• Victor Hidalgo

Como Steve Bannon organizou a extrema-direita na internet

Internet

Como Steve Bannon usou de um incidente nos jogos para eleger dois presidentes e tirar a Inglaterra da União Europeia

Stephen Kevin "Steve" Bannon é um assessor político estadunidense, ele foi assistente do presidente Donald Trump e estrategista-chefe da Casa Branca. Foto: Joel Saget/AFP

Em 2020, ficou claro o domínio da extrema-direita na internet e redes sociais, manipulando narrativas através de notícias falsas para destruir a imagem de pessoas e impulsionando criadores de conteúdo do seu meio.

Enquanto isso, a esquerda continua presa no passado, ignorando essa mudança brusca no cenário político, acreditando que o campo virtual não era digno de atenção. Como isso tudo começou? Qual foi o ponto de ignição que acabou culminando na atual situação política do Brasil e do mundo? Para saber disso, precisamos voltar alguns anos e observar uma área que talvez passe despercebido por muitos, mas que foi ponto vital nessa mudança de paradigma: videogames.

Foi esse grupo que iniciou uma campanha de ataques a um grupo específico de mulheres e que despertou o interesse e curiosidade de Steve Bannon, o "guru" do presidente Donald Trump e posteriormente da família do presidente Jair Bolsonaro, ainda na campanha de 2018.


Direcionar propaganda para grupos de pessoas específicas não é nenhuma novidade, disse Christopher Wylie, em entrevista para o El País Londres em março de 2018. Na época ele alertava para a diferença entre enganar uma pessoa e criar uma realidade na medida certa para alguém, destacando o fato de quem utiliza esses dados pessoais, sabe quem é ou não suscetível para acreditar nas teorias da conspiração. Ele vai além, ao enfatizar que ao conhecer os perfis dessas pessoas se torna fácil o processo de conduzi-la em uma espiral de notícias falsas.

No Brasil, tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) um inquérito contra notícias falsas. O juiz e relator, Alexandre de Morais, já tem em mãos um vasto material, entre eles, depoimentos de deputados que teriam envolvimento com o conhecido “Gabinete do Ódio”, responsável pelos ataques de 2018 e que perduram até hoje.


Steve Bannon em encontro com o presidente Bolsonaro, em 13 de setembro de 2019. Foto: Alan Santos/PR


Como tudo começou

Agosto de 2014. Uma campanha surge na internet visando atacar diversas mulheres inseridas na indústria de jogos de videogame. Desenvolvedoras como Zoë Quinn e Brianna Wu, assim como a feminista crítica de jogos Anita Sarkeesian, foram alvos. Esse movimento ficou conhecido como GamerGate, uma alusão ao caso de Watergate, e dizia ser uma ação contra práticas antiéticas no jornalismo de jogos, não era. Zoë foi acusada pelo seu ex-namorado de ter dormido com um crítico para que ele favorecesse seu jogo, as acusações nunca foram comprovadas.


O que antes eram trolls de internet, perfis que atacavam individualmente pessoas, que se escondiam em fóruns conhecidos como chans e na deep web, conseguiram encontrar uma causa que os unisse para lutar contra um inimigo em comum: feministas, LGBTQ+ e qualquer um que fosse declarado progressista. Estes três grupos passaram a ser vistos como uma ameaça ao estilo de vida que tinha sido consolidado para os gamers, seus jogos estavam sendo "invadidos" por representatividade e política, eles não queriam isso.


Essa foi a primeira vez em anos que a extrema-direita tinha conseguido se organizar. E Steve Bannon, assessor político estadunidense que serviu como assistente do presidente Donald Trump e estrategista-chefe da Casa Branca, conseguiu enxergar o potencial dessa organização. Ele se infiltrou no meio dos gamers e estudou seus movimentos, como se mobilizavam e o que os unia. Aplicando essa estratégia na campanha de Donald Trump, em 2016.

O site de notícias do Buzzfeed fez uma reportagem investigativa que revelou como Bannon, o até então estrategista da Casa Branca, usou o movimento de ódio criado no meio dos gamers para disseminar conceitos de supremacia branca e nazismo entre os jovens americanos. Steve instruiu Milo Yiannopoulos, editor de tecnologia do site de extrema-direita Breitbart e um expoente do GamerGate, a atacar e desmoralizar ativistas libertários, um deles foi Shaun King, ativista do Black Lives Matter.


Milo aplicou o que Bannon aprendeu e usou isso a seu favor, dizendo ser contra o politicamente-correto e as feministas que queriam acabar com os jogos. Assim, ele arrebanhou milhares de seguidores no Twitter, sendo em sua maioria homens heterossexuais brancos e fez um verdadeiro bombardeio de propaganda nazista e teorias da conspiração contra Hillary Clinton. A mais famosa, o PizzaGate, dizia que a candidata participava de um grande esquema de tráfico de crianças e pornografia infantil.


Desenvolvedora Zoë Quinn. Foto: John Lamparski


Esse ataque coordenado e realizado em 2014 pelos usuários da hashtag Gamergate às mulheres na indústria de jogos foi uma bandeira vermelha ignorada pela mídia tradicional estadunidense. Não se deu a devida importância para o caso. Mas em 2016, o jornalista Matt Lees, do The Guardian, notou que os ataques que a mídia tradicional estava sofrendo sobre a administração Trump eram muito similares aos ataques sofridos por elas em 2014.

“As similaridades entre o GamerGate e o movimento da extrema-direita na internet são grandes, de nenhuma forma são uma coincidência. Como um antigo executivo da Breitbart News, Bannon foi responsável por criar o monstro midiático, Milo Yiannopoulos. Ele ganhou fama no Twitter dando apoio ao movimento GamerGate. Essa hashtag era um canário na mina de carvão, e a gente simplesmente o ignorou”, afirma Matt no artigo publicado em 1 de dezembro de 2016 no The Guardian.


