Ancine na igreja: por indicação, pastor assume diretoria da agência

October 29, 2019

Cinema

 

Declaradamente evangélico e ativista de Bolsonaro, Edilásio Barra tem passado por diferentes cargos do atual governo federal

Foto: Reprodução extraída de OGlobo

 

O Diário Oficial da União (DOU) publicou, no dia 23 de outubro, a nomeação do pastor Edilásio Barra, conhecido como Tutuca, para o cargo de superintendente de desenvolvimento econômico da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Na função, irá chefiar o departamento responsável pelos editais que recebem financiamento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). 

 

O FSA é a principal fonte de financiamento público para o setor e um dos estímulos fundamentais para a indústria cinematográfica, audiovisual e cultural do país. Em 2018, o fundo movimentou cerca de R$ 800 milhões. Para este ano, o órgão possui um orçamento de R$724 milhões, que segue travado devido à indefinição do Comitê Gestor. Até o momento, segundo informações da assessoria da Ancine à Folha de São Paulo, o número chega a quase R$ 396 milhões movimentados.  

 

A função para a qual Tutuca foi nomeado desempenha papel salutar na concretização de objetivos e projetos da Ancine. É responsável por estimular a diversificação da produção para o cinema e para a TV, pelo fortalecimento da produção independente e das produções regionais, deve buscar o aumento da competitividade da indústria, promover sustentabilidade setorial e articulação dos elos da cadeia produtiva. Além disso, algumas das atribuições da função são: elaboração de estudos e metas para as políticas do setor, formulação de programas de fomento para o audiovisual no país e operação das chamadas públicas do Fundo Setorial. 

 

Declaradamente evangélico, aliado ao deputado federal Éder Mauro (PSD-PA) e ativista do presidente Jair Bolsonaro (PSL), Edilásio ocupava a função de diretor do Departamento de Políticas Audiovisuais da Secretaria Especial de Cultura do Ministério da Cidadania e, desde o início do ano, tem passado por diferentes cargos na área de cultura do governo federal. A partir de agora, ele substitui a especialista em Regulamentação Cinematográfica e Audiovisual e doutora em Letras, Angélica Coutinho, que ocupava a cadeira anteriormente. 

 

Segundo o ator Olivetti Herrera, de 50 anos, que já atuou em emissoras como Rede Globo e SBT, a Ancine deveria ser comandada por pessoas que realmente entendam da área e ajudem a fomentar a diversidade cultural no país. “Talvez esteja sendo indicada uma pessoa que não entenda da área. É apenas uma colocação para gerar mais censura neste país, para a gente deixar de desenvolver um belo trabalho como ator, como diretor, como cineasta”, expressa o artista.

 

Bolsonaro e os evangélicos

 

Em agosto, Bolsonaro anunciou que a Ancine deveria ser gerida por um evangélico que conseguisse “recitar de cor 200 versículos bíblicos, que tivesse os joelhos machucados de tanto ajoelhar e que andasse com a Bíblia debaixo do braço”. Eleito com a promessa de fazer, apenas, nomeações técnicas, Jair Bolsonaro, quase no fim do primeiro ano de mandato, tem feito o contrário. Atualmente, vários ministérios e órgãos contam com representantes mais à linha ideológica do governo, do que com aparato técnico. 

 

Foto: André Coelho/Folhapress

 

Entre os principais evangélicos do alto escalão governamental, estão a pastora pentecostal Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos (MDH); o luterano Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil; o membro da Igreja Maranata Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo; o pastor presbiteriano André Luiz Mendonça, ministro da Advocacia Geral da União (AGU); e o general batista Luiz Eduardo Ramos, que é ministro-chefe da Secretaria de Governo. 

 

Além disso, o governo Bolsonaro conta com o apoio dos principais líderes evangélicos do país, como Edir Macedo (Universal), Silas Malafaia (Assembleia de Deus) e Valdemiro Santiago (Mundial), que são responsáveis por mover multidões em apoio aos seus discursos. Também há o suporte de parlamentares da chamada “Bancada da Bíblia”, que são pastores ou membros de doutrinas evangélicas, como Marcos Feliciano (Pode-SP), Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), João Campos (PRB-GO) e Paulo Freire (PR-SP). 

