Que sejamos mais antropofágicos

May 19, 2019

Tropicália 

 

 

O mês de maio de 1967, foi marcante para o cenário cultural brasileiro por dois motivos: o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, entra em cartaz; e Gilberto Gil lança seu primeiro LP, Louvação, em parceria com José Carlos Capinan, Toquarto Neto e Caetano Veloso, dando início as bases do que viria a ser um dos maiores e mais originais movimentos brasileiros, o Tropicalismo.

 

Caracterizado como um movimento de ruptura, que sacudiu principalmente a música nacional, entre 1967 e 1968. Seus participantes formaram um grande coletivo, cujos destaques foram os cantores-compositores Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, a cantora Maria Bethânia, a banda Mutantes, o maestro Rogério Duprat, além da cantora Nara Leão, os letristas José Carlos Capinan e Torquato Neto e diversos outros artistas gráficos, compositores, poetas e cineastas, a exemplo de Glauber Rocha e seu Cinema Novo. O movimento queria se afastar do elitismo da Bossa Nova, dos movimentos musicais ligados a esquerda e da Jovem Guarda (que reproduzia um estilo vindo de fora).  

 

A pré-história da tropicália se encontra na agitação política e cultural da sociedade brasileira do início dos anos de 1960, marcada pelo ideário nacional-popular e seus desdobramentos, como o CPC (Centro Popular de Cultura), que promovia campanha de alfabetização de adultos pelo método Paulo Freire, além da defesa de uma conscientização e libertação popular. Essas influências marcantes são perceptíveis em várias canções do movimento, como em “Samba em paz”, de Caetano. Outro exemplo é “Procissão”, de 1965, já pós-golpe militar, onde Gil fala sobre a situação de abandono do homem do campo.

 

Em 1967, o movimento realmente ganha seus contornos. Buscava se inserir no mercado musical/cultural e na sociedade de massa, ao mesmo tempo em que criticavam tais esferas, assim como a ordem estabelecida pela ditadura e sua repressão. Criticavam também várias formas estéticas populares da época. A tropicália intentou juntar aspectos arcaicos e modernos, tradição brasileira e influências das vanguardas estrangeiras, para então reinventar esse mix de modo antropofágico, criando algo originalmente brasileiro. Por antropofagia se entende a atitude estético-cultural fundada, cunhada e teorizada por Oswald de Andrade, inspirado no quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral, e nas sociedades indígenas originarias. É a ideia de um rito sacrificial, um processo dialético de destruir para construir em cima, deglutir para combater e superar o inimigo, transforma-lo em matéria prima do novo. Foi isso que o movimento fez com as correntes artísticas da vanguarda e da cultura pop nacional e estrangeira (como o rock psicodélico e o concretismo).

 

Sem deixar de lado as questões formais, em termos de arranjos musicais, o tropicalismo, como um todo, expressa um florescimento cultural e político, preocupado com a nação e a autonomia do povo, além de estarem afinados com as mudanças do cenário internacional do período. Como apontado no livro “Tropicália: gêneros, identidades, repertórios e linguagem”, a essência da proposta estava na revolução da linguagem musical e das artes em geral, com reflexos no próprio comportamento desses artistas e de quem aderia ao movimento.  

 

A ideia era violar as fronteiras entre tradição, vanguarda, popular, erudito, pop, rock, regional, arte, convenções, nacional, internacional, revolução e mercado. O fundamental não era única e simplesmente o conteúdo de protesto social, mas também a forma, que se pretendia inovadora, que em si era uma crítica ao status quo estético. A exemplo, temos “Soy loco por ti, América”, de Gil e Capinan, interpretada por Caetano em seu primeiro LP, de 1968 (em dezembro desse mesmo ano entrará em vigor o AI-5). Ou como na música “Enquanto seu lobo não vem”, do disco Tropicália, também de 1968, com referências claras ao combate à ditadura.

 

Outro exemplo da simpatia do grupo tropicalista pelos militantes da guerrilha encontra-se na canção “Alfômega”, de 1969, que Caetano gravou antes de ir para o exílio com Gil, após terem sido presos por supostamente desrespeitarem a bandeira nacional. Os militares ainda alegaram que Caetano havia cantado o Hino Nacional inserindo versos ofensivos às Forças Armadas.

 

Em “Alfômega”, Gil fazia a voz de fundo para a interpretação de Caetano e em um trecho de difícil percepção, que conseguiu burlar a censura, o cantor pronunciava o nome de Marighella, importante líder guerrilheiro do período, que lutou contra as violências e opressões da ditadura.

 

Entretanto, vale ressaltar, junto com o engajamento político nas artes do pós-1964, houve também a consolidação da indústria cultural (consumo em massa de bens artísticos) na sociedade brasileira, criando um seguimento de mercado disposto a consumir produtos culturais de contestação (qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência ...). Os tropicalistas também se deram conta disso, da ironia entre a indústria cultural e a modernização autoritária. Com expresso na música “Parque industrial”, de Tom Zé:

 

“[...]Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação
Despertai com orações

O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção

A revista moralista
Traz uma lista dos pecados da vedete
E tem jornal popular que
Nunca se espreme
Porque pode derramar
É um banco de sangue encadernado
Já vem pronto e tabelado
É somente folhear e usar
É somente folhear e usar
Porque é made, made, made
Made in Brazil
Porque é made, made, made
Made in Brazil
Porque é made, made, made
Made in Brazil
Made in Brazi”

 

De atuação breve, mas marcante e influente até hoje, o movimento teve fim em 1968. Entretanto, em tempos onde a grande maioria de nós consomem produtos culturais estrangeiros sem nenhuma percepção crítica e onde políticos “lambe as botas” de norte-americanos, talvez resgatar o tropicalismo nos ajude na tomada de consciência e na necessidade de lutas políticas em um contexto tão amargo e delicado. Que sejamos mais antropofágicos!!

 

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