• Metamorfose

Começa um dos principais festivais de cinema no Brasil

15ª Cine OP

Abertura do 15ª Cine OP traz potência negra com reflexão sobre a presença experimental do cinema na televisão brasileira

Ailton Krenak e Tadeu Jungle participaram do debate inaugural da 15ª CineOP


Júlia Aguiar

A 15ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto acontece pela primeira vez virtualmente, em decorrência da pandemia do novo coronavírus. Um dos principais festivais de cinema do país se mantém firme na extensa e plural programação que ocupa a internet entre os dias 3 a 7 de setembro. Na última quinta-feira aconteceu a abertura oficial do evento, com forte presença da narrativa empoderada da negritude em músicas, performances e muita poesia.

A abertura foi uma mistura de vídeo performance em formato experimental televisivo, onde os atores Eda, Costa, Eduardo Moreira e Marcelino Xibil se mesclavam entre poesias, sons e imagens do berço da mostra, a histórica cidade de Ouro Preto, Minas Gerais. A intensa narrativa nos teletransportava para as ladeiras de pedras com 300 anos de história para contar.

“Até quando iremos esperar uma rebelião maior para revolucionar nosso cotidiano”, dizia uma das poesias no decorrer da abertura, que emendou com a belíssima performance da dupla Sérgio Pererê e Mayí. A identidade virtual do festival abriu espaço para um novo ponto de vista sobre a programação, que agora conta com jogo de câmera, luzes e uma intensa relação com a televisão brasileira, tema central dessa 15ª edição do festival.

Qual será o futuro do cinema em tempos tão distópicos? Como usar a ferramenta expansiva da televisão como espaço de formação humana através de conteúdos audiovisuais experimentais? Durante a abertura, várias perguntas foram jogadas para que nós, telespectadores, ficássemos com a pulga do questionamento atrás da orelha. A democratização da mídia, telas e informação foi o grande assunto da noite.

O recorte da 15ª Mostra de Cinema de Ouro Preto foca nas experiências de contra narrativa dentro da mídia corporativa. Comemorando os 70 anos da televisão brasileira, o primeiro debate da mostra contou com o tema “Cinema de todas as telas”, com a presença do filósofo indígena Ailton Krenak, o cineasta Tadeu Jungle e mediação de Francis Vogner e Clarisse Alvarenga.

“O recorte da mostra trás desde a abertura democrática até o fim desse processo que foi nossa democracia possível. Para entender o contexto político, social e midiático que estamos vivendo, necessariamente passamos pela história da televisão”, afirma o curador Francis Vogner dos Reis, na abertura do debate.

Se a televisão era vista de forma antagonista ao cinema, como veículo de exaltação do consumo exacerbado, uma forma audiovisual não artística, a curadoria da Cine OP nos mostra que na realidade a televisão é um canal de reprodução audiovisual. Na era do streaming e multiplicidade de telas percebemos que a produção audiovisual nunca esteve tão próxima das pessoas.

“É uma grande provocação, um festival de cinema trazer a televisão para o debate audiovisual, faço a meu questionamento: como o cinema e a tv brasileira podem se adaptar e se reinventar nessa distopia?”, diz o cineasta Tadeu Jungle.

O filósofo, escritor e liderança indígena Ailton Krenak afirmou que a luta é pela demarcação de terra e tela, e assim angariar a democratização da informação. “Nos anos 1980 no programa da Xuxa ou do Chacrinha, os índios eram vistos como estranhos no ninho. Era uma verdadeira ofensa aos povos indígenas, com todas as caricaturas do cinema americano, a televisão foi a mais sincera adesão a esse tipo de manipulação de narrativa, resumindo nossa pluralidade enquanto povo em passinho pra frente passinho pra trás”, conta Krenak durante o debate.

Serviço

15ª Mostra de Cinema de Ouro Preto

Quando: 3 a 7 de setembro

Onde: cineop.com.br

Gratuito