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Brasil, um barco à deriva desde 2016

Atualizado: Jan 25

Editorial

Responsável pela pandemia mais letal em um século, coronavírus escancara incompetência do Palácio do Planalto e acentua as desigualdades de um País profundamente desigual

Covas em Manuas: a metáfora da necropolítica bolsonarista - Foto: Picture-Alliance AP/A. Penner/ Reprodução



Precisamos trazer luz aos fatos para entender que a crise sanitária vivida no Brasil não é culpa da pandemia do Covid-19, mas foi acentuada de forma exacerbada, levando mais de 210 mil brasileiros à morte e outros tantos sem assistência médica adequada. Aqui, fazemos a ressalva para o trabalho diuturno e incansável daqueles que estão no Sistema Único de Saúde (SUS) na luta para salvar vidas e no combate à disseminação do coronavírus.


O início do problema que enfrentamos no SUS como um todo teve início em 2016. Ano do golpe institucional que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff e a subida da extrema direita ao poder no país. O imaginário popular foi naquele ano constantemente bombardeado com notícias falseadas, com meias verdades, com um descaramento tão evidente que levou o país ao desgoverno e os desmandos que vemos desde a eleição de 2018.


Eis um fato importante que trazemos à luz para que todos pensem e reflitam. Em 2008, durante o primeiro governo Lula, foi criado um grupo, formado por cientistas, médicos e especialistas, dentro do Ministério da Saúde para estimular a indústria de saúde e com resultados positivos. Já no ano seguinte, em 2009, o Brasil alcançou a independência de vários ingredientes e remédios com produção totalmente nacional. Assim, foi possível criar a Farmácia do Povo e garantir remédios de graça para algumas doenças, como pressão alta, e a baixo custo, como a da asma, para citar apenas dois exemplos. Isto garantiu o acesso mais fácil aos medicamentos de uso contínuo por parte da população de baixa renda.


E eis que em 2016 sofremos o golpe institucional e Michel Temer assume o poder. Uma de suas primeiras providências em 2017 foi, em apenas uma canetada, extinguir o grupo de cientistas e especialistas do Ministério da Saúde. Na sequência veio o desmantelamento da indústria de saúde no país e da Farmácia do Povo, e que, como consequência teve os constantes aumentos de preços dos medicamentos. Perdemos e muito nossa capacidade de produção nacional no setor de medicamentos e demais insumos, como respiradores. E tudo voltou como era antes no quartel de Abrantes. O país voltou a importar matéria prima dos medicamentos e insumos, elevando os preços conforme a dança da valorização e/ou desvalorização da moeda brasileira e do dólar.


Apesar do fim deste grupo de excelência, os cientistas, especialistas e médicos ainda permaneceram trabalhando no Ministério da Saúde, mas não por muito tempo. Em 2019, no início do governo, Jair Bolsonaro, que desconfia da ciência e tem deixado claro isso em especial desde o início da Pandemia de Covid-19, fez a sua parte para acabar de vez com alguns programas do Ministério da Saúde e demitiu todos os cientistas, especialistas e médicos que participavam do grupo de excelência e que faziam internamente um trabalho de formiguinha para resgatar a independência brasileira na produção de medicamentos e insumos.


Com o início da Pandemia da Covid-19 pudemos perceber a falta que faz esse grupo de excelência e um governo que apenas cumpra o que está escrito no artigo 196 do Capítulo II, Seção II: “Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Por si só, o desrespeito ao Artigo 196 da Constituição Brasileira já seria o suficiente para aprovação de um impeachment do presidente Bolsonaro por parte Congresso Nacional.


Desde o início da pandemia vimos troca de quatro ministros da saúde, falta de um plano nacional para conter a disseminação do coronavírus e agora vemos as consequências das trapalhadas do setor diplomático brasileiro, que nem nos terríveis anos de chumbo, esteve tão desacreditado no exterior. O Brasil sempre foi invejado pela excelência das campanhas nacionais de vacinação, no controle e tratamento da AIDS, com distribuição gratuita de medicamentos por doentes após quebra da patente dos remédios... e agora José? Agora, depois de xingar e brigar por meio de redes sociais com a China, do desrespeito a tratados internacionais, estamos recebendo doses de vacina contra a Covid-19 a conta gotas.


Não espere você, caro leitor, receber esta tão sonhada picadinha no braço antes de 2022. Do jeito que a carruagem anda, estamos à deriva dos humores do comandante do Planalto e sua gangue. Falta um Plano Nacional de Vacinação sério, planejado nos seus mínimos detalhes como a logística de distribuição para estados e municípios. Tudo está sendo feito a toque de caixa, no arroubo do momento. E esta situação já causa insegurança na população. Enquanto o 1% mais rico desse país e alguns que estão no poder dão seu jeitinho para imunizar a si próprio e seus familiares, nós, maioria da população, em especial a de baixa renda, teremos que esperar a nossa vez, rezando para não contrair a doença no ônibus, trem, metrô, no trabalho.


Em tempo: Fique em casa se puder e se tiver que sair, use máscara, evite aglomerações. Vamos ter um pouco mais de paciência para podermos sair e encontrar os amigos em um bar, ir à uma balada, à praia, viajar. Enfim, se cuide. Essa doença não é brincadeira e cuidado ainda maior devemos ter porque o barco chamado Brasil está à deriva desde 2016.


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