• Marcus Vinícius Beck

As memórias de Gabeira

Cinema

Em mostra que comemora os 80 anos do jornalista Fernando Gabeira, Canal Brasil exibe filme indicado ao Oscar em 1998, e que não foi poupado das críticas ao ser lançado

Da esquerda à direita: Luiz Fernando Guimarães, Pedro Cardoso e Fernanda Torres em ‘O Que É Isso Companheiro’ - Foto: Reprodução



“O Que É Isso Companheiro”, livro sobre as memórias do jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira durante a luta armada, originou o filme de mesmo nome dirigido pelo cineasta Bruno Barreto. Gabeira contou minuto a minuto, com riqueza descritiva e emoção, a escolha de abandonar uma promissora carreira jornalística na aventura de ingressar numa militância por um mundo mais justo e igual para todos.


O jornalista jogou tudo para cima e correu atrás do sonho que acabou por se mostrar frustrado desde o começo. No entanto, o que é a vida senão a necessidade de se sentir vivo? De saber que você está fazendo alguma coisa grande e importante? Numa das cenas mais marcantes da obra, o leitor vê o tiro que Gabeira levara ao tentar fugir dos agentes da repressão: é uma barbárie cuja página ainda não foi virada.


“O Que É Isso Companheiro”, o filme, representou o Brasil no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1998, mas isso não foi suficiente para que o longa escapasse da fúria dos críticos: foi taxado de reacionário, de humanizar torturadores, de distorcer fatos históricos, como quando Renée/ Vera (Cláudia Abreu) passa a noite com o chefe de segurança da embaixada americana para obter informações sobre o embaixador.


“Não estava no nosso universo o uso da sexualidade como mercadoria”, disse Vera Sílvia Magalhães, a própria, ao jornal Folha de S. Paulo em 1997. De fato, essas adulterações no curso da História podem ser interpretadas como um desserviço, porém é inegável o papel que “O Que É Isso Companheiro” teve para o retorno do cinema nacional após o estrangulamento financeiro imposto pelo governo de Fernando Collor.


Então era preciso olhar para o que tinha acontecido naqueles anos de chumbo: é curioso notar que, embora a história de “O Que É Isso Companheiro” seja bem conduzida, evitando armadilhas comuns ao se adaptar para a telona um livro, não se trata de um filme excessivamente político, tampouco exageradamente fiel ao texto de Gabeira. Daí as críticas que pipocaram assim que a obra chegara aos cinemas.


Mas, como eu falei, há aspectos que merecem ser reconhecidos como assertivos na fita: o esforço de reconstituir uma ação utópica da esquerda, a de sequestrar o embaixador americano, sem dúvida é o que alçou a obra de Barreto como uma das mais significativas do cinema brasileiro. Há ainda a necessidade latente de olhar com atenção para o passado para não cair na cilada de repetir os mesmos erros no futuro.


Vale ressaltar que o filme impulsionou a carreira de boa parte dos atores escolhidos e quase todos a partir de então viraram cabeças de elenco. Ainda que, é verdade, à época tenha sido discutido por que escolher Pedro Cardoso ou Luis Fernando Guimarães (já conhecidos pelos seus papéis como comediantes) para interpretar personagens dramáticos. Ora, Cardoso é um artista e Guimarães idem: óbvio que a presença deles é facilmente justificada, mesmo que o público tenha rido em horas impróprias.


“O Que É Isso Companheiro” é um bom filme, daqueles que você pode gostar sem fazer muito esforço. Sim, pode-se dizer que o longa não faz questão de mostrar os motivos que levaram um grupo de jovens idealistas a jogar tudo para o alto e ir parar na luta armada. Sem falar que, quase que com excelência, Barreto conseguiu reconstituir a época, com uma fotografia interessante e uma música de primeira. Não é à toa, portanto, que o longa-metragem tenha representado o Brasil no Oscar.


Além do mais, num País que insiste em menosprezar as tragédias de sua História, assistir ao filme de Bruno Barreto me parece ser mais do que necessário; me parece ser tão importante quanto o alerta que Bertolt Brecht faz sobre os perigos do nazismo na peça “A Resistível Ascensão de Arturo Ui”. “O Que É Isso Companheiro” é, é sem dúvida, uma revisão da luta armada feita por alguém que participou dela.


Em tempo: o público terá oportunidade de rever o filme nesta quarta-feira (17), às 18h10, no Canal Brasil, como parte da mostra que homenageia os 80 anos do jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira. Rememorar também é viver: rememoremos, então, nossa História.


‘O Que É Isso Companheiro’

Diretor: Bruno Barreto

Elenco: Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Cláudia Abreu, Nelson Dantas, Fernanda Montenegro, Milton Gonçalves e Othon Bastos

Quando: hoje

Horário: 18h10

Onde: Canal Brasil

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