• Marcus Vinícius Beck

Brevidade poética

Entrevista

Professora de Literatura da UFG lança ‘um livrinho cheio de clichês ácidos’ em que fala sobre o amor em tempos de pandemia

Livro de poesias da escritora Tarsilla Couto de Brito - Fotos: Camilla Angélica/ Divulgação


Em “Sentimentos Carimbados”, obra lançada pela editora Goiânia Clandestina, a poeta Tarsilla Couto e Brito diz que “um sentimento gravado/ na matriz metálica da razão/ nos faz acreditar em cada coisa”. Os versos, concisos e telegráficos, abordam a peste que mudou os valores da civilização ocidental: a pandemia de coronavírus. São palavras que, segundo a autora, podem ser entendidas “como um fósforo que se risca para ver a chama apagar nos limites dos dedos queimados”.



Ao lê-las, guardadas as devidas proporções, somos convidados a ingressar numa viagem poética em que desembarcamos nos anos 1970. Talvez porque “Sentimentos Carimbados” seja uma obra concebida à mão, como aquelas que Ana Cristina César distribuía pelo Rio de Janeiro. Tarsilla passou 30 poemas para o artista gráfico Guga Valente, que lhe encorajou a produzir o livro nesse formato. Os sentimentos carimbados, portanto, são muito mais do que um caderno de folhas grampeadas.


“Então o livro continua sendo um folheto, mas costurado à mão; continua sendo simples, mas tratado com qualidade – na escolha do papel do miolo, na disposição dos poemas na página em branco; continua sendo carimbado e resolvi transformar isso em matéria, pois há carimbos de verdade espalhados por todo o livro”, afirma a poeta.


Professora de Teoria Literária do curso de Letras da UFG, Tarsilla também escreve para o Ermira Cultura, webjornal no qual assina a coluna NoNaDa. Ela tem, digamos assim, uma relação estritamente intensa com a escrita, praticando-a em três níveis e diferentes maneiras: na sala de aula, na crônica e na poesia. E reflete: “somos treinados para pensar que uma é obrigatoriamente mais criativa e mais livre que a outra.”


Tarsilla lança amanhã, às 20h, no instagram da editora Goiânia Clandestina, a obra “Sentimentos Carimbados”. O livro sela ainda a inauguração do Besouro Ateliê Gráfico, da editora goiana. Confira, a seguir, a entrevista que a poeta deu ao Jornal Metamorfose sobre seu livro, processo criativo em meio à pandemia de coronavírus e as particularidades das diferentes formas de exercitar a linguagem:


Jornal Metamorfose - A obra “Sentimentos Carimbados” extrai do cotidiano pandêmico questionamentos sobre sentimentos “gravados na matriz metálica da razão”. Quando nasceu a ideia de organizar um livro com versos tão potentes quanto urgentes?


Tarsilla Couto de Brito - Comecei a escrever esses versos em junho do ano passado, o ano zero da era pandêmica. Como muita gente, o medo, a tristeza, o isolamento, a raiva advinda com a tomada de consciência de estar vivendo a conjunção covid-desgoverno começaram a me afetar. Percebi que esses sentimentos tinham muito de clichê, mas o clichê pode ser muito poderoso quando transformado em ironia.


Assim os poemas foram surgindo aos poucos, como uma tentativa de dar forma a algo que nos atinge e que, no entanto, poderia passar como “normal”. Porque houve uma tentativa de normalização dessa situação absurda. Encontrei na forma epigramática, curta, contida aquilo que poderia fazer do clichê um jeito de rir de mim mesma, de chorar com os outros, de fazer das palavras uma seta no coração do instante. Uma tentativa de perturbação mesmo. O verbo acabar, conjugado em várias temporalidades, foi me conduzindo para esses questionamentos que fazem do amor uma metáfora inusitada para o fim – fim do mundo como estávamos acostumados a entender, fim da esperança, fim da vida.


JM - O projeto gráfico do livro remete às obras lançadas pela chamada Geração Mimeógrafo, com uma edição artesanal e acessível. Por que essa escolha estética em detrimento de designers arrojados?


