• Marcus Vinícius Beck

Baudelaire e a arte de flanar

Sede de Arte

Obra do poeta ganha fôlego em nova edição lançada da 34; escritor - como definiu Walter Benjamin - é a síntese da poesia moderna

Charles Baudelaire inaugurou a chamada poesia moderna - Foto: Reprodução


No século 19, o crítico literário Jacques Rivièr dizia que Charles Baudelaire estava “entre nós”. Mais de cem anos depois, ele continua aqui. Baudelaire e sua necessidade de praticar expressamente o contrário daquilo que se acredita ser o bem continuam entre nós: jamais saberemos ao certo se a beleza de seus versos “provém de um céu profundo” ou “emerge do abismo”. Talvez a prova mais cabal disso seja "O Spleen de Paris”, reunião de pequenos poemas em prosa de Baudelaire relançados pela 34.


Baudelaire primeiro sentiu um êxtase pela vida, para em seguida enxergar nela um horror. Mais tarde fingiu ser um Deus que o protegesse, porém com o objetivo de apenas se entregar a um Demônio que lhe alimentava a alma. Ele jurou a verdade e pregou a mentira. É um paradoxo: defendeu o trabalho produtivo numa sociedade capitalista transformada pela Revolução Industrial, mas nunca de fato trabalhou.


Preguiçoso e amante das coisas boas da vida, era na arte de flanar pela capital do século 19 – como disse o filósofo Walter Benjamin – que encontrava os motivos para o gozo pleno da alma. Reza a lenda que não fazia jus a vida que tinha: Paris lhe marcara, mas também lhe fizera insatisfeito, com o mundo e consigo, deixando uma obra que poucos foram capazes de compreender na época. “O Spleen de Paris” é hoje um marco.


O poeta de “As Flores do Mal” passou os dez anos finais da vida em busca de uma “prosa poética musical, mesmo sem ritmo nem rima”, que era adaptada “aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência”. Em “O Spleen de Paris”, há um desprezo pela aristocracia e por toda a ideia de progresso, pelos “empreendedores da felicidade geral” e pelo “dicionário republicano”. Na estrada dos jardins públicos, topou com os “expropriados da vida”.

Em “XII. As Multidões”, Baudelaire diz: “Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis para o poeta afetivo e fecundo. Quem não sabe provar a própria solidão tampouco saberá estar só em meio à multidão”. O autor de “Paraísos Artificiais” acreditava também que era preciso desfrutar o incomparável privilégio: o passeante solitário e pensativo extrai uma singular embriaguez dessa comunhão universal.


Adepto da arte de flanar que era, Baudelaire observou o que a cidade poderia lhe oferecer: prostitutas, ladrões, hospitais, vinho, haxixe, ópio, o movimento ininterrupto de quem – mesmo com as mais inevitáveis frustrações da existência – não perdia a vontade de viajar, experimentar o desconhecido, de enriquecer-se na banheira da liberdade e frustrar-se nas águas do tédio. Sentia que esse “encanto infernal” fazia com que ele não perdesse o tom de rejuvenescimento, elemento central em sua poesia.


Sabemos que a dor de Baudelaire tinha duas portas trancadas. Na visão dele, viver era o contrário de exprimir, mas só podia fazer isso por meio da experiência vivida e sentida. Escreveu páginas confusas. Precisava ganhar a vida. A proibição de “Flores do Mal” por mentes caducas e esquisitas o surtou. Foi taxado de maldito, o que no fundo queria. Em “Baudelaire”, ensaio sobre essa figura que sintetiza a poesia moderna, Sartre o acusou de puxar saco de juízes e tramar seu ingresso à Academia Francesa.


Mas Baudelaire foi muito além das críticas feitas pelo filósofo, e cedeu às regras do jogo: deixou-se julgar pelas teorias caducas de seus críticos e depois desejou uma reabilitação social junto com aqueles que lhe apunhalaram frases repressivas de uma moral esquisita. Então desembarcamos no xis da questão: “O Spleen de Paris” precisa ser situado nesse tamborim de uma “encruzilhada incontornável para o que surgiu desde então sob o nome de literatura”, como sentenciou o crítico Roberto Calasso.


Por essas e por outras razões, “O Spleen de Paris” deve ser lido e entendido como um tratado de poesia moderna, de alguém que sentiu o fluxo poético da cidade, de alguém que - no final da vida - precisou buscar refúgio na Bélgica para se livrar dos credores. Nesse sentido, a edição lançada pela 34, com tradução de Samuel Titan Jr, oferece um mapa de notas fundamental para compreendermos a força poética baudelariana.


Como atestou o Walter Benjamin: “aqui e agora da obra de arte, sua existência única em que ela se encontra. É nessa existência única, e somente nela que se desdobra a história da obra”. Charles Baudelaire denunciou o horror de uma sociedade predatória que massacra sonhos e sentimentos em nome de bolsos abarrotados de grana, mas vazios de sentido. No covil dos canalhas, fico sempre com o poeta.


‘O Spleen de Paris’


Autor: Charles Baudelaire

Tradução: Samuel Titan Jr

Editora: 34

Preço: R$ 46,00





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