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Cinema versus teatro

CineBH


Mostra começa hoje e discute desafios da produção audiovisual em meio à torrente provocada pelo coronavírus. Na programação, serão 54 filmes de 12 países, além de 20 debates e rodas de conversas


Cena do filme 'Do Pó Ao Pó' - Foto: Divulgação/ Universo Produção



Em meio à pandemia de coronavírus, a fronteira entre cinema, performances, lives, shows e peças de teatro se tornou difícil de ser delimitada: quais os diálogos a serem feitos entre as linguagens artísticas? Arte cênica filmada é audiovisual ou espetáculo teatral? Quais os impactos de aplicativos como Zoom e Meet? Quem nomeia a arte: realizadores ou receptores? Esses são questionamentos que a 14a edição do CineBH – que abre hoje, às 20h, e fica em cartaz até o próximo dia 2 de novembro – se propõe a fazer a partir das relações criadas pelo vírus da incerteza sobre arte e audiovisual.


Para enriquecer e acalorar o debate, o evento deste ano teve a colaboração da crítica e pesquisadora de artes cênicas Daniele Ávila Small. Editora do site “Questão de Crítica”, revista eletrônica especializada em estudos teatrais, Danielle acompanhou as mudanças e discussões que a pandemia trouxe ao cenário artístico, apresentando ao CineBH novas configurações para se utilizar o audiovisual como meio de expressão. Na mostra “Arte viva: Redes em Expansão”, por exemplo, as cinco obras dialogam por meio de linguagens distintas – a maioria das produções foi concebida durante a quarentena.


“O que quase todas trazem em comum, mesmo com resultados tão diversos, é o reconhecimento de que, pelo menos provisoriamente, o audiovisual na era da internet se tornou um meio de passagem obrigatório para a manutenção de uma expressão artística viva”, afirma a curadora. “Por isso”, ela continua, “foi necessário se debruçar sobre suas ferramentas de linguagem e potenciais de exploração”. Os trabalhos selecionados poderiam ser montados para o palco, mas viraram produtos audiovisuais, como o curta-metragem “República”, da dramaturga Grace Passô.

Com uma premissa que mescla distopia e fantasia, o curta provoca sensação de alívio ao fornecer elementos – ainda que por meio da arte – para compreender o inesperado. Ex-cronista do jornal mineiro O Tempo, Grace propõe uma discussão em torno dos sentimentos que assolam a humanidade: é o temor em relação ao momento, a dúvida acerca do futuro, o medo de quaisquer contatos físicos que estão ali na tela... A escritora sempre esteve atenta aos fatos sociais que lhe cercam, razão pela qual sua obra é aclamada.


A atriz Grace Passô em cena do curta 'República' - Foto: Divulgação/ Universo Produção



Segundo Danielle Ávila, que vem abordando essa fronteira entre audiovisual e teatro em sua revista, é inegável que um campo de investigação da linguagem se abriu para convergir as duas formas de comunicação. “O teatro é uma arte que come de tudo. A interação com a internet não é exatamente uma novidade, mas nem de longe imaginávamos que um dia chegaria a haver um protagonismo absoluto – mesmo que temporário – da rede e das ferramentas de audiovisual para a manutenção e até sobrevivência de espetáculo de arte presencial”, analisa a pesquisadora e curadora.


O CineBH conta ainda com outro projeto, o “Museu dos Meninos – Arqueologia do Futuro”, para o qual o diretor e performer Maurício Lima preparou uma obra com cunho social. Sua encenação possui depoimentos de jovens negros da favela Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, que não fazem parte das estatísticas do Mapa da Violência. O trabalho, com fotografias, narração em off, jogos de luz e sombras, reflete – em tempo real – o impacto da violência estatal, agravada pelos efeitos da pandemia. O objetivo é seguir os ensinamentos do crítico André Bazin, contextualizando a obra à sua realidade.


Abertura


A 14a edição do CineBH abre na noite de hoje com a exibição do curta-metragem “Coisas Úteis e Agradáveis”, baseado no conto “As Cartas de Amabed”, escrito pelo filósofo francês Voltaire. Dirigido por Ricardo Alves Jr. e Germano Melo, o filme retrata a história de um indiano que mostra as descobertas de sua religião e o poder transformador do teatro. Trata-se, o texto do pensador do Iluminismo, de uma resposta a uma moda do século 18: a febre dos romances em forma de carta. Como ele não era, digamos, um grande fã desse tipo de escrita, fez uma paródia do gênero.


Inicialmente, o projeto foi pensado para ser montado sob os palcos, mas a pandemia mudou os planos. Além de Voltaire, Germano trabalhou também com textos de Friedrich Nietzsche e Michel Foucault. Ele é autor ainda das peças “Eclipse Solar”, “Dos Venenos o Mais Santo”, “Os Belos Elementos”, “Tudo na Faixa”, “Céu da África”, dentre outros. No cinema, integrou o elenco de “Aquarius”, “Sinfonia Necrópole”, “As Boas Maneiras” e “Elon Não Acredita na Morte”, que foi dirigido por Ricardo Alves Jr.


De acordo com o curador Chico de Paula, o momento em que o CineBH acontece é de materializar aberturas em um contexto “completamente digital”. “Se antes elas eram fortemente marcadas pela presença e proximidade entre os artistas e público, compartilhando um mesmo espaço, agora eles pretendem manter presentes a inquietação e perturbação, aspectos tão naturais das artes vivas”, pondera Chico. “O espaço se amplia, se torna mais diverso, complexo, e também difuso. Precisamos abandonar o conforto e adensar essa linguagem, tão essencial em nosso tempo”.


Serviço

14ª CineBH

Quando: 29 de outubro a 2 de novembro de 2020

Horário da abertura: às 20h

Onde: https://cinebh.com.br/

Gratuito

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