• Rosângela Aguiar

Cineasta Guarani Kaiowá denuncia genocídio

Cine Ouro Preto

Jhonn Nara Gomes, da aldeia Guairivy, vizinha à região do território Amambai onde ocorreu conflito explica que os Guarani Kaiowá querem o resto do território demarcado pelo Governo Federal

Foto: Jackson Romanelli


“A Polícia Militar do Mato Grosso do Sul não tem ordem judicial de reintegração de posse e foram até o local de retomada do território dos Guarani Kaiowá, assim, do nada”, conta, revoltada, a cineasta da etnia Guarani Kaiowá, Jhonn Nara Gomes, que participa com um filme na 17 CINEOP.


Ela denuncia que o confronto entre jovens indígenas Guarani Kaiowá e a PM resultou em três mortes, três desaparecidos (uma criança, uma mulher e um homem) e seis feridos, diferente do que tem sido divulgado. Segundo Jhonn Nara, essa informação foi repassada na noite de sexta-feira, 24, no Grupo dos Caciques pelo whatsapp.


Ela não conseguiu dormir esta noite em função da preocupação com os parentes que vivem na aldeia Amambai, vizinha onde ela vive, que é a aldeia Guairivy. A área demarcada no documento em posse dos povos originários Guarani Kaiowá constam mais de três mil hectares de reserva. “Os jovens descobriram em Brasília que nosso povo está utilizando apenas mil hectares”, explica Jhonn ao Jornal Metamorfose.


Esta não é a primeira ação de retomada do território de Guapoy, no município de Amambai (MS), e com confronto com policiais militares. O território Guapoy faz parte da aldeia Amambai e é uma área tradicional invadida por fazendeiros.


A região é a segunda maior reserva do Mato Grosso do Sul com uma população de quase 10 mil indígenas. A ação de retomada foi realizada no dia 23 de junho no período da tarde e a PM e fazendeiros invadiram a área na manhã de sexta, 24, gerando conflito armado. Oficialmente se fala em uma morte e seis feridos, mas a cineasta Jhonn Nara garante que são muito mais e teme pelos parentes. “Somos todos de uma mesma família Guarani Kaiowá que vivemos em aldeias próximas. A casa da minha mãe fica na Amambaí, próximo do local de retomada e ela teme pela própria vida e de meus irmãos em função da truculência da PM”, conta ao JM.


“Hoje (25/06) estão sendo enterradas três vítimas e meu coração está partido, estou muito triste e preocupada, porque este tipo de violência já aconteceu comigo, quando mataram meu avô, Eunizio Gomes em 2011, da mesma maneira”, relembra com pesar a cineasta. Segundo ela, o avô foi assassinado com três tiros calibre doze no dia em que a tribo estava retomando parte do território do Guaiviry. Neste dia 40 pistoleiros foram contratados por fazendeiros da região para evitar a retomada do território Guaiviry. Passados mais de dez anos nada foi feito, ninguém foi punido. E agora acontece a mesma coisa. O corpo do meu avô nunca foi encontrado”, denuncia.


Os povos originários querem apenas que se respeite a demarcação dos territórios e que esta ação seja efetivada. “A gente não quer o Brasil inteiro, a gente quer aquele lugar mais sagrado dos nossos antepassados. Cada aldeia tem seu lugar sagrado e a gente quer é que esses fazendeiros que se fazem donos das terras que nos dê pelo menos o lugar sagrado”, clama a cineasta.


E ela dá um recado aos não indígenas: “Parem de falar que índio não quer trabalhar, que é preguiçoso. Parem com a discriminação. A gente escolhe lugar para fazer roça e também escolhe área para brotar ali remédio e outras coisas como a Mãe Terra quiser”.


Crédito da imagem: APIB


Nota de Pesar


A direção da 17a CINEOP, ao saber do conflito no Mato Grosso do Sul entre a PM e a etnia Guarani Kaiowá, divulgou uma nota de pesar e de apoio à constante luta dos povos originários por seus territórios sagrados.


NOTA DE PESAR - UM BASTA AO EXTERMÍNIO INDÍGENA


A Universo Produção e toda equipe envolvida na realização da 17ª CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto declara seu pesar pelos acontecimentos ocorridos em função dos conflitos entre Guarani Kaiowás e policiais militares desde quinta-feira (23/06), em Amambaí, no Mato Grosso do Sul.


Em meio à celebração e valorização das produções dos cinemas indígenas durante a 17ª CineOP, todos os participantes do evento se solidarizam com as famílias e amigos, lamentando profundamente as mortes e desaparecimentos dos Guarani Kaiowás.


Nossa solidariedade e apoio aos povos originários. Chega de conflito, chega de sangue. Vamos respeitar nossos indígenas. Vamos dar as mãos. Somos todos irmãos.



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