• Metamorfose

Cinema e TV: uma simbiose

Cultura

No ano em que se completa sete décadas da chegada da televisão no Brasil, Mostra de Cinema de Ouro Preto discute sua força e hegemonia cultural na sociedade brasileira

Nome cultuado da nouvelle vague, cineasta Jean-Luc Godard usou a televisão para fazer experimentações estéticas - Foto: Reprodução



Marcus Vinícius Beck



Um dos ícones da nouvelle vague, o cineasta Jean-Luc Godard tinha carinho pela televisão. “Pessoalmente, eu não ficaria triste se os filmes deixassem de existir. Eu faria televisão. TV transmite coisas”, disse o diretor de “O Desprezo” (1963), filme que alvoroçou a crítica por causa da nudez da atriz Brigitte Bardot. Sujeito antenado que era, Godard sabia que o potente meio de comunicação cumpriu papel crucial para que nomes de peso da sétima arte – além dele próprio – concebessem suas inventivas obras, experimentando estéticas e criando estilos. A lista reserva espaço para gente essencial na história do cinema: Alexander Kluge, Alfred Hitchcock, Roberto Rossellini e Jean Renoir.


A TV, ao contrário do que se acredita, não é um espaço infestado de banalidades e futilidades. Mas, em se tratando de Brasil, o cinema estrangeiro – especialmente o hollywoodiano, com suas comédias repetitivas – e a telenovela formaram o imaginário das gerações que habituaram-se a consumir as imagens televisivas, assim como os telejornais detiveram a narrativa política e social do passado e detém a do presente. E de olho na relevância da televisão para a sociedade brasileira e atenta aos 70 anos de sua chegada ao País, a temática histórica da 15ª Mostra de Cinema de Ouro Preto discute sua hegemonia no imaginário popular, além de sua representatividade cultural e sua memória.

“A TV se tornou um campo que absorve quase toda a produção audiovisual. A multiplicação de telas realizou uma parcial integração entre mídias e criou novas disputas entre o antigo formato televisivo, com canais de TV aberta e paga, e os serviços de streaming de grandes corporações internacionais”, afirma o curador Francis Vogner, responsável pela temática histórica da mostra, que acontece gratuita e virtualmente entre os dias 3 e 7 de setembro. Ele argumenta também que, embora vivamos na era digital, a televisão ainda tem serviços importantes para prestar à população. “Não é só uma questão de mercado, mas, sobretudo, de cidadania”, diz.


Apesar de sua importância em guardar nossa memória e dar voz aos nossos anseios, o cinema brasileiro penou para ter inserção na televisão. Produções de curta e longa-metragem sempre foram poucas exibidas nas grades de programação dos canais abertos e fechados. Com o Canal Brasil, há de se levar em consideração, isso mudou, mas ainda é pouco: a prova dos nove é tirada ao olharmos para a trajetória da TV no País. Se nos últimos 60 anos ela consagrou-se como o principal meio de comunicação de massa, o audiovisual não gozou da mesma popularidade de sua costela imagética mais famosa. E, com esse cenário desastroso em volta, a sétima arte corre riscos.

A presença enxuta de produções cinematográficas brasileiras nos catálogos comerciais de conteúdos sob demanda (os populares streamings) justifica-se com o trabalho de preservação da memória audiovisual. Esses conteúdos são lançados por arquivos e cinematecas, além de formas sem controles legais, como YouTube e sites de compartilhamento. “Ao longo das últimas sete décadas, o desenvolvimento tecnológico e a adoção de novos formatos e fluxos para gravação, reprodução e arquivamento têm como consequência um colossal desafio para a gestão e preservação dos conteúdos”, dizem os curadores da Temática Preservação.


TVDO


Embora a televisão forme parte importante da nossa memória cultural, o trabalho de revitalização em torno da preservação do patrimônio televisivo deixa a desejar. Acervos são destruídos, leiloados e escamoteados. Isso repete-se desde a TV Tupi, primeira emissora do País fundada em 1950 pelo magnata Assis Chateaubriand, cujo material é mantido pela Cinemateca Brasileira, em crise há anos, mas agora acentuada pelas cabeças que se chocam estrepitosamente no seio da Secretaria Especial da Cultura - funcionários da entidade foram demitidos na última semana. Ali estão as primeiras novelas, os primeiros telejornais, os primeiros programas de entretenimento. Uma tristeza, enfim.


Um das principais produtoras de vídeo nos anos 1980, o TVDO será destaque na Temática Histórica da Mostra de Cinema de Ouro Preto. O grupo, constituído por quatro estudantes de cinema e três de televisão, teve papel crucial na preservação da videoarte produzida no Brasil. “Num momento histórico em que a TV era uma coisa malvista que ninguém queria estudar, esses jovens se uniram para pensar profissional e artisticamente uma produção de conteúdos fora do tradicional”, diz o curador Francis Vogner, da Temática Histórica. Em tempo: a TVDO desafiou o modelo da TV comercial ao dispensar formatos pré-estabelecidos num período marcado pela redemocratização.


Anote aí


15ª Mostra de Cinema de Ouro Preto

Quando: 3 e 7 de setembro

Onde: http://cineop.com.br/

Gratuito