O ponto principal levantado por ele no artigo é a existência, já em 2014, de Youtubers apoiando a hashtag e atacando a imprensa. A atuação era voltada para minar a credibilidade da grande imprensa, tornando os youtubers nas únicas fontes confiáveis de informação no meio dos jogos. A campanha realizada por eles apontavam os jornalistas como corruptos, que trocavam notas de análises por favores sexuais. Esta denúncia nunca foi comprovada. Apesar disso, Bannon usou esta linha de ataque à grande imprensa e aos jornalistas que nela atuam.

Bannon também foi responsável por ser um dos consultores que levou a Inglaterra a votar pelo Brexit. Arron Banks, financiador da maior campanha a favor do Brexit, enviou um e-mail pedindo ajuda para a Cambridge Analytica, banco de dados fundado por Bannon. No e-mail pedia a realização de uma campanha de angariação de fundos nos Estado Unidos para apoiar a saída da Inglaterra da União Europeia.

Cambridge Analytica foi uma das peças chaves para essa campanha, já que foi utilizada para roubar dados de usuários do Facebook e usar essas informações para direcionar campanhas para os usuários de acordo com seus perfis. Um ex-funcionário da empresa, Christopher Wylie, em entrevista para o El País Londres no dia 26 de março de 2018, comenta o impacto da atuação da empresa nas eleições:

“Se você olha os últimos cinco anos de pesquisa científica de perfis psicológicos usando dados sociais, comprova que pode fazer perfis de atributos psicológicos. Não há dúvida de que pode traçar o perfil das pessoas e explorar essa informação. Que isso seja adequado em um processo democrático é algo em que as pessoas deveriam pensar. Nós estamos nos digitalizando como sociedade, e quanto mais o fazemos, mais importância os dados adquirem. Temos que aceitar que os dados pessoais estão se transformando em uma parte integral da digitalização da sociedade. A questão não é evitar que dados pessoais sejam usados. A pergunta é quais são os riscos do uso dos dados pessoais e como podemos garantir que sejam processados e administrados de um modo seguro para as pessoas”, diz Wylie para o jornal El País Londres.

Brasil

Eduardo Bolsonaro com Steve Bannon. Foto: Reprodução/Twitter

“Pessoa ícone no combate ao marxismo cultural”, escreveu o parlamentar brasileiro Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) ao homenagear Steve Bannon, na festa de 65 anos do estrategista em Washington. Eduardo Bolsonaro foi convidado para a festa realizada em novembro de 2018.


Não foi muito diferente aqui no Brasil. Porém, a ferramenta utilizada foi uma que se encontra na palma da mão do brasileiro: o Whatsapp. Hoje, cerca de 99% dos aparelhos celulares no país possuem o aplicativo instalado, segundo dados da pesquisa realizada pelo Panorama Mobile Time/Opinion Box sobre mensageria móvel no Brasil em 2020. O que torna a plataforma um atrativo para campanhas desse estilo.

E percebendo isso, a campanha do atual presidente Jair Messias Bolsonaro utilizou massivamente o aplicativo. Por meio do Whatsapp, compartilhou notícias falsas que minaram seus adversários políticos e o fez crescer como candidato. Uma das mais famosas notícias compartilhadas foi a do Kit-gay, que nunca existiu e até foi citado por Bolsonaro na sua passagem pelo Jornal Nacional. Essa fake news é, até os dias atuais, reproduzida por seus seguidores.

Além disso, houve um esforço de fortalecer uma rede de apoiadores para criar uma base bolsonarista forte, tendo os próprios influenciadores e pseudo-jornais. O presidente indica canais de Youtube para sua base seguir, assim como diversos criadores de conteúdo, dominando o espaço virtual. Existem grupos no Facebook (que não vamos incluir aqui para não divulgá-los) com mais de cinquenta mil participantes trabalhando para impulsionar esses criadores de conteúdo de extrema direita.

“A gente tem que entender que o mundo mudou radicalmente de 2010 para cá. Hoje o que se tornou a plataforma de disputa é o mundo da informação. E esse mundo hoje em dia não é mais o que era há dez anos. O advento das redes sociais transformou toda a maneira como a comunicação é feita até fora dela. E esse momento, as esquerdas perderam de vista. O debate da esquerda no quesito de redes ainda está na época do blog e ainda citam a campanha do Obama como uma demonstração de sucesso das esquerdas na comunicação. Temos há dez anos a consolidação de um ecossistema avesso a presença das esquerdas. O discurso que sempre prevalece é o ante esquerdista, a própria mídia exalta isso. Discutir ser a esquerda e passar sua mensagem neste espaço exige um tipo de tática que até o momento às esquerdas como um todo parecem não ter isso em mente”, explica o antropólogo e podcaster Orlando Calheiros, durante o episódio 165 sobre militância nas redes do podcast Lado B do Rio.

Segundo Orlando, o vácuo e desinteresse das esquerdas pelas redes sociais acabaram deixando o caminho aberto para que a extrema-direita mundial se apropriasse do controle da narrativa, dentro e fora dela. Enquanto não houver organização das esquerdas e ações coordenadas para contestar e ocupar esse espaço político, estamos fadados a repetir os acontecimentos do passado.

Com esse espaço de luta política em disputa, mas ainda dominada pela extrema direita, existem pessoas que começaram a se mobilizar para tentar mudar o jogo no segundo tempo. São pessoas que viram a necessidade de fazer um contra ataque forte, mas usando informações verdadeiras, para poder enfrentar essa epidemia de notícias falsas. E nós conversamos com elas. Você pode conferir na segunda parte desta reportagem, na quinta-feira (5), aqui no JM.


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