• Marcus Vinícius Beck

Cidadão Mank

Cinema

Disponível na Netflix, filme homenageia escritor que brilhou na indústria americana como roteirista de clássico do cinema


Ator britânico Gary Oldman no papel de Herman J. Mankiewicz em ‘Mank’ - Foto: Divulgação/ Netflix



Houve um tempo no qual escritores enveredavam pelo cinema pra ganhar uma grana: John Fante, Scott Fitzgerald, William Faulkner e... a lista vai em frente, pois para escrever romances inventivos a barriga não pode roncar.


Mas ninguém, e olhe que eu citei gente como Fitzgerald (“O Grande Gatsby”), Fante (“Pergunte ao Pó”) e Faulkner (“O Som e a Fúria”), foi tão aclamado por seus roteiros quanto o crítico teatral e dramaturgo Herman J. Mankiewicz (1897-1953), que agora tem a vida passada a limpo na cinebiografia “Mank” – seguramente um dos melhores filmes de 2020, candidato a faturas estatuetas em roteiro, direção, fotografia, etc.


Dirigido pelo americano David Fincher, a obra é estruturada numa narrativa fragmentada que foca no período em que Mank criou o enredo de “Cidadão Kane”, ganhador do Oscar de 1941 na categoria Melhor Roteiro. Foi esse filme também que lhe provocou rusgas com Orson Welles, já que o escritor – numa penumbra financeira danada – deixou de assinar o script, e voltou atrás ao perceber que isso era um erro. Claro que Welles ficou furioso com a postura do roteirista: ele queria dirigir, produzir, atuar e, por que não?, escrever o próprio texto.


A obra, realmente, era revolucionária para os padrões da época: história não-linear, a partir de flashback, que retrata um magnata inspirado no barão da mídia William Randolph Hearst, nos anos 20... O fio condutor é um jornalista que está investigando o significado da última palavra dita por ele antes de morrer. “Cidadão Kane” é citado como uma das melhores obras do cinema. Welles, um gênio. E Mank?


Mank? Foi simplesmente o cara para o qual a famosa crítica norte-americana Pauline Kael dedicou o ensaio “Raising Kane (1971)” publicado na revista The New Yorker, ora! Kael, conhecida pelo estilo autoral com que escrevia análises fílmicas, dizia que a mente genial por trás de “Cidadão Kane” não era Welles, e sim Mank.


E cá entre nós, a revolução estética e tudo o mais o que o longa representa partiu dele.


Trailer de 'Mank' - Foto: Divulgação/ Netflix



Mas, vamos por partes. Pra começar: “Mank” – primeiro filme de Fincher em seis anos – é uma bela homenagem a um dos gênios ofuscados da era de ouro hollywoodiana, nos anos de 1930. O personagem é instigante: teve seus filmes proibidos na Alemanha Nazista por Joseph Goebbels e tinha uma língua ferina que quase sempre lhe colocava em situações embaraçosas, mas nada que lhe tirasse dos trilhos do deboche e sarcasmo. Sim: o diretor optou assertivamente por levar a vida de Mank ao cinema sem esquecer-se que o personagem em questão era, de fato, um sujeito do cinema.


Por isso, desde o primeiro segundo, fica óbvio que a intenção de Fincher não é realizar um filme documentalmente bem embasado ou que tenha a pretensão de ser “baseado em fatos reais”. Mas o roteiro de Jack Fincher bota a feitura de “Cidadão Kane”, cujas quebras narrativas entre o painel traçado de Hollywood com a do próprio filme, como se fosse parte de um texto sendo escrito ali na hora - e que o espectador está assistindo a obra ganhar vida enquanto vê o protagonista lutar contra o alcoolismo.


Cada parte na história é pontuada com letras nas quais as fontes remetem a máquinas de escrever e, por conseguinte, ao ofício de lapidar bons textos. Tarefa pela qual, aliás, Mank era tido em alta conta pela trupe do cinema. E Hearst, o magnata alvo da sátira de “Cidadão Kane”, abre alas para a discussão da dominação e as relações de poder.


Se Mank era uma figura que repugnava o totalitarismo nazista, naturalmente o ápice da crítica aos endinheirados desprovidos de bom-senso humano e social ganha espaço enorme na trama quando o cinema (personificado pelas figuras de Mayer e Thalberg) e da imprensa (Hearst) se somam à política, no instante em que vemos a disputa do escritor Upton Sinclair pelo governo da califórnia, em 1934, ser alvo de fake news de endinheirados que não pensam duas vezes em mudar o curso da História.


No entanto, um ponto me deixou com um nó na cabeça: por que Mank, que por causa do contrato que assinou e por isso não deveria ter crédito no filme, resolveu que assinar o roteiro? Como foi a briga dele com Welles? O filme finaliza e não conseguimos obter as respostas para esses questionamentos. Vem apenas um depoimento ácido à imprensa de Welles, quando estava no Rio de Janeiro gravando um documentário, e aí termina com um comentário também mordaz do escritor.


Mas, tirando isso, “Mank” é um belo filme que, sim, merece ser visto. Certamente está entre os cinco melhores produzidos neste ano.


‘Mank’

Diretor: David Fincher

Duração: 2h11

Gênero: drama

Disponível na Netflix

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