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Brasil: republiqueta miliciana

Editorial

Bolsonaro endurece regime civil-militar e número de mortos aumenta

Presidente bate contingência à militares do alto escalão presentes em coletiva de imprensa. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil


É preciso matar o espetáculo da necropolítica que está em curso no Brasil desde o golpe que estroçou a democracia, em 2016, ao levar para o poder um bando de bigodudo com macabras inclinações assassinas. Na cabeça limítrofe de Jair Bolsonaro, o país é um território tomado à moda da zona oeste do Rio de Janeiro e o brasileiro é um reflexo da população fluminense - se não pagar a mensalidade do gatonet terá sérias dores de cabeça.


Bolsonaro é um delinquente que precisa ser expelido do Palácio do Planalto assim como ele foi do quartel, após mancomunar planos bombásticos de levar abaixo as instalações militares no Rio. O Brasil é uma terra arrasada: a pilha de caixões aumenta dia após dia. Mais de 260 mil vidas foram ceifadas pelo coronavírus, e ainda não sabemos quando – ou se – haverá vacina para a população toda. Não é à toa, portanto, que a alcunha mais adequada para se referir ao chefão do clã é Capitão Corona.


Para ele, chorar o luto dos nossos mortos é frescura. Mimimi. Todos nós vamos morrer um dia, pô! A desculpa dele é que precisamos fazer a economia girar. Em seu governo, funciona assim: se você for flagrado usando máscara, corre risco de ser demitido. Mas, por outro lado, se você sair receitando cloroquina para a turma de apatetados que lhe cerca, talvez seja até promovido. Os pilares básicos da civilização foram sequestrados por assassinos formados sob base de valores bipolares dos anos de Guerra Fria, e eles agora estão ditando as regras. Bolsonaro é um misto de Arturo Ui com Ubu Rei.


Se refrescarmos a memória, vamos ver que empilhar corpos nas valas secas pelo Brasil sempre foi de certo modo uma utopia do Capitão Corona. Acontece que, para seus arroubos ditatoriais, onde não há espaço para críticas e cobranças, ele não precisou disparar um único tiro: o inimigo imaginário, seguramente o pior desde a Gripe Espanhola, foi responsável por matar aqueles “30 mil”, o qual o então deputado federal se referiu numa entrevista. Foi maior, muito maior: hoje, são quase 280 mil mortos.


Há ‘párias’ para todos os lados, de todos as espécies: na saúde, na economia, na educação, na cultura, no meio ambiente. São personagens obscuros orgulhosos de suas incapacidades cognitivas e ensinados sob valores paranóicos que louvam torturadores dos anos de chumbo da ditadura civil-militar. O ídolo deles é um tipo que sentia prazer em enfiar ratos na vagina das mulheres e em pendurar pessoas no pau de arara. O bolsonarismo faz do suplício humano, do sofrimento e da dor, seu projeto de poder. Nem esconde o plano de abarrotar a Esplanada dos Ministérios de fardados.


E assim, com essa gangue de milicianos e empresários inescrupulosos, fomos nos acostumando a construir covas coletivas e anônimas em Manaus e a assistirmos cruzes serem arrancadas da praia de Copacabana. Até mandado de invasão a hospitais, ameaças a médicos, incentivo a manifestações neonazistas foram instigadas pela trupe e ataques diários ao cercadinho do Planalto se tornaram rotina no dia a dia do governo.


À vista, não há saída. Os líderes do Congresso foram cooptados pelo projeto da morte, digo, comprados pelas premissas políticas do bolsonarismo – leia, por obséquio, liberação de verbas em troca de projetos aprovados - ou seja, a corrupção (desculpa com a qual tiraram Dilma do poder) corre solta em Brasília. Na Câmara de Arthur Lira, só se podem aprovar textos da impunidade, e nada para cessar a triste sinfonia da fome. No Senado, Rodrigo Pacheco deixa evidente que não quer responsabilizar o presidente. Então tirá-lo do Planalto e julgá-lo no Tribunal de Haia é um sonho.


Enquanto você lê este editorial, mais uma pessoa perdeu a vida em decorrência de complicações provocadas pela Covid-19. O vírus se fortalece, com suas mutações, e as vidas são sendo ceifadas. Confrontado com a tragédia humana que se abate sobre o Brasil, ele solta “não possa fazer nada”. E, cá para nós, em 30 anos de atuação Bolsonaro de fato se especializou em não fazer nada durante sua atuação no Congresso.


É simples: ou Bolsonaro é impedido de governar o país – ao lado de seus sinistros e gângsteres de estimação – ou vamos contar ainda mais o número de mortos.



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