• Victor Hidalgo

Brasil recicla apenas 3% do lixo que produz

Meio Ambiente

Lei de Resíduos Sólidos completa 10 anos sem causar muito impacto

Lixão fechado em 2018, em Brasília, cerca de 3.374 cidades brasileiras ainda tem lixões. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado


Entre a costa da Califórnia e do Havaí existe uma ilha de lixo, que se estende por uma área de 1,6 milhões de quilômetros quadrados, duas vezes o tamanho da França. Cerca de 80 mil toneladas de lixo, em sua maioria plástico, se acumulam formando um desastre ecológico que ficou conhecido como: A Grande Mancha de Lixo do Pacífico, e ela está crescendo.


Laurent Lebreton, da fundação holandesa The Ocean Cleanup, que desenvolve tecnologias para extrair a poluição plástica dos oceanos comentou em entrevista para ao Observatório do Clima: “A situação está pior a cada dia, encontramos uma quantidade de plástico impressionantes e precisamos de medidas urgentes para acabar com o plástico que ocupa 1,6 milhão de quilômetros quadrados”, afirmou o líder. De acordo com Lebreton, 20% do lixo pode ter chegado após o terremoto e tsunami de 2011 no Japão.


O plástico costuma demorar cerca de 450 anos para se decompor no meio ambiente, e dados não muito animadores de um estudo divulgado pelo Fórum Econômico de Davos em 2016 diz que o oceano vai ter mais plástico do que peixes até 2050. E o Brasil? Estamos fazendo algo de positivo sobre o tema do lixo? A resposta é não.


Em 2020, a Lei de Resíduos Sólidos completou 10 anos desde sua criação, mas sem muito impacto, foi criada para estimular o fim de lixões e incentivar a criação de aterros sanitários seguros. Porém, o que se viu ao longo desses anos foi o aumento da produção de lixo pelas cidades e pouco investimento para políticas de reciclagem.


A Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Residenciais (ABELPR) informou que em 2018 foram gerados cerca de 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos em todo o Brasil, onde 29 milhões foram descartados de maneira inadequada em 3 mil cidades, ignorando protocolos de saúde e preservação do meio ambiente.


Apenas 3% desse total de lixo foi realmente reciclado, sendo que o potencial era de 30%. Os resultados são preocupantes, hoje o Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo e segundo estudo da World Wildlife Fund (WWF), das 11,3 toneladas produzidas por ano, apenas 1,28% são reciclados, muito abaixo da média mundial de 9%.


Os dados se limitam apenas a questão do descarte de lixo e da reciclagem. Se entrarmos na área das políticas de preservação do meio ambiente do Governo Bolsonaro sancionadas pelo Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, basta olhar os noticiários para ver que o Brasil está literalmente em chamas.


Reutilização

Coletivo Idéias Urbanas. Foto: Divulgação


Existem projetos que visam reutilizar esses resíduos que descartamos e transformá-los em algo novo, esse é o trabalho de Tiago Filemon, integrante do Instituto Lixo Zero, faz parte do Coletivo Idéias Urbanas e é estudante de arquitetura na faculdade Uni Araguaia, em Goiânia.


“O projeto foca em 3 frentes fundamentais. Ambiental: onde tiramos do meio ambiente resíduos sólidos da indústria moveleira; educacional: dando uma oportunidade para aprendizado de uma nova profissão e social, através do cuidado com meio ambiente e formando novos profissionais, conseguimos transformar lixo em arte e alimentando pessoas que precisam”, conta Tiago em entrevista ao JM.


Tiago fazia móveis solidários e os trocava por cestas básicas para a população carente. Mas ao sair com um amigo da faculdade, que lhe pediu para explicar um pouco sobre marcenaria, ele teve a ideia de criar um curso que utiliza restos da indústria moveleira para criar móveis e ensinar marcenaria. Hoje, ele tem seis oficinas que atendem um total de 24 pessoas. Ele afirma que quer atender a população em situação de vulnerabilidade social, expandindo o projeto para fora do estado. Hoje, uma das maiores dificuldades é de conseguir doações de maquinários para poderem trabalhar.


“Também estamos tentando lançar um projeto chamado Meninas Marceneiras, só que é um projeto a longo prazo. Queremos instruir às meninas no começo do tratamento de recuperação das drogas, com uma profissão. Estamos procurando parceiros para poderem doar máquinas, por elas não poderem vir até a marcenaria, então, temos que levar a marcenaria até elas”, informa Tiago ao Jornal Metamorfose.


O projeto disponibiliza aulas online e presenciais, seguindo as regras de segurança para evitar a contaminação pelo covid. A maioria dos alunos optaram por aulas presenciais, levando a oficina a tomarem medidas de distanciamento social, limitando o número de aluno a no máximo seis. O maior desafio no momento é arrecadar os equipamentos para poderem expandir o projeto e oferecer um melhor ensino aos alunos.


“Olhei para minha marcenaria e vi tantas sobras que não serviam para o meu trabalho ou para algum cliente, mas que serviam para fazer móveis menores. Então eu lancei o workshop junto com um professor meu da faculdade e uma outra marcenaria chamada Da Mata. Nos organizamos e preparamos esse curso que falamos de marcenaria, do processo de construção do mobiliário e colocar a mão na massa. Cada oficina saí em torno de seis móveis”, encerra Tiago.


Se você se interessou pelo projeto e tem interesse em ajudar, acesse às redes sociais do Ideias Urbanas no Instagram @ideias.urbanas e entre em contato para fazer sua doação.