disputa do poder. Cria a fictícia Eldorado, numa conjuntura pré-revolucionária com reação golpista de um movimento de direita.


Pra Frente Brasil

Após ser confundido com um ativista político, um pacato cidadão da classe média é preso e torturado por agentes federais durante a euforia do milagre econômico brasileiro e da Copa do Mundo de 1970.

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