 

Para o pastor da comunidade de fé Capela Urbana, Gito Wendel, de 34 anos, não há problemas com a indicação de um líder religioso para ocupar uma cadeira de cultura e o título não o desqualifica, pois o Estado é laico. “A pergunta é: apesar de pastor, o que o qualifica para o cargo na Ancine? O que há em seu currículo? Sua indicação tem relação com a sua bandeira ideológica, conservadora, de apoio a Bolsonaro e de aliança ao governo: motivos pelos quais o escolheram. Isto deve ser criticado, especialmente em um governo que foi eleito com o discurso de que o preenchimento dos cargos seria por critério técnico”, expressa Gito.

 

Para o representante da Capela Urbana, o nomeado pode sim ser religioso, no entanto deve ser priorizado que o Estado não deve seguir as mesmas doutrinas. “Não estamos em um Estado religioso, nem ateu, somos ainda um Estado laico. No entanto, este governo não é laico. Estamos sendo conduzidos pelo governo do “Deus acima de todos”, cristão, conservador, que venceu as eleições com um discurso moral e indica pessoas ideologicamente enquadradas. Para este governo, parece que não importa muito o currículo, antes, importa sua fidelização à direita conservadora”, expressa Gito.

 

Para Gito, o problema não está em ser evangélico, mas sim em ser ideologicamente alinhado. Além disso, ele salienta que os evangélicos não compõem um grupo homogêneo, mas são vários grupos, que seguem diferentes doutrinas. “Há evangélicos que jamais seriam convidados por este governo, por não estarem alinhados ideologicamente. Parte dos evangélicos, de orientação conservadora, está sendo convidada a assumir cargos. Outros evangélicos já assumiram cargos em governos anteriores, a diferença agora está no conservadorismo requerido”, finaliza o pastor.  

 

Governo contra a cultura 

 

Em julho, com o objetivo de ter maior influência sobre o Conselho Superior de Cinema, Bolsonaro assinou a transferência do órgão, que é responsável pela política nacional de audiovisual, do Ministério da Cidadania para a Casa Civil. Em agosto, o presidente defendeu a transferência da Ancine devido suposto “ativismo” na produção de filmes, como ‘Bruna Surfistinha’ – interpretado por Deborah Secco, que conta a história de uma ex-garota de programa. 

 

Foto: Reprodução do filme Bruna Surfistinha

 

“Não posso admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. Não dá. Não somos contra essa ou aquela opção, mas o ativismo não podemos permitir em respeito às famílias, uma coisa que mudou com a chegada do governo”, disse o presidente em coletiva. 

 

No dia 15 de agosto, durante live periódica no Facebook, o presidente afirmou que impediu a captação financeira para filmes que abordam assuntos relacionados à diversidade sexual. Dentre as produções citadas durante o “garimpo”, Bolsonaro exemplificou as seguintes temáticas: ‘transgêneros do Ceará’, ‘negros homossexuais do Distrito Federal’ e ‘ex-freiras lésbicas’.

 

O ator Olivetti, que está em cartaz até novembro com a peça “À sombra de uma suspeita”, faz uma crítica ao atual cenário cultural do país, em decorrência política, que tem passado, inclusive, por casos de censura. “A cultura no país está caindo muito. Ator, diretor, roteirista, iluminador, câmera ou cineasta não são profissões de vagabundo como nosso presidente acha”, critica.  

 

Sobre Edilásio

 

Nascido em Belém (PA), em 1963, Edilásio Santana Barra Júnior é graduado em Jornalismo, turma de 1984, pela Faculdade Hélio Alonso e pós-graduado em Docência Universitária, pela Universidade Candido Mendes, do Rio de Janeiro. Possui experiência como apresentador do "Programa Vip", na Rede TV!, como diretor do programa "Rio de Prêmios", da TV Record, e do “Copa Super 7”, da Rede TV. Já trabalhou na Rede Bandeirantes, na CNT e atuou como figurante em novelas, como Roque Santeiro (1985/1986), da Rede Globo.

 

Foto: Reprodução extraída de Diário de Pernambuco

 

Também é empresário na área de eventos e, como pastor, ajudou a fundar em 2011 a Igreja Continental do Amor de Jesus. Foi candidato a vereador pelo PSD no Rio de Janeiro, em 2012, mas não foi eleito, recebendo apenas 714 votos. Desde 2014, tem manifestado apoio e produzido conteúdo pró-Bolsonaro. 

 

 

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