• Lee Aguiar

Atotô

Doce Viagem

Após um tempo desativada, a coluna poética-fotográfica assinada pela artista Lee Aguiar volta em homenagem a seu falecido pai

Trabalhadores do cemitério seguram as flores. Foto: J.Lee


Ao encarar profundamente o reflexo de luz nos olhos lacrimosos de minha avó - sua mãe – me deparei com o vazio profundo que você deixaria em nossas vidas. Venho tentando me convencer de que sua partida irá me ensinar a encarar o abismo com a força das marcas rasgadas no peito, estou cicatrizando um raio que parte meu coração ao meio, pai.


Ao fazer corpo com a imensidão do novo ciclo que se inicia percebo que meus pés se afundam em terra flamejante. A angustia de ter sido proibida de lhe declarar uma última vez meu amor por você, tocado em seu corpo semimorto apenas algumas horas antes de sua partida oficial desse mundo tenebroso, de ter ficado 24 meses sem seu abraço, de não ter aproveitado mais meus poucos anos com você.


Sim, estou mergulhando em meu mar revoltoso em busca de sentidos que me convençam de que sua partida faz sentido. De que tudo acontece por um motivo e cada pessoa voa dessa para outra no momento certo. Mas a raiva me atinge como uma tempestade elétrica, queimando milhares de alqueires de beleza fixadas nas paredes de minha memória. Não sei mais quem eu sou sem você.


Ainda me pergunto se um dia a sensação de você estar em uma viagem longa sem comunicação irá passar. Será que minto para mim mesma deliberadamente por medo de encarar seu corpo frio saindo do necretório?


Você está entregue a Terra, pai. Meus votos de pós-vida para ti é que você se embriague na liberdade.


“Tudo passa, tudo sempre passará” você costumava me dizer. A cada noite que cai eu me sinto mais como uma erva daninha que toma a cidade cinza em folhas indesejadas por alguns. Venenosa. Expansiva. Bela. Viva.


Estou pulsante, acredite. Em 25 anos de sangue, sonhos e América do Sul, aprendi que nada é tão ruim que não possa piorar, mas que a vida é e pode ser generosa. O amor vem me salvando, pai. Estou amando todos os dias a possibilidade de estar existindo e compartilhando a vida com as pessoas que me cercam.


Sua partida me fez perceber que uma árvore com raízes profundas não quebra. Logo eu, marítima, estou na busca da firmeza que sua ausência me presenteou.


O passado ainda dói, pai. Os dias de trauma ainda se perpetuam em marcas vivas de água, tudo é um fluxo intenso de acontecimentos tenebrosos. Sigo na tentativa de perdoar aquilo que não pode ser mudado, retirando da parede os quadros que pesam e os substituindo por memórias que viraram sabedoria em movimento.


Continuo agradecendo todos os dias por estar viva.


Confira abaixo o ensaio completo "Atotô: um processo de cura"


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