• Marcus Vinícius Beck

‘Aqui é a Chernobyl do centro do Brasil’

Música

Catuaba Sessions agitou no último sábado (4) Centro Cultural Martim Cererê com shows de bandas como Señores e Almirante Shiva, entre outras atrações

Palco do Catuaba Sessions no mês passado (foto: reprodução)

Apesar do título desta resenha citar um trecho da música “Pedro Chernobyl”, da banda punk goiana Señores, não é necessariamente sobre isso que quero falar. Após experiências intensas em diversos aspectos, consigo parar um pouco para esfriar a cabeça, acender um cigarro e te falar sobre a força da cena roqueira de Goiânia - cada vez mais tenho convicção de que a cidade continua sustentando o equivocado rótulo de ‘capital da música sertaneja’ por insistência da indústria fonográfica e dos meios de comunicação.


Contudo, desconfio que você provavelmente deve pensar que sou uma espécie caricata de jornalista cultural (vai saber, não é mesmo?) deste Metamorfose. Ora, que tipo de sujeito que trampa em um veículo de comunicação conhecido na imprensa goiana vai cobrir um festival de música (relevante na cena udigrudi, parafraseando Glauber Rocha) e não assiste todo o evento, hein? Aff! Mas tenho de dizer que acompanhei do começo ao fim os shows da 4º edição do festival Catuaba Sessions, que rolou no Martim Cererê, neste sábado (4).


Minha percepção musical (invariavelmente guiada pelo rock clássico e cruzão da era do ácido, conforme já comentei neste espaço algumas vezes) fodeu de vez quando eu vi a banda punk goiana Señores subir ao palco. Quando o guitarrista Rafael Saddi mandou os primeiros acordes do riff clássico de “Recua polícia”, lembrei-me de momentos emocionantes (e de luta) da minha vida, como os dias de Rádio Libertária, em 2016. Trata-se de uma música cuja ideia - acima de tudo - é o descontentamento em relação aos fardados.


Um dos momentos mais interessantes da apresentação do Señores - ou talvez o mais interessante, tirando a música que rolava no palco - foi quando a galera fez a tradicional roda de empurra-empurra. Confesso que participar dela é uma experiência fundamental de vida, coisa que todo mundo deve provar ao menos uma vez na durante um show de punk, algo que tem o poder de te transformar... Sim, meus caros, se ainda não ficou claro o que quero dizer aqui, vamos lá: apenas sinta o que é entrar nessas rodinhas, cara!


Do início ao fim, o público pulou e cantou músicas que já estão na ponta da língua dos devotos à cena underground da Capital goianiense. É verdade que às vezes temos várias reclamações sobre a monotonia existencial que paira sob esse rolê em específico, mas não adianta negar que Goiânia possui uma tradição roqueira e que eventos, como o Catuaba Sessions (cujo line-up contou com bandas como Sheena-Ye, Almirante Shiva, Señores e Hellbenders), devem acontecer cada vez mais em nossa cidade.


Voltando a falar de música: um som que me chamou bastante a atenção foi o dos brasilienses do Almirante Shiva. Em memória a morte precoce do baixista Pedro Souto, em 2017, vítima de aneurisma cerebral, os músicos colocaram a galera para dançar com grooves e riffs sutilmente psicodélicos. Então por conta disso, arrisco-me a sentenciar: foi uma das melhores apresentações da noite - taóquei, talvez o pessoal do Planalto Central tenha ficado atrás apenas dos goianos do Señores, que após duas décadas de punk merecem respeito.


Rock goiano


Para além de Almirante Shiva e Señores, destaco os goianienses do Sheena-Ye. Não que o som dos caras contemple satisfatoriamente minha preferência estética, porém é inegável que eles possuem uma quantidade boa de fãs espalhados pela Capital. E isso ficou evidente quando os músicos subiram no palco: homens e mulheres, deixando-se levar pela musicalidade do grupo, cantavam as canções como se fossem seus autores. As letras perambulam em torno de boêmia, de relacionamentos fodidos e de pés na bunda...


Como a entrada foi de graça até às 19h e depois custava 10zão, era recomendável que você ficasse no Martim Cererê até o horário em que suas bandas favoritas tocassem, se quisesse economizar um trocado. Acontece que o público não colou em cheio como imaginávamos num primeiro momento, e quando Cyber Croatoan, Murder e Armum tocaram, poucas pessoas os assistiram. Sabemos que a galera costuma coligar nesses eventos por volta das 22h, ainda que seja num sábado à noite e não haja rigorosamente porra nenhuma para fazermos na cidade.


Mais para o final, foi possível notar ainda uma dose de poesia ao vermos metaleiros, hipsters, maculelês e um ou outro fã de rap. Neste instante, o Martim estava abarrotado de gente aguardando para ver o seu artista preferido e - logicamente - quando as bandas goianas de rock clássico autoral The Galo Power, hard rock Hellbenders e heavy Metal Mugo tocaram a galera já estava em peso.


Antes que eu me esqueça, o preço da breja estava acessível. Se você é uma pessoa que curte beber bem, havia a possibilidade de aderir à promoção de chope (quatro pilsen por 20 pila). A dose de uísque estava a R$10, e, como o rolê começou a encher após às 22h, não havia aquela fila chata que costuma incomodar bebuns de diversas orientações etílicas. Para saciar a larica, a esfirra custava R$ 5.


Pelo conjunto, Catuaba Session foi interessante e descaralhante! Por mais iniciativas assim!