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Bolsonaro mente em cúpula do clima

Editorial

Era de se esperar que o presidente e seu sinistro iram mentir na cara dura - novamente - na cúpula dos líderes sobre o clima; alguns dizem que Jair amenizou o tom, mas o JM afirma que o presidente está delirando

Ricardo Salles e Jair Bolsonaro tomam chá de cadeira na Cúpula dos Líderes Sobre o Clima. — Foto: Marcos Correa/Brazilian Presidency via Reuters/Reprodução


Como se não bastasse a vergonha que aquele genocida - atualmente presidente do país - fez o Brasil passar na cúpula dos líderes sobre o clima de 2020, esse ano, ele repetiu a dose amarga de mentiras cabeludas. No Brazil - com z mesmo - de Jair Bolsonaro não tem queimadas, nem garimpo ilegal, os povos indígenas estão seguros e não falta água nem energia em nenhum lugar desse país forjado.


Mas, não se preocupem, caros leitores, claramente o presidente está se referindo a democracia que ele tanto se esforça para acabar, pintando o país como aquele comandado por Dilma Rousseff (antes do golpe), vai que cola, né? Nada mais covarde do que usar os méritos de uma mulher para salvar seu próprio cargo. "Como resultado, somente nos últimos 15 anos evitamos a emissão de mais de 7,8 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera", Bolsonaro soltou essa logo no começo do discurso e juramos que vendo ao vivo só ecoava aquele meme "e o PT ein?!".


"Renovo, hoje, essa credencial, respaldada tanto por nossas conquistas até aqui quanto pelos compromissos que estamos prontos a assumir perante as gerações futuras" - pena que nenhuma delas mantidas por você, né presidente...


O messias mais fajuto que conhecemos não conseguiu esconder a cara de desprezo quando cuspia as palavras escritas por algum assessor com acesso à internet habitada por pessoas que sabem que a Terra é redonda. O presidente mentiu.


Quando Jair Bolsonaro afirma que "apesar das limitações orçamentárias do Governo, determinei o fortalecimento dos órgãos ambientais, duplicando os recursos destinados às ações de fiscalização", logo queremos pular dentro desse sonho irreal, pois, na realidade, o IBAMA e o ICMBio perderam 57% dos investimentos em 2021, sendo que no ano passado, ambos os órgãos já tinham sofrido corte de 50%.


Mas, infelizmente, o show de horrores não acaba por aí. Ele teve a pachorra de afirmar ao vivo - com cara de bunda, diga-se de passagem - que vai ajudar a combater o desmatamento da Amazônia em prol das comunidades indígenas. Mesmo promovendo um genocídio escancarado com o avanço do garimpo ilegal e a subnotificação de mortes indígenas por covid-19.


"A solução desse “paradoxo amazônico” é condição essencial para o desenvolvimento sustentável da região. Devemos aprimorar a governança da terra, bem como tornar realidade à bioeconomia, valorizando efetivamente a floresta e a biodiversidade. Esse deve ser um esforço, que contemple os interesses de todos os brasileiros, inclusive indígenas e comunidades tradicionais".


Sim, caros leitores, ele disse isso.


Quem se lembra, lá em meados do primeiro semestre de 2020, quando o ex-diretor do INPE, Ricardo Galvão, foi demitido por Bolsonaro depois de divulgar os dados de desmatamento? Na época ele ficava dizendo que o ex-diretor estava "a serviço de alguma ONG" (como se isso fosse algo ruim - risos).


Mas, voltando para os acontecimentos da última semana: no dia 14, o superintendente da Polícia Federal (PF) no Amazonas, Alexandre Saraiva, apresentou notícia-crime ao Supremo Tribunal Federal (STF), pedindo que este investigasse o ministro do meio ambiente Ricardo Salles. O senador de Roraima, Talmário Mota (PROS) e o presidente do Ibama, Eduardo Bim, sob acusação de atrapalhar e dificultar as investigações sobre a apreensão de mais de 200 mil metros cúbicos (aproximadamente 65 mil arvores) de madeira apreendida no Pará sem documentação que comprovasse realmente a sua origem legal.


Também haveria indícios de que Salles, Mota e Bim praticaram crime de advocacia administrativa, quando se patrocina, diretamente ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública. O diretor da PF-AM foi demitido no dia 15.


Para o genocida é assim: deu ruim, troca o diretor. É só observar todos os diretores da Polícia Federal que foram trocados - inesperadamente - todas as vezes que algum processo ou investigação chegasse perto do clã Bolsonaro e sua corja de apoiares fieis.


Mas, claramente, vivemos em um país democrático. Com uma constituição inquebrável, e provavelmente nós que estamos delirando, mas acreditamos ser culpa de toda fumaça provinda do Cerrado, Pantanal e Amazônia. Lembram que esses biomas tiveram taxas históricas de queimadas em 2020? E em 2019, alguém se recorda?


Não caiam na historinha para boi dormir de que nós estamos defendendo o meio ambiente. O governo Bolsonaro censura os dados de queimadas, impede que os órgãos de fiscalização exerça seu trabalho e ainda proíbe que funcionários desses mesmos órgãos deem entrevistas à imprensa.


Lembramos que estamos no abril indígena, e estes são os povos mais atingidos pelo desmatamento. Hoje, no dia 22 de março, Dia da Terra, fazemos as palavras na carta aberta da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), as nossas:


"Prometemos a ti com a força do nosso maracá, jenipapo e urucum, lutarmos integralmente pela vida; fazendo dos nossos corpos árvores de nossos chãos, as últimas fronteiras na luta pela vida. Amada Mãe, acolhe os pedidos desses teus filhos que sabem que sem ti nada brota e nada cresce. Ajuda-nos a conceber um pensamento decolonial coletivo, mais próximo das tuas demandas, mais horizontal em suas visões, que valorize devidamente todas as tuas manifestações. Apenas tu sabes do futuro que estamos fazendo por merecer".


***


Veja o discurso completo:

Reprodução da TV Planalto.

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