• Marcus Vinícius Beck

As portas da percepção

Música

Uma carreira meteórica que durou apenas cinco anos foi suficiente para colocar Jim Morrison na história da música pop do século. Morte de Morrison, misteriosa, completa 50 anos hoje


Morrison em retrato clicado pelo fotógrafo Jerry Hopkins, em junho 1969, em Teotihuacan, no México - Foto: Instagram/ Reprodução



Tudo começou na Califórnia, em julho de 1965. Dois colegas que se conheciam do curso cinema da prestigiada UCLA, Ray Manzarek – pianista apaixonado por jazz – pergunta o que Jim Morrison fazia para passar o tempo. “Tenho escrito canções de um concerto de rock excelente que ouço na minha cabeça”, disse Morrison. Curioso, Manzarek pediu-lhe que cantasse uma das composições. Com os olhos fechados, manda ver "Let 's swim to the moon”, ou algo como “vamos nadar para a lua”, em tradução livre.


Era “Moonlight Drive”, faixa que está no primeiro LP da banda, “The Doors”, de 1967. A Morrison e Manzarek, juntaram-se o guitarrista Robby Krieger e o baterista John Densmore. A cozinha dos Doors, temperada a um som lisérgico que misturava blues, jazz e LSD, não só marcou o rock feito na época como também intrigou público e crítica por não ter uma linha de baixo – quem tocava era Manzarek, e no piano.


Tímido e com calças de ouro que enalteciam sua sensualidade, nos primeiros shows Morrison tocava com as costas viradas para o público. Aos poucos, começou a soltar-se no centro do palco e passara a mostrar que era um vocalista de presença, com os fãs pirando naquele leitor das teorias surrealistas de Antonin Artaud. Daí é que vem o status de os Doors serem uma banda tanto meteórica quanto sexual e intelectual.


Mas Morrison não era apenas um rockstar chapado, bêbado e com sede de confusão: suas referências literárias representavam alguém que esbanjava cultura, referenciava o mundo das ideias e nutria um prazer pela escrita. Aplicado na escola, desde a adolescência devorava Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire e adorava o personagem Dean Moriarty, eternizado pelo romancista beat Jack Kerouac em “On The Road”.


As bajulações do showbiz não significavam nada para o vocalista. Ao entrar rápido, a grana que ganhava ia parar numa conta conjunta que os Doors tinham. Morrison desprezava estilos de vida caros, como é comum entre roqueiros que fazem sucesso. Não tinha carro, nem casa própria. Durante os anos em que esteve sob os holofotes, morou em hotéis decadentes, em Sunset Strip, na cidade de L.A.


Sua entrada no universo do rock, portanto, não foi nada além do que um acidente ao ponto de, após cinco anos, decidir enterrar o ícone Jim Morrison para dedicar-se à poesia. Antes de abandonar os holofotes, porém, enfileirou discos que hoje figuram entre os melhores do rock, como “The Doors” (1967), "Waiting Of The Sun” (1968), “The Soft Parade" (1969), “Morrison Hotel” (1970) e “L.A Woman” (1971).


Morrison era tão louco que levara ao pé da letra a frase do poeta William Blake - “se as portas da percepção estivessem abertas, tudo pareceria como realmente é: infinito”. Ou seja, Jim Morrison era fascinado pela experiência de seus sentidos e desafiava autoridades, semeando o caos por onde passava e proporcionando uma experiência catártica.


A literatura esteve tão presente na vida do xamã (vocativo bastante usado para referir-se a ele) que até o nome da banda fora inspirado em um livro. The Doors é uma referência direta a um ensaio psicodélico do escritor Aldous Huxley (1894-1963), “The Doors of Perception” (As Portas da Percepção, em tradução direta). Huxley tinha tirado o nome de um trecho de “The Marriage of Heaven and Hell” (O Casamento entre Céu e Inferno), de William Blake, poeta do qual Morrison era fã.


Processado por atentado ao pudor (simulou sexo oral no microfone no show em Miami, no ano de 1969), foi perseguido pelo sistema de justiça dos EUA e, após um caso midiático que botou os Doors na condição de ameaça ao status quo do Tio Sam, embarcou num avião para Paris. Não sem antes, porém, deixar “L.A Woman” (1971).



Íntegra do disco "L. A Woman", lançado em 1971



Furioso? Claro. Agressivo? Sem dúvida. Alcoólatra? Com certeza. Dono de uma voz em barítono que lembrava Elvis Presley, Morrison era tudo isso, mas também era o cara que bebia porque seus ídolos o faziam. Depois, biritava para aliviar as pressões e, conforme ele mesmo diz no poema inédito “The Collected Works of Jim Morrison: Poetry, Journals, Transcripts and Lyrics”, “para conversar com idiotas”.


Filho de militar de alta patente da Marinha dos Estados Unidos, Jim Morrison nasceu em 8 de dezembro de 1943 e, na infância, mudou-se com frequência por causa do trabalho do pai. Quando entrou na UCLA, cortou laços com seus familiares e passou a trabalhar na produção de curtas-metragens. Sem abandonar, jamais, a poesia


Ele morreu em 3 de julho de 1971, encontrado numa banheira. Morava com a namorada Pamela Courson Morrison, em Paris. Foi-se exatamente dois anos depois de Brian Jones (fundador dos Rolling Stones), dez meses após Jimi Hendrix e nove de Janis Joplin. Mas Morrison está aqui.


A Novo Século preparou o lançamento da biografia “Ninguém Sai Daqui Vivo”, escrita pelos jornalistas Jerry Hopkins e Danny Sugerman. Hopkins, aliás, foi quem conseguiu uma entrevista exclusiva na Rolling Stone com Jim após o fatídico show realizado em Miami, no dia 1° de março de 1969. As homenagens em torno do cinquentenário de morte de Morrison reservam ainda o lançamento da graphic novel de Leah Moore, um tributo à importância dos Doors para o rock.


Em tempo: o canal BIS, às 21h30, exibe no sábado (3) o documentário “The Doors: Feast Of Friends”, produção dos Doors e que revela bastidores da lendária banda americana. No Youtube, está disponível o documentário “História do álbum L.A Woman”.


Realmente, ninguém sai daqui vivo.


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