• Lee Aguiar

Caça às fogueiras cósmicas

Doce Viagem

Goiânia, em março de 2020, na primeira semana de pandemia. Tudo parecia o apocalipse. Foto: J.Lee / Arquivo Pessoal


Entre círculos de fogo nos facínoras que assassinaram povos afro-indígenas no começo dessa distopia que chamamos de opressão colonial. Entre os dias de sol e frescor e as noites de guerra e destruição interna. Não podemos definhar em vida. Nem aceitar as amarras cristalizadas de ódio.


Penso todos os dias no eixo que me mantém em pé. Entre as bolhas de energia que me obrigam a continuar correndo, percebo feixes de luz refletidas nos olhares perdidos das almas dançantes. Sempre irei saudar os povos alegres que lhe acompanham, meu caro poeta.


As nuances das madrugadas me cercam de encruzilhadas malditas. Por lá, as gargalhadas fragmentadas se unem em relâmpagos de consciência. Caminho com fé, e sabes disso melhor que muitos por aí, descalça, perpasso pelas estradas que se levantam em terra castanha realçada pelo laranjar dos céus de outrora.


Queria lhe contar que encontrei olhos de maresia em tempestades de areia, me sinto em um portal para o magma da Terra. Escreverei cartas e mais cartas sobre como vivenciar aquilo que sempre pregamos, meu caro. Me perco, claro, todos os dias, entre abismos de mim mesma e motivos que me engolem por inteira.


Curiosamente, me relembro sempre das frases observadas nos silêncios capturados naquele tempo perdido. Achavamos tanto que não consigo ainda entender o que era realidade e o que já se perdia em tsunamis de ilusão autoritária. Viagens perduram o espaço-tempo e caem da parede da memória por falta de cola.


Venho rastreando os vestígios que ainda me sobraram na esperança de reconectar os passos, só assim terei de volta minha unicidade. Me perco, meu caro poeta, me perco entre olhares tais como você mesmo já presenciou naqueles tempos. Tenho medo, não nego. Será que um dia irei esquecer de mim? Se tais fatos dramáticos - porém, nem tanto - acontecerem, buscarei em teus poemas pervertidos o sentimento da eternidade.


Não lhe desejo nada além da liberdade perante a mãe que nos acolhe. Que as vozes lhe sejam malemolentes e que nos tempos de inércia do renascimento, você consiga enxergar os reflexos que o mar sempre tem para lhe mostrar. Viva as existenciais resistentes ao fascismo. Seguimos, sobrevivemos.


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