• Lee Aguiar

Aos olhares secretos

Doce Viagem

Seu Aluísio e seu rádio, com 30 anos de história, em mãos. Ele se encontra sentado na porta de sua casa, na Vila Jaraguá. Goiânia – 1 de abril de 2021. Foto: J.Lee


Às vezes eu me pego lembrando todas as vezes que escutei sua chegada em alguma música cafona que tocava no rádio. Despretensiosamente invento memórias, pois você sabe que não me lembro dos fatos tais como eu gostaria de ter nas paredes da subjetividade.


Tudo muda tão rápido, quiçá, por esse motivo minha nebulosa mente não consegue manter a cola que grava as imagens da realidade. Mas me lembro muito bem da primeira vez que encarei de frente seus olhos de jabuticaba, que repousei nas linhas turvas de teu peito aberto.


Me pego tatuando na memória os toques, beijos e carinhos de outrora. Tento registrar meus sentimentos nessas linhas tortas para lhe mostrar que talvez os fatos virem vestígio, mas continuarei eternamente me lembrando, nestas mesmas linhas, meu amor por você.


Rasgo meu coração em milhares de fragmentos só para lhe mostrar como amar em multiplicidade. Farei intensas serenatas para cantar ao pé de seu ouvido que amanhã vai ser outro dia, e que mesmo imersos no caos, estarei ali, com o peito aberto e os olhos marejados ao te ver sorrir.


Agora mesmo, nesse exato momento, me pergunto como descrever o mergulho que fazemos um-no-outro. Você com pés de árvore e eu, mar revolto. Ao transbordar em furiosas tempestades lhe avistei de longe, logo ali, em uma ilha semi ensolarada.


Pensei, repensei e questionei inúmeras vezes como eu poderia me mostrar menos, porém, entre as ondas que me levam percebi que você navega por minhas curvas com coragem de marinheiro calejado. Não sei por onde você andou e nem me interessa saber, apenas admiro sua bravura ao caminhar pela vida.


Perpassando os sustos de relance percebi que não poderia – ou conseguiria – me esconder de você. De alguma forma, qual ainda não compreendo, minhas vísceras ficam ao avesso quando você se aproxima.


Me emociono todas as vezes que observo o reflexo de sua alma gritar pelas entrelinhas castanhas de seu olhar profundo. Você tem um deserto vivo no marejar dos olhos, poeira cósmica e brasa fulminante se misturam em utopia misteriosa. Será que você tem medo ao me deixar entrar?


Mergulho. Adentro nos sorrisos e lambidas com curiosidade de criança, sinto seu calor pulsar entre meu peito como quem descobre o que é um sopro juvenil de felicidade. Não tenho medo.


Quero caminhar com você, seja lá para onde o destino nos levar.

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