• Júlia Lee Aguiar

Como transmutar amor em anarquia?

Ensaio

Em uma sociedade liquida, que teme e impede que o amor floresça livremente, o afeto se transforma em uma arma revolucionária

Fim de tarde em Salvador - Bahia, no topo do Pelourinho. Dezembro de 2019. Analógica, Zenit, Kodak Vision 200T. Foto: J.Lee


Entre os céus que transbordam um azul intenso - daqueles que fazem as fotos ficarem estouradas de sinuosos sonhos de criança – prevejo um futuro caloroso. Quiçá, caro leitor, eu sobreviva de esperança. Ao observar atentamente os raios de luzes que banham meus olhos de cigana, o tempo, para, por alguns segundos, em movimento.


Conduzo os sentidos como tapas de veludo na ponta do nariz, assim, a substância afetuosa dos calores diversos me transbordam. Sabe aqueles olhares perdidos no abismo do acaso, que vez ou outra é capturado pela eternidade? Refiro-me as lentes atentas, dos cliques lentos como o saxofone que banha a música “Poucos Passos”, recém lançada por Diego Robert. Aos brilhos nas janelas no fim de tarde e reflexos da chuva nas calçadas, ao vapor que sai da panela de pressão na casa de vó na hora do almoço.


O afeto é revolucionário.


Me questiono quantas vezes fiquei ruminando sobre o que seria o amor. Já percorri diversas teorias e experiências para comprovar o óbvio que não é dito por ninguém, que fica escondido entre as camadas pesadas de comportamentos ancestralmente ensinados. Sabe quando você olha por uma fresta reluzente e se depara com um espelho?


Percorrer os sentidos para experimentar o que é existir enquanto conjunto de células vivas, fragmentos de si e do mundo em fusão constante.


“Abre os meus espaços /Transborda sobre mim sua substância /Estamos a poucos passos /De centímetros negativos de distância” – Trecho da música “Poucos Passos”

A união entre o estar e o agora. Os humanos são capazes de manipular o tempo, rememorar a existência a tal ponto que qualquer pedaço de pele ativa em seu corpo vibre em êxtase sobre o presente de estar vivo. Sim, é possível. Mas, pode parecer utópico, em um mundo que é comum respirarmos violência.


A possibilidade minuciosa de encontrar segundos de entrega é algo que percorre cotidianamente por meus mais profundos questionamentos. Afinal, qual foi o processo de aprendizagem que me proporcionou ter sensibilidade ao reconhecer o que é afeto? Somos tudo aquilo que aprendemos ser.


Acreditei por muito tempo que o amor machucava, que o afeto era algo a ser cobrado e que o sentir-se acolhido era moeda. Em uma sociedade forjada em estruturas opressoras, o corpo se transforma em máquina, incapaz de se permitir a vulnerabilidade necessária para conciliar a fluidez dos sentidos. Ora, quem lhe ensinou que não é possível amar visceralmente os momentos da vida? O amor vem em grãos de areia perdidos no acaso do deserto.


“Se tudo é produto do acaso cego, e se tudo leva necessariamente a nada, onde há espaço para a liberdade?”, questiona o filósofo checo-brasileiro Vilém Flusser no texto “Filosofia da Caixa Preta”, de 1985. Amar em tempos de fúria é como caminhar por uma tempestade de areia, fazer corpo com o caos para entender que o carinho nasce da subjetividade simbólica das ações cotidianas.


Sei que muitos não possuem as portas das sensibilidades escancaradas, tal tragédia é planejada, milimetricamente calculada para manipular os estímulos que fazem a vida pulsar, os donos da sociedade moderna cegam os nervos do corpo ao reinventarem suas funções.


“Na profundidade, existem e agem socialidade e a sexualidade naturais, a alegria espontânea no trabalho e a capacidade para o amor. Esse terceiro e mais profundo estrato, que representa o cerne biológico da estrutura humana, é inconsciente e temido. Está em desacordo com todos os aspectos da educação e do controle autoritários. Ao mesmo tempo, é a única esperança real que o homem tem de dominar um dia a miséria social”, afirma o psicanalista Wihelm Reich no livro “A Função do Orgasmo”, de 1927.


Com a revolução industrial, os movimentos corporais passaram a estar à mercê do trabalho e do grande capital. Os corpos se transformaram em máquinas de fazer dinheiro, e o sexo se tornou apenas para fins reprodutivos. Tal imposição comportamental impede que os humanos se permitam sentir prazer, afeto, tesão e conexão com seus próprios corpos.


