• Marcus Vinícius Beck

Fuja da farda

Atualizado: Mar 1

Botequim Literário

Crédito: Genildo/ Reprodução



O coronel mandou a gente ficar em posição de sentido. “Alguém aqui deseja servir?”, perguntou ele, em um tom ríspido. Eu não desejava. Queria estudar. Entrar na faculdade. Ter um futuro que não fosse obedecendo ordens de superiores. “Aqui é para virar macho”, sentenciou o sujeito.


Completei 18 anos em agosto 2013, ano em que o Brasil entrou em convulsão social por conta dos protestos que ficaram conhecidos como Jornada de Junho. Nas ruas, estudantes lutavam contra o aumento da passagem de ônibus e rechaçavam os megaeventos (Copa do Mundo e Olimpíadas), cujas obras se mostraram elefantes brancos. Fui a uma daquelas passeatas, ainda morando em Ponta Grossa, no interior do Paraná, para exercer meu direito à cidadania.


Dois meses depois, às 6h30, cruzei os portões do 13.º Batalhão de Infantaria Blindado e dei de cara com pelo menos 200 jovens, esperando a vez para cumprir seus deveres com a pátria amada Brasil. Começaram as zoeiras dos milicos. Soldadinhos e suboficiais passavam por nós fazendo piadas nas quais só que eles, coitados, viam graça ou achavam inteligentes. Havia um décor verde oliva deprimente naquilo tudo. Quem reagisse, quem desobedecesse, “não vai escapar”.


Nada de olhar para os lados, interagir com quem estava na mesma. Era difícil estar numa situação dessas e não lembrar que os profissionais da força torturaram e assassinaram gente como Vladimir Herzog ou mataram alvejado com um tiro na cabeça o secundarista Edson Luís. Sem contar ainda que eles botaram o país em crise econômica após construírem obras faraônicas para calar os gritos de dor que ecoavam nos porões da caserna a cada suplício que comandavam.


Pensando bem: barbárie é com a turma da farda. Eu precisava arrumar um jeito de cair fora.


A apreensão de ter alguns anos de minha vida mudados contra a vontade própria foi acentuada por um conhecido, com quem jogava futebol aos domingos, ao me dizer que fazia questão de “me escolher” para servir. Eu? Mas por que eu? “Você é muito desbocado”, argumentava o infeliz. No futebol, ele era o que usava mais da força física para conter a hegemonia dos mais habilidosos na cancha. Nem era tão bom de bola assim, digo, era um perna de pau com vocação, apesar de que desconfio que em sua cabeça achasse que estava no patamar de Rivelino, Zico, Xavi ou Iniesta.


Para fugir do quartel, coloquei em prática meus atributos retóricos: tive o braço fraturado (embora isso não seja mentira), queria estudar (também não era) e acho que não serviria para nada nas Forças Armadas. Além, é óbvio, de não ser exatamente o tipo machão que tanto reverenciam. Estou, por assim dizer, mais para um Antoine Doinel (o personagem de François Truffaut que protagonizara "Os Incompreendidos") do que para Rocky Balboa.


Vejam bem: sou magro, quase franzino, uso óculos para perto e minha aptidão física se limita a umas arrancadas num campinho de areia onde desfilava meus dotes futebolísticos aos domingos, e com a finalidade de curar a ressaca nossa de cada dia nos dai hoje. Talvez a única coisa que eu estivesse em comum com o pessoal de alta patente era o gosto por um pileque e um pampinha num cigarrinho de artista - naquele tempo este que vos fala era um refugiado do Verão do Amor.


Viram só? Certeza que vocês querem contar comigo como trabalhador da força?


Evidentemente, não queriam, gracías: riram da minha musculatura, pouco avantajada se comparadas às do dublê do Vin Diesel julgado no STF e pelo plenário da Câmara dos Deputados, é verdade. Apontaram, cochicharam, deram de dedo, mandaram a gente ficar de cueca (num frio da porra!) e ordenaram: todo mundo para a fila. “Mais juntos, encostem”, disse um dos fardados.


Veio o médico do exército. Sujeito mal encarado, vai ver o pobre milico nunca teve o privilégio de sentir o amor, aquela ferida que o poeta disse que a gente não sente. E o veredicto, meu filho? Ei-lo: fui dispensado do alistamento militar obrigatório, porém tive de ir jurar bandeira meses depois. Moleza. Estava livre. Era o primeiro dia do restante da minha vida.


Os próximos anos me reservaram momentos excitantes e prazerosos: discussões intelectuais durante a graduação em jornalismo, descobertas literárias, musicais e cinematográficas, além de ter conhecido as pessoas mais importantes da minha vida e para minha formação. E ainda participar da ocupação da Rádio Universitária, em 2016, na chamada Primavera Estudantil – momento sobre o qual escrevi “Diário Subversivo: Dias de Embriaguez, Utopia e Tesão”.


Pensando bem: eu não iria prestar para o serviço militar...


Então fico imaginando tão quixotesca experiência existencial pela ótica do cartunista Jaguar, durante os anos em que o ex-Pasquim servira no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. Até cancelado por um sargento, como revelou o jornalista Álvaro Costa e Silva em seu twitter depois que ele próprio contou suas memórias dos tempos da caserna na Folha de S. Paulo, foi...


Bom, livre do quartel, resta-me evocar aquele samba de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira: “Ao longe soldados e tambores/Alunos e professores/Acompanhados de clarim/Cantavam assim/Já raiou a liberdade/A liberdade já raio”.


Sim, continuo com os sonhos do mundo na cabeça. Isso, para a ética fardada, é inadmissível.


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