• Júlia Aguiar

Ato clama por vida digna

Protesto

Na manhã de quinta-feira (1), manifestação anarquista toma as ruas de Vila Isabel, na zona norte do Rio de Janeiro, pelo aumento do auxílio emergencial

Manifestação pela Vida Digna, em Vila Isabel. Foto: J.Lee

“A nossa luta é todo dia, queremos o auxílio até o fim da pandemia”, gritavam cerca de 30 jovens reunidos na Praça do Maracanã, em Vila Isabel, na manhã de quinta-feira (1). “É uma vergonha. O Paulo Guedes mente todos os dias na televisão, todos os dias ele fala que a economia vai crescer. Vai crescer pra quem?”, diz um manifestante no microfone enquanto a passeata percorria a rua 28 de setembro.

O protesto na cidade do Rio de Janeiro faz parte do desenvolvimento da campanha “Luta por Vida Digna”, que reúne 70 grupos e movimentos em torno de 13 reinvindicações por uma realidade digna de equidade e expansão de direitos fundamentais. A campanha acontece em 10 estados: Alagoas, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Através de um manifesto, lançado no dia 26 de maio deste ano, os coletivos anarquistas pontuam que as condições de vida pioraram nos últimos anos e, com a ascensão do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, direitos diversos foram violados. “O governo, junto com os mais ricos do Brasil, flexibilizou as leis trabalhistas (nossas garantias), precarizou nosso trabalho (nossa dignidade), colocaram milhões na rua (nosso ganha-pão) e, por fim, aos que ficaram, sobrou trabalhar quase que de graça”, afirma o manifesto.

Entre as pautas defendidas pelo movimento está a manutenção do auxílio emergencial, que teve prazo prolongado até dezembro, porém com o valor pela metade. Desde março, 48 milhões de brasileiros – fora do Bolsa Família - receberam as quatro parcelas de 600 reais. Com a prorrogação do auxílio, as parcelas vão até dezembro e serão de 300 reais, atingindo somente 27 milhões de pessoas.

O benefício sofreu críticas da população, que não consegue sobreviver com trezentos reais. “É um absurdo, além de pagarem de 2 em 2 meses, pagam só 600 reais, quem consegue viver assim?”, indaga Maria Antônia Nunes, 42 anos, que estava há quatro horas na fila para entrar em uma agência da Caixa Econômica Federal. O protesto fez piquete em frente as principais caixas da rua 28 de setembro, onde foram distribuídos panfletos e jornais anarquistas para as pessoas que esperavam embaixo do sol, num calor de 30 graus.

“O governo Bolsonaro é para os ricos e grandes empresários. Eles falaram que o arroz aumentou porque as pessoas passaram a comer mais, olha só que mentira!”, grita, indignado, um manifestante no microfone aberto à população. “O preço dos alimentos subiu porque os grandes latifundiários brasileiros decidiram exportar os estoques para o mercado em dólar”, continuava, como explicamos na matéria “Alta no preço de alimentos”.

Manifestação ocorreu pacificamente durante todo o trajeto. Fotos: J.Lee


“A economia aberta faz com que o próprio produtor escolha para quem vender, é complicado sancionar essa exportação”, explicava o economista Pedro Vitor Garcia Ramos em entrevista ao JM, na matéria citada. Apesar da manifestação, que poderia ser considerada como um piquete mais organizado, foi importante para a população que esperava nas longas filas frente as caixas em busca de poucos reais.

“Tô na fila da caixa desde as 9 horas da manha e já são meio dia. O auxílio não dá pra nada, tá tudo o olho da cara! Eu queria saber se o Bolsonaro vive com esse dinheiro”, indaga Maria Antônia, que só não se juntou a caminhada por estar na fila. Já Anderson Maciel, 22, estudante da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) em educação do campo, afirma que “é importante o povo dizer que 600 reais não bastam, que 300 reais pior ainda, e que mesmo com o auxílio nós queremos vida digna”.

Anderson, que é de Realengo, zona oeste da cidade, expõe que é importante manter a solidariedade com movimentos autônomos e independentes que acontecem em toda região do Rio, “querendo ou não somos poucos, pensando no tamanho que poderia ser. É importante que a gente inflame qualquer sementinha que fossa nascer. É importante, inclusive, trazer o chamado para que as pessoas vão a zona oeste”, continua em entrevista ao Jornal Metamorfose.

A manifestação, que começou na praça Maracanã, contou com a presença de um grupo pequeno de policiais militares, que estavam aramados com fuzis e espingardas para acompanhar o ato. A Polícia Militar do Rio de Janeiro (PM-RJ) impediu que os manifestantes ocupassem as duas vias da rua 28 de outubro, e o ato seguiu tímido até o fim da rua, ocupando uma das faixas de carro.

Policiais acompanharam a manifestação exageradamente armados. Fotos: J.Lee