Mas, como bem afirmaram os teóricos da comunicação Marshall McLuhan e Quentin Fiore no livro “O meio é a massagem”, de 1967, “a extensão de qualquer dos sentidos altera a maneira como pensamos e agimos – a maneira como percebemos o mundo. Quando essas relações mudam, os homens mudam”. Os humanos estão em eterno aprendizado.


Tarde ensolarada em Igatú, Chapada Diamantina, Bahia. Na foto, Dudu, cria da doula Luiza Reis, em um segundo de troca de olhares intensas entre ele e essa que vos escreve. Foto: J.Lee


Foi pelas andanças nas estradas de terra e sol na Chapada Diamantina, Bahia, que conheci a força da natureza chamada dona Zumira. Uma senhora negra e indígena de mais de 90 anos, moradora de uma casinha simples do século 18, com intensas rusgas no rosto e um olhar furioso. Zumira é conhecedora dos segredos do tempo.


Em uma visita que a fiz, ela me disse que toda luz que vem de dentro era destinada a reluzir em águas turbulentas. “A menina não pode temer o balanço de Yemanjá”, me dizia com seriedade. Aquela semente com dedos de raízes profundas e ensinamentos sensíveis me mostrou como observar as vísceras da existência ao contemplar o outro. Tal magia me permitiu entender o que era o privilégio de conhecer o afeto dos corpos, estes mesmos corpos que produzem sensações de realidade ao seu redor, amontoados de células dançantes que compõe nossa existência enquanto seres individuais e únicos. Tal magia me fez assistir de longe o afeto que cada um tem com seus próprios movimentos perante os segundos da vida.


Confesso que busquei incansavelmente – e ainda busco – por tais momentos de prazer em me deparar com o privilégio de sentir. De gota em gota construí um rio calmo o suficiente para repousar os medos da vulnerabilidade, não foi – e não é – tarefa fácil. Em constante movimento, minhas águas percorrem sinuosamente pelas brechas do amor universal.


“Em todas as nossas relações com a natureza, com as coisas e conosco mesmo, a cor e o sabor da vida parece mesmo decorrer da sensualidade”, afirma o psicanalista anarquista Roberto Freire, no livro “Sem Tesão Não Há Solução”, de 1990.


“Vivo emaranhado deliciosamente nas relatividades absolutas, intensas, apaixonadas e vãs de sonhos, delírios, visões, alucinações e deslumbramentos, que confundo com os aspectos surreais, fantásticos, mágicos e encantados da realidade. De que jeito, pois, é que eu posso saber como e quando as emoções, os sentimentos e os pensamentos se produzem dentro de mim, se me percebo em relação à vida igual a um espelho refletindo e refletido, tanto na condição de objeto quanto na de imagem do que reflete e é refletido num outro espelho maior e paralelo? Sempre senti que era assim e, quisesse eu ou não, tudo continuou assim até agora. E não me espanto e nem me inquieto com isso. Apenas relaxo e aproveito o prazer de relaxar e aproveitar o que acontece entre os espelhos e nos espelhos”, continua Freire no mesmo livro.


Foto: Dona Zumira olha para o céu em busca. Dezembro de 2019, Caetité, Bahia - J.Lee


O que é, afinal, amar o outro? “Quando eu vejo você olhando assim, vendo em mim o que eu vejo em ti”.


Quiçá, amar seja somente um reflexo natural de nós humanos. Lhe digo, não há teoria possível que contemple aqueles segundos de suspensão espaço-temporal quando você observa cuidadosamente as janelas do outro. Amar é união, é entender que não estamos sozinhos quando percebemos a presença. Fazer corpo com os universos se integrando, não para se transformar em uno, mas para sentir a criação da força que permite a essência humana dos sentidos esteja livre para existir. Simplesmente, existir.


Somos, de fato, tudo aquilo que aprendemos ser. Mas, não precisamos continuar nesse ciclo incessante da rapidez desenfreada, temos o direito às pausas sem tempo. O afeto é revolucionário, pois ao perceber o outro com sinceridade entendemos que todos nós – humanos – somos frágeis.


A vulnerabilidade cria terreno fértil para a empatia, que quando transmutada em solidariedade, se torna nada mais, nada menos, que a própria revolução pela liberdade.


Que a Terra lhe seja livre, ainda em vida, caro leitor.

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