• Lays Vieira

Apontamentos sobre as Olimpíadas de Tóquio

Esporte

Os jogos vêm trazendo debates importantes, mas, como em outras edições, também vem deixando de lado questões fundamentais para o esporte e os atletas

Fadinha do skate, Rayssa Leal, conquista medalha de prata. Foto: Ezra Shaw/Getty Images


O esporte sempre traz paixões e alegrias, algo necessário, especialmente durante o momento de caos em que nosso país passa. Muitas vezes o esporte é aparelhado politicamente, como na recente Copa América disputada no Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tentou se beneficiar com o evento e a pressão sobre comissões e jogadores para participar foi enorme. Felizmente, nossos Hermanos argentinos nos salvaram.


Eventos esportivos, e sua amplitude pública, também são ambientes potenciais para colocar em pauta debates necessários, mas que não se esgotam ali. Na semana passada, por exemplo, a seleção feminina de handebol de praia da Noruega foi multada em 1.500 euros sob acusação de “traje inadequado” por se recusarem a usar biquini, traje obrigatório para mulheres enquanto os atletas homens podem usar shots de até 10 cm. O ocorrido colocou em voga nas redes sociais um assunto a muito debatido e combatido por vários dos feminismos: a sexualização e objetificação dos corpos femininos, usados nesse contexto para atrair o público masculino e patrocinadores.


Agora é a vez das Olimpíadas de Tóquio, evento controverso e rejeitado pela maioria dos japoneses por conta da Covid-19, mas realizado de forma impositiva. Lá, a seleção feminina de ginástica artística da Alemanha, se apresentaram no último dia 22 de usando calças que cobrem as pernas até o tornozelo, como forma de contestação frente aos tradicionais collants que deixam a maior parte dos corpos expostos.


O debate racial, necessário nesse ambiente ainda tão carregado de preconceitos e recortes sociais também vem sendo colocado. A Soul Cap, touca de natação para cabelo afro, voltou a ser discutida, essas toucas foram proibidas nas Olimpíadas pela Federação Internacional de Natação por ter dimensões maiores do que as estabelecidas em regulamento. Mas, o que está na base dessa questão é a diversidade em esportes aquáticos (e outros, que inclusive carregam consigo fortes recortes de classe, como o hipismo) e a inclusão para tornar os atletas negras e negros mais visíveis.


Destacou-se também nesses primeiros dias de jogos, o número de atletas declaradamente LGBTQIA+. O triplo dos últimos jogos. Lembrando aqui que estamos falando de “atletas declaradamente”, porque sempre houve atletas LGBTQIA+, porém não declarados por receio de perda de patrocínio, opressões, etc., a exemplo da ginastica olímpica brasileira.


Pelo menos 160 atletas assumidamente da comunidade estão nessa edição, tornando as Olimpíadas de Tóquio a maior diversidade na história dos jogos. Dentro desse grupo, destaca-se nas redes socais brasileiras, o jogador de vôlei Douglas Souza, que virou um fenômeno com suas postagens bem-humoradas e sem medo de levantar a bandeira.


Outro destaque é a neozelandesa Laurel Hubbard, do levantamento de peso. A primeira atleta trans nos jogos. Inclusive, e debate sobre pessoas trans no esporte ainda é muito precário no Brasil, com pouca ou nenhuma base real sobre o avançado debate referente a gênero, se resumindo a um excludente e ultrapassado discurso biologista.


Vale, e muito, destacar também o bom desempenho do skate brasileiro, um esporte muitas vezes visto com preconceito e marginalizado. Ele está pela primeira vez nos jogos e o Brasil foi destaque com Rayssa Leal, a Fadinha. Com apenas 13 anos, a maranhense (inclusive, vinda de uma região que faz parte da Amazônia Legal) já levou a prata no skate street e também virou uma sensação nas redes sociais neste fim de semana.


Por último, gostaria de levantar um debate trazendo o caso da skatista francesa Charlotte Hym, que também ganhou destaque nas mídias por ser doutora em Neurociência cognitiva. A questão aqui não é o contexto francês, mas o Brasileiro. É muito legal a gente torcer, fazer bombar nas redes, ficar feliz e etc. com os esportes e nossos atletas, mas também seria bom se atentar as condições desses atletas.


O Brasil tem um déficit brutal de financiamento e apoio ao esporte como um todo. Alguns ganham mais destaque pela visibilidade e lucratividade, outros ficam jogados “a sua própria sorte” e esforço de atletas e comissões, como no caso do rugby (que agora também é esporte olímpico). Situação ainda mais complicada para o paratleta. O programa Bolsa Atleta, do governo federal, por exemplo, apesar de importante, é insuficiente para suprir todas as necessidades.


Em vários dos esportes que temos acompanhado pelas telas, bons resultados advêm muito mais de um esforço surreal e paixão do que apoio por parte do governo federal, especialmente no contexto austero bolsonarista. É bacana e importante dar destaque aos jogos e atletas, mas se o desejo é beneficiar esses nossos representantes esportivos, temos que também destacar a necessidade e as falhar do apoio financeiro público e dos patrocínios impositivos.



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