• Lúcia Braga

Cúpula de Bolsonaro e Biden pela democracia

Internacional

Biden em seu ataque à China escolhe o presidente Jair Bolsonaro como o grande representante da democracia ocidental

Biden à esquerda e o Secretário de Estado Antony J. Blinken à direita, em reunião virtual com os líderes mundiais. Foto State Department/Reprodução


Mesmo tendo acabado, a estranheza de 2021 segue surpreendendo. Um ano que se iniciou a partir da bizarrice que foi 2020 e 2019 mantém as suas tendências: imperialismo, genocídio, boas piadas na internet e uma estética gritante. Se antes falei que a crise no Brasil é principalmente estética, ganho coragem agora para afirmar que a crise estética é fundamental para o neo imperialismo, e é a partir dessa estética tão habilmente construída que assistimos ao longo do século XXI uma guerra política e semiótica que os EUA declararam à República Popular da China.


É um processo difícil e arriscado o de encontrar relações entre eventos que a primeiro olhar parecem separados, assim que nascem teorias da conspiração; mas também é assim que se acontecem fenômenos políticos. Creio que é ingenuidade demais em um mundo monopolizado e que comercializa informação, imaginar que grandes nações e grandes conglomerados não coordenam suas ações. Os anos 1960 nos ensinaram - ou pelo menos deveriam - isso.


Não é recente o cerco ianque aos Império do Meio, contudo a última década é mais representativa, com a China criando contrapontos políticos e monetários¹ à ONU. O BRICS é um dos exemplos mais claros, não à toa uma das primeiras organizações a serem negligenciadas após o golpe à Dilma Rousseff, em 2016. Tanto por questões conjunturais e por diversos ataques, a América do Sul se torna cada vez menos protagonista dessa grande disputa, agora chefiada por Biden e Xi Jinping, as eleições de 2022 serão essenciais para determinar o papel do Brasil e do Mercosul no decorrer de um conflito que ainda não temos como dizer quão declarado será; se será uma Guerra Fria, uma Guerra Quente ou somente Morna.


O passo a passo estadunidense é claro, o mesmo que foi realizado ao longo do século XX com o Plano Condor e que se seguiu com as diversas invasões marcadas especialmente no período Bush. Não se pode criar a ilusão de que somente porque é em outro centro geográfico (agora o sudeste asiático) que a estratégia mudou. Ao invés de Plano Condor o nome agora é Guerra Híbrida: Myanmar, Taiwan e Cazaquistão são provas disso. Enquanto a China consegue expandir seus laços extracontinentais, a estratégia ianque é fazê-la forçar a mão em seus vizinhos. E essa maquinação foi declarada em dezembro de 2021, com o “Summit for Democracy”.


Um evento de baixíssima repercussão se não fosse a sua importância política. Ocorreu no mesmo dia do lançamento do novo livro de Elias Khalil Jabbour “China, O Socialismo do Século XXI”, sendo que tal live de lançamento teve mais visualizações e figuras prestigiosas do que o evento de Biden, como Dilma Rousseff e Silvio Almeida.



A cúpula pela democracia teve líderes de mais de 100 países presentes e 275 participantes no total, incluindo imprensa e intelectuais; e é claro que Joseph Robinette Biden Jr não chamou ninguém menos do que Jair Messias Bolsonaro para presidir tal evento, que representa a preservação dos direitos humanos, liberdade (oh, America!) e justiça. China nem Rússia foram convidadas.


Poucas coisas são mais simbólicas do que ter o presidente brasileiro presidindo e representando o conceito de democracia estadunidense. A estética é uma arma poderosíssima do neoimperialismo, e ao que indica ela é extremamente ocidentalizada, consumista e quer ser hegemônica.


². “Por meio de suas intervenções oficiais, líderes de 100 governos anunciaram uma ampla gama de compromissos e promessas de apoio à renovação democrática centrados nos três temas da Cúpula:


(1) fortalecimento da democracia e defesa contra o autoritarismo;

(2) combate à corrupção; e

(3) promover o respeito pelos direitos humanos.


Estes incluíram compromissos para combater os esforços para combater a desinformação; fortalecer a integridade eleitoral; promover melhor os direitos humanos de ativistas, mulheres e meninas, jovens, pessoas LGBTQI+, pessoas com deficiência e populações marginalizadas; abordar os fatores de desigualdade e iniquidade; fortalecer a aplicação de divulgações financeiras e fechar outras vulnerabilidades no sistema financeiro que são exploradas por atores corruptos; e investir no desenvolvimento, uso e governança de tecnologia que promova a democracia e os direitos humanos. Participantes não governamentais – entre eles líderes ativistas e dissidentes – ecoaram apelos por novos compromissos nessas áreas e imploraram aos governos participantes que enfrentem o autoritarismo, a cleptocracia e a repressão.”


É a segurança pública pautada globalmente pelos EUA. Segue no documento da Casa Branca:


“De acordo com os temas da Cúpula, esses esforços se concentrarão em cinco áreas de trabalho:


1) Apoiar uma mídia livre e independente;

2) Combate à corrupção;

3) Fortalecer os reformadores democráticos;

4) Tecnologia avançada para a democracia; e

5) Defender eleições e processos políticos livres e justos”

E é claro que 2022 se iniciou com diversas declarações da embaixada dos EUA em relação a independência de Taiwan, acentuação na crise da Ucrânia e uma revolução colorida no Paquistão. O problema das pautas do Summit ianque não é somente o quão genéricas são, é a autoridade que um evento desses pode dar para ações em outros territórios.


A China vem desde a metade dos anos 2000 se colocando como uma alternativa monetária e política à ONU, será que agora assistimos a sequela? O Império Contra Ataca?


O declínio do Império Americano está sendo lento e decadente, e está tendo diversas dificuldades em se adequar a um novo modelo de guerra política. Os EUA dependem de uma guerra declarada para conseguirem se impor internacionalmente e também para dar algum tipo de escoamento para o seu excesso produtivo, a crise de oferta produtiva é real para os ianques, e é claro que escolhem o seu capacho mais renomado para encabeçar tal momento.


Esse ano mal começou e já veio com tudo, não será simples para nós do campo progressista navegarmos, e lhes garanto, o mundo inteiro acompanhará as eleições de 2022 no Brasil, pois são elas que podem dar o tom do retorno do BRICS ou mais cabeça baixa para uma onda de guerras democratas.



 

¹. Aqui vale lembrar de Lênin: para destruir um país deve-se destruir sua moeda. A internacionalização do renminbi, especialmente para expandir os esforços da Nova Rota da Seda têm sido uma preocupação para os grandes países asiáticos, especialmente os aliados aos EUA.


². Fonte: https://www.whitehouse.gov/briefing-room/statements-releases/2021/12/23/summit-for-democracy-summary-of-proceedings/

Gostou do texto?

Com a ascensão do fascismo no Brasil, ataques à mídia se tornaram recorrentes. Documentos perdidos, subnotificação de mortos, censura nos dados sobre queimadas e desmatamento, retirada de direitos duramente conquistados: o contexto da realidade está sendo censurado nos monopólios midiáticos. Venha lutar com a gente! É com seu apoio que conseguimos manter o Jornal Metamorfose no ar. 

Apoie a liberdade de imprensa, ela só é possível com você, caro leitor.