Tarsilla -A primeira ideia foi transformar o conjunto desses sentimentos em um fanzine. Os poemas são curtos, são “carimbados”, ou seja, muito bem conhecidos, por isso pensava que a estética mais adequada seria esta, a do folheto, a da reprodução rápida. Então passei os 30 poemas para meu querido amigo e artista gráfico Guga Valente, que me encorajou a produzi-lo nesse formato. A arte da capa é dele. Mas antes de termos uma capa, entendi que os sentimentos carimbados poderiam ser mais do que um caderno de folhas grampeadas.


Ao mesmo tempo, não queria que perdesse esse efeito de coisa feita à mão. Assim é que procurei o Mazinho, poeta e editor do Goiânia Clandestina, e propus a publicação artesanal. Então o livro continua sendo um folheto, mas costurado à mão; continua sendo simples, mas tratado com qualidade – na escolha do papel do miolo, na disposição dos poemas na página em branco; continua sendo carimbado e resolvi transformar isso em matéria, pois há carimbos de verdade espalhados por todo o livro. Enfim, temos agora esse objeto: um livrinho cheio de clichês ácidos, que marcam o papel como a pandemia marca o corpo de cada um de nós.


JM - Os poemas que compõem “Sentimentos Carimbados” são em certa medida telegráficos e chamam atenção pela concisão, que nos leva a refletir sobre assuntos pertinentes ao mundo pandêmico. O que lhe inspira em sua escrita poética?


Tarsilla - Não sei se, para mim, se trata de inspiração. Sei que cada livro tem uma vida própria; tem forma e tem conteúdo, tem um conteúdo buscando desesperadamente uma forma para ganhar vida. Essa busca da forma passa, por um lado pelos poemas que já li, minha biblioteca mental, que me dá modelos, o que resulta sempre em deturpação. De outro, tem uma realidade que me afeta, um jeito de sentir e pensar determinados acontecimentos da vida pessoal e social, sendo o social muito pessoal para mim.


O que orientou o formato dos poemas nesse caso dos “Sentimentos Carimbados”, isso que levou os poemas a serem tão curtos ao ponto de alguns não passarem de uma linha, foi a sensação de estar acuada, restrita, contida por uma força maior (essa pandemia desgovernada) que eu não conseguiria vencer. Dei-me por vencida, sentindo-me sem força, mas sobrava, ou me assombrava, uma certa intensidade nessa impotência. Daí a escolha pela brevidade: rápidos, irônicos e doloridos. Penso nesses poemas como um fósforo que se risca para ver a chama apagar nos limites dos dedos queimados.


“Sei que cada livro tem uma vida própria; tem forma e tem conteúdo, tem um conteúdo buscando desesperadamente uma forma para ganhar vida”

JM - A poesia, entre suas atribuições, é o experimento da linguagem com um propósito artístico. Quais seriam os rumos da poesia numa sociedade conectada como a nossa?


Tarsilla - Não sei. Como digo em um dos poemas do livro, brincando de Murilo Mendes, que gostava de brincar de autor apocalíptico: a poesia sopra onde quer. E se um dia ela quiser parar de soprar?


JM - Além de ser poeta, você também é colunista do jornal cultural Ermira e leciona literatura na Universidade Federal de Goiás (UFG) no curso de Letras. Quais são as diferenças da prática artística da escrita ao colunismo e à sala de aula?


Tarsilla - De fato, são três exercícios de linguagem diferentes. Somos treinados para pensar que uma é obrigatoriamente mais criativa e mais livre que a outra. E é claro que chegamos a colocar isso em prática, transformando a sala de aula em um exercício muito formal até o nível do esvaziamento. Mas eu gosto de pensar que a sala de aula, o diálogo com as pessoas que ali se encontram, deva ser tão livre e criativo quanto a escrita de um poema ou de uma crônica.


Lançamento ‘Sentimentos Carimbados’


Autora: Tarsilla Couto e Brito

Editora: Goiânia Clandestina

Gênero: Poesia

Quando: Amanhã, às 19h

Onde: Instagram da Goiânia Clandestina



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