• Dayla Dias Gomes

Bem vindo a Belo Horizonte

Gotas de Acidez

Dayla Dias Gomes volta à sua coluna com uma crônica do cotidiano, observando as avenidas percebe a realidade e a retrata com poesia. Confira

Belo Horizonte, bairro do curral. Foto: Reprodução


Era uma terça feira, estava na Rua Alagoas, no bairro Funcionários, em frente a uma igreja toda construída em estilo neogótico, eu estava no ponto de ônibus esperando o 4111 que ia em direção ao bairro Coração Eucarístico que também é conhecido como “Coréu”.


Já havia esperado pelo ônibus por uns 15 minutos quando eu vejo o ônibus vindo atrás de uma viatura que nem notei muito a existência, e porque notaria? Era somente uma viatura comum numa capital comum. Infelizmente não percebi como o comum nos atinge. E me atingiu quando fui levantar para pegar o ônibus.


Mal percebi mas estava para tomar um enquadro violento. Eles desceram da viatura numa agilidade apontando a arma pra mim e mandando eu colocar a mão na cabeça e ficar de costas. “Será que era comigo?” eu pensei mas não tinha outra pessoa ali, somente eu, eu era a pessoa suspeita, meliante. Esse pensamento foi abruptamente interrompido pela arma da Taurus, aquela marca conhecida pela má qualidade dos seus produtos que às vezes atira sozinho.


- Mão na cabeça e de costas para mim! Você tem droga aí com você?


Prontamente gaguejando respondi.


- Não tenho nada comigo, só um maço de cigarro.


E já me revistando ele perguntou:


- E você tem quantas passagens?


Nenhuma.


Ele pegou minha carteira e falou que eu podia abaixar os braços e virar de frente para ele, o outro policial que estava com ele pegou a minha carteira e logo viu minha carteira da UFG.


- Você é estudante?


Sim faço licenciatura na UFG.


- Isso é em Goiás né? Você tá bem longe de casa.


Não, agora eu moro aqui em Minas.


Ele então devolveu minha carteira, fez sinal para o outro para voltarem para viatura e antes de ir embora ele disse:


- Bem vindo a Belo Horizonte!


E em alguns momentos depois percebi, havia perdido o ônibus. Precisei avisar meu amigo que eu ia me atrasar.

Gostou do texto?

Com a ascensão do fascismo no Brasil, ataques à mídia se tornaram recorrentes. Documentos perdidos, subnotificação de mortos, censura nos dados sobre queimadas e desmatamento, retirada de direitos duramente conquistados: o contexto da realidade está sendo censurado nos monopólios midiáticos. Venha lutar com a gente! É com seu apoio que conseguimos manter o Jornal Metamorfose no ar. 

Apoie a liberdade de imprensa, ela só é possível com você, caro